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Sejam pacientes, diz Draghi aos alemães

O BCE continua a adiar discussão de descontinuação da política de aquisição de dívida pública ou de aumento das suas taxas de juro. Às pressões alemãs, Mario Draghi respondeu esta quinta-feira em conferência de imprensa que a inflação no conjunto da zona euro ainda "não é convincente" e que os "riscos globais predominam"

Jorge Nascimento Rodrigues

“É preciso ser paciente”, afirmou na conferência de imprensa desta quinta-feira Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), em relação à pressão, sobretudo alemã, para uma revisão da política monetária. O BCE decidiu nesta primeira reunião do ano manter a orientação aprovada pela maioria em dezembro do ano passado: taxas de juro diretoras continuam em mínimos históricos e programa de compras de ativos decorrerá até final do ano.

Por diversas vezes sublinhou que os alemães têm beneficiado do conjunto da política monetária posta em prática pelo BCE e que o banco central a que ele preside se guia pela evolução do conjunto da zona euro e não por dados relativos a um só país.

O italiano reafirmou que nenhuma discussão foi realizada nesta reunião de dois dias quer sobre uma descontinuação dos programas de compra de ativos antes de dezembro quer acerca de uma subida das taxas diretoras.

Apesar do processo de reflação – de subida contínua da inflação – na zona euro estar em curso e de, em algumas economias, como a Alemanha e a Espanha, a inflação estar consideravelmente acima da média global, o curso da inflação subjacente (ou seja, da inflação sem contar o comportamento dos preços na energia, alimentação, álcool e tabaco) “não é convincente” e continuam a pesar “predominantemente fatores de risco globais” sobre o horizonte da área da moeda única.

Draghi sublinhou a distinção entre a inflação, que tem estado a subir mais rapidamente em virtude do aumento dos preços de energia, e a inflação subjacente que tem subido mais lentamente. Em dezembro, a primeira quase duplicou, enquanto a segunda apenas subiu uma décima e mantém-se abaixo de 1%. Repetiu o que tem dito: o aumento da inflação tem de demonstrar revelar-se auto-sustentável, ser global a toda a zona euro, e não ser transitória, por exemplo, no comportamento dos preços da energia.

No concreto sobre os fatores globais de risco, Draghi nada disse. O presidente do BCE recusou-se, inclusive, a responder a questões sobre a nova Administração Trump nos Estados Unidos e sobre o Brexit. A resposta foi sempre a mesma e curta: “É cedo de mais para comentar”.

Mesmo quando ‘picado’ para comentar afirmações fortes, recentes, de Trump ao The Wall Street Journal de que “a nossa moeda [o dólar] é demasiado forte e está a matar-nos”, sugerindo a possibilidade de uma desvalorização, Draghi respondeu: “Vamos esperar pelas políticas reais, pelas ações, não vou comentar declarações”.

Acrescentou, no entanto, que há um acordo entre os menbros do G7 (das sete principais economias desenvolvidas) e do G20 (que reúne as vinte maiores economias desenvolvidas e emergentes) para se refrearem em usar desvalorizações competitivas das suas divisas.

A reunião desta semana do BCE decidiu, também, clarificar a decisão tomada em dezembro de poder adquirir ativos com juros abaixo da taxa negativa de -0,4% aplicada na remuneração dos depósitos dos bancos nos cofres do sistema de bancos centrais do euro. Aquela decisão só se aplica ao programa específico de aquisição de dívida pública no mercado secundário e não será geral, mas sim aplicado em relação a cada país. Por isso, poderá variar de uns casos para outros. Mas a prioridade será, sempre, dada à aquisição de títulos com juros acima daquela taxa.