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Fim da maior subida das obrigações 
desde o século XVII

Académico alemão estudou ciclos de valorizações da dívida soberana. Atual subida começou em 1981. Recorde atingido entre 1558 e 1664

O terceiro ciclo mais longo de valorização das obrigações de dívida pública na história do capitalismo financeiro pode ter chegado ao fim em 2016 (ver gráfico). Teve início em 1981 e traduziu-se numa subida do preço das obrigações soberanas das economias desenvolvidas e uma descida até mínimos históricos dos juros pagos. O fim de um ciclo deste tipo significa que os Estados vão deixar de se financiar a custos muito baixos, o que ocorreu, da última vez, entre 1946 e 1981. E isso pode ocorrer de um modo suave ou brutal.

“Em julho de 2016, o juro das obrigações sem risco [atualmente a dívida dos EUA é a referência] atingiu o ponto mais baixo em oito séculos de história financeira”, refere ao Expresso o académico alemão Paul Ferdinand Schmelzing que estudou os ciclos de dívida pública a nível global desde o século XIII. Acrescenta que, “desde agosto passado, o regresso de uma dinâmica inflacionista na Europa, na China e nos Estados Unidos, juntamente com a expectativa de um amplo pacote de estímulos orçamentais por parte da Administração Trump, contribuiu para uma reavaliação global dos preços das obrigações soberanas”. Schmelzing é investigador visitante do Banco de Inglaterra onde publicou os resultados deste estudo no blogue Bankunderground que reúne contributos de vários especialistas da instituição.

Começa a ser consensual entre os analistas que os mínimos históricos nos juros da dívida chegaram ao fim. Mesmo o Banco Central Europeu (BCE) não poderá anular este movimento de subida global no custo do financiamento dos Estados. “Até ao final de 2017, o BCE ajudará a conter, na zona euro, este ajustamento. Mas não pode reverter esta subida dos juros em si. Para as economias periféricas, como Itália e Portugal, uma preocupação adicional é o peso da dívida pública detida por investidores residentes, nomeadamente pelos bancos. Seria sensato resolver estes problemas antes do programa de compra de dívida terminar”, alerta o académico.

Num ciclo de valorização — designado em inglês como bull market —, o preço do título sobe e a chamada taxa de juro, que é, na verdade, uma taxa de rendimento (yield), desce. É sempre assim. A yield varia sempre em sentido contrário à cotação. Em 2015 e 2016 registaram-se mínimos históricos nos juros da dívida soberana nas economias desenvolvidas. Por exemplo, as taxas das obrigações portuguesas a 10 anos caíram para mínimos de 1,5% em março de 2015. Já na dívida alemã, que é a referência na zona euro, os juros desceram em julho de 2016 para um mínimo histórico negativo de -0,18%. Ou seja, os investidores ‘pagam’ para deter a dívida considerada de refúgio.

Fim do dinheiro barato

Agora, com a subida dos juros e a descida dos preços dos títulos poderá registar-se uma diminuição da rentabilidade anual da dívida. No caso de Portugal, isso verifica-se desde março de 2015 e para a zona euro desde agosto de 2016 (ver gráfico). Para os investidores na dívida portuguesa isso poderá significar o agravamento da rentabilidade que já foi negativa em 2016.

Schmelzing, que pertenceu à equipa de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff na Universidade de Harvard nos EUA, mapeou nove ciclos de valorização obrigacionista desde o século XIII, aquando da revolução financeira nas Repúblicas italianas.

O historiador económico analisou a evolução dos juros das obrigações consideradas sem risco, os títulos de referência em cada época, e constatou que o mínimo histórico foi registado em julho passado para os títulos do Tesouro norte-americano a 10 anos que caíram para 1,35%. O ciclo que terá terminado em 2016 prolongou-se por 36 anos e foi o terceiro maior desde que há este registo. O mais longo durou mais de um século — entre 1558 e 1664 — e abrangeu a época áurea do império espanhol, do ciclo da prata e das bancarrotas sucessivas em Madrid (e da primeira insolvência em Portugal, em 1605, no reinado de Filipe II).

O segundo ciclo, de mais de 40 anos, deu-se no auge do papel dominante das casas financeiras de Veneza no século XV que financiavam, então, a expansão portuguesa e as múltiplas guerras na Europa.