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ANA assina memorando sobre Montijo a meio de fevereiro

Luís Barra

Governo escolhe base da margem sul para aumentar os voos com destino a Lisboa

A ANA, concessionária dos aeroportos comerciais portugueses, deve assinar, a meio de fevereiro, um memorando de entendimento com o Governo para desenvolver todos os projetos de transformação da Base Aérea do Montijo em aeroporto comercial, funcionando como complemento do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. O Expresso sabe que o Governo escolheu a solução do Montijo e que o objetivo de avançar já com a assinatura do memorando relaciona-se com a tentativa de ter o aeroporto “da margem sul” operacional para receber passageiros civis, “se possível”, já no final de 2018.

Com o crescimento das operações das companhias aéreas em Lisboa, a saturação do aeroporto será mais rápida, impondo a utilização de infraestruturas complementares que permitam aumentar o tráfego aéreo sem restrições, em alternativa à construção de um grande aeroporto em Alcochete, que implicaria uma capacidade financeira inexistente.

Por enquanto são desconhecidos os custos das ligações rodoviárias dedicadas e o valor das compensações a pagar à Força Aérea para disponibilizar a base do Montijo — que o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, referiu na Assembleia da República não serem da ordem dos €400 milhões frequentemente invocados, considerados um valor muito elevado. Quer o autarca do Montijo, Nuno Canta, quer o presidente da TAP, Fernando Pinto, manifestaram publicamente disponibilidade para encontrarem soluções.

O grupo que controla a ANA — os franceses da Vinci — tem interesse em gerir o aeroporto por mais 30 anos, razão pela qual investirá num aeroporto que complemente a infraestrutura da Portela. Este investimento adicional — que o Governo quer que sirva para ter a obra do Montijo operacional durante a atual concessão do Aeroporto Humberto Delgado — pode implicar a renegociação da extensão do prazo do atual contrato da ANA.

É sabido que o aeroporto de Lisboa dificilmente comporta um tráfego superior a 23 milhões de passageiros sem ter problemas de funcionamento. Acontece que em 2014 o aeroporto movimentou 18,14 milhões de passageiros e em 2015 o aeroporto atingiu os 20,08 milhões de passageiros.

Em 2016, a TAP, principal companhia aérea do AHD, transportou em todos os seus voos 11,72 milhões de passageiros, mais 3,5% que em 2015. No entanto, a atividade da TAP aumentou mais no segundo semestre, registando um crescimento homólogo de 25% no tráfego de novembro e de 26% no de dezembro. A ponte aérea Lisboa-Porto atingiu 300 mil passageiros, mais 80% que em 2015 — só em dezembro a ligação aérea entre as duas maiores cidades do país cresceu 126% em número de passageiros transportados.

Nas linhas para os EUA a TAP transportou mais 186 mil passageiros, num total de 472 mil passageiros, mais 65% que em 2015, o que decorre da abertura em junho das rotas para Nova Iorque (aeroporto de JFK) e Boston e do reforço dos destinos de Newark e Miami.

Segundo informações do sector obtidas pelo Expresso, até novembro de 2016, a quota da TAP em Lisboa foi de 55% em número de voos e de 50% em passageiros. Em segundo lugar aparece a Ryanair, com 11% de quota em passageiros e 8,1% em voos. Em terceiro lugar está a easyJet, com 9% em passageiros e 7,9% em voos. O Expresso contactou as três companhias sobre a sua atividade, mas nenhuma se pronunciou. A ANA também não forneceu detalhes.

Este enquadramento faz antever um forte crescimento do tráfego aéreo em 2017. Só a TAP, a partir de julho, prevê aumentar 1176 voos por mês, ou seja, mais 273 mil lugares, cabendo a Lisboa um aumento de 136 mil lugares mensais. Esta evolução cria preocupações sobre a capacidade de resposta do aeroporto de Lisboa nos próximos meses de verão, sobretudo em junho, julho e agosto, em que o aeroporto de Lisboa ficará perto da saturação, segundo admitem as fontes contactadas.

A situação mais “dramática” será vivida no verão de 2018, altura em que o aeroporto será incapaz de gerir todo o seu tráfego, admitem os operadores. No verão de 2018 será impossível atribuir mais slots nas horas de grande movimento, o que impedirá o aeroporto de operar mais aviões nos períodos de pico.

Razões para 
a escolha 
do Montijo

A utilização integrada do Aeroporto Humberto Delgado com a Base Aérea do Montijo já foi avaliada pela NAV — Navegação Aérea de Portugal, responsável pela gestão do espaço aéreo de Lisboa, que considera que a solução Portela + 1 é a adequada para aumentar a capacidade aeroportuária na região. Também o estudo elaborado durante 2016 pelo Eurocontrol — organização intergovernamental com 41 membros responsável pelo Céu Único Europeu — analisou as várias hipóteses de utilização do espaço aéreo circundante a Lisboa, aceitando os cenários apresentados pela NAV Portugal.

Devido à orientação das pistas, as soluções dos aeródromos de Sintra e Alverca foram afastadas e desconsideradas por representarem dificuldades na gestão segura e eficiente da navegação aérea. Assim, a Base Aérea do Montijo é a única opção viável. O Eurocontrol utilizou técnicas de aproximação aos dois aeroportos — Humberto Delgado e Montijo —, designadas por point-merge, e a autorização de descolagens com um minuto de intervalo entre si, conseguindo uma gestão otimizada do tráfego aéreo, viável no longo prazo. A utilização das aproximações point-merge necessitará do espaço aéreo militar de Sintra e Monte Real, impondo ligeiras restrições, enquanto o sistema de descolagens de um minuto precisa do espaço de Alverca. Adianta que a utilização complementar do Aeroporto Humberto Delgado com o do Montijo não terá implicações nas operações militares no Campo de Tiro de Alcochete. A opção da NAV Portugal garante o número de movimentos pretendido para o conjunto das pistas, ou seja, 48 movimentos no atual aeroporto e 24 movimentos no Montijo.

As três maiores companhias de transporte aéreo que operam em Lisboa

1 - TAP. 
Continua a ser a companhia líder no Aeroporto Humberto Delgado, que utiliza como hub da sua frota de 80 aviões, sendo responsável por 55% dos voos existentes em Lisboa e 50% dos passageiros em novembro de 2016.

2 - RYANAIR. Com uma frota de 294 aviões e um hub em Dublin, na Irlanda, a Ryanair ocupa o segundo lugar no aeroporto de Lisboa, com quotas de mercado de 11% nos passageiros transportados e 8,1% nos voos realizados até novembro de 2016.

3 - EASYJET. Com uma frota de 250 Airbus, 10 mil trabalhadores, 2300 pilotos, 800 rotas e operações em 31 países, a easyJet ocupa o terceiro lugar no aeroporto de Lisboa, com 9% dos passageiros e 7,9% dos voos até novembro de 2016.