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Sabe mesmo quanto ganha?

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Ao longo dos anos, tenho-me apercebido que são poucas as pessoas que sabem exatamente ao cêntimo qual é o salário que recebem mensalmente. É estranho porque todos os meses cai na conta e, com a exceção de quem ganha comissões ou recebe bónus mensais, esse valor é sempre o mesmo

Pedro Andersson/SIC

Normalmente, sabemos que ganhamos mais ou menos “x”, que é o valor que guardamos de memória do tempo em que negociámos o ordenado ou de algum momento marcante mais recente em que fixámos um valor.

Se não acredita, faça o teste: tente dizer de cabeça o valor do seu ordenado com o valor exato das dezenas de euros. E a seguir compare com o valor real que recebeu no mês passado. Talvez tenha uma surpresa (agradável ou desagradável). O mesmo em relação a um casal. É muito comum o outro “achar” que sabe quanto dinheiro entra em casa todos os meses e por vezes tomam decisões de compra pensando que dá e afinal não é bem assim. Ambos sabem qual é o orçamento exato dos rendimentos mensais do agregado?

Isto apenas para chegarmos ao objetivo desta crónica: só podemos gerir bem o nosso dinheiro se soubermos exatamente quanto ganhamos e quanto gastamos.

Sabendo quando recebemos mensalmente, passamos a outro desafio. Uma coisa é o que recebe, outra é o seu salário real. Como?

Faça as contas ao que tem de pagar todos os meses apenas para poder trabalhar. Pegue no seu salário “limpo” e subtraia o valor dos combustíveis, da portagem, da alimentação, do estacionamento, etc. Vai ficar surpreendido com o resultado. Esse é o valor que tem disponível para TUDO o que resta e não o que cai na conta.

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Um exemplo prático: vamos imaginar uma pessoa que more na margem sul do Tejo (Alcochete, por exemplo) e que trabalhe no centro de Lisboa e que ganhe €1000 limpos. Terá provavelmente estes gastos:

• portagem Ponte Vasco da Gama: €2,75 x 22 dias = €60,50 por mês

• combustível: €120 por mês

• estacionamento: €5/dia = €110 por mês

• alimentação (almoço): €7/dia x 22 dias = €154 por mês

• alimentação (lanche): €3 x 22 dias = €66

As despesas são aproximadas e pode acrescentar mais alguma despesa, se for o caso, mas acho que já percebeu o conceito. Esta pessoa paga todos os meses mais de €510 só para trabalhar e ganhar €1000.

Claro que podem considerar este argumento demagógico, mas a verdade é que uma pessoa que ganhasse “apenas” €700 e conseguisse um trabalho na própria localidade onde mora, em que pudesse deslocar-se para o trabalho por exemplo a pé, de bicicleta ou transporte público e se pudesse ir comer a casa, ganharia o mesmo ou mais (e com mais qualidade de vida) do que quem trabalha no centro de Lisboa a receber €1000.

Claro que depois tem de contar com o subsídio de férias e de Natal – quanto maior o salário, maiores serão estes dois subsídios, como é óbvio. E há que pensar na reforma e nos descontos para a Segurança Social. E há profissões em que ter trabalho (mesmo com prejuízo) é importante. Conheço uma professora que deu aulas durante um ano numa localidade fora da grande Lisboa com prejuízo todos os meses porque precisava do tempo de serviço para concorrer no ano seguinte. E há a realização profissional de cada um. Não tem preço.

E sei como é difícil encontrar empregos e manter os que temos.

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Este exemplo é apenas para alertar que devemos ter a noção exata de qual é a nossa realidade financeira. Pode não ser tão boa como julgamos e isso pode ser decisivo na altura de fazer compras mais avultadas e que nos sufocam o orçamento durante meses ou anos. Uma coisa é o que ganhamos mensalmente (que entra na conta bancária), outra é o nosso salário “real”.
Quando receber uma proposta de emprego (ou estiver à procura), faça estas contas para saber se o salário que lhe estão a propor é realmente bom, face às despesas que vai passar a ter. Chama-se a isto “literacia financeira”.

Lamento se esta crónica não é propriamente agradável para começar o ano, mas se quisermos ter o nosso orçamento em ordem em 2017, temos de começar por estas contas mais difíceis. E por vezes temos de tomar decisões complicadas, mas que podem fazer todo o sentido do ponto de vista financeiro.

Faça uma lista de todas as despesas “obrigatórias” que tem relacionadas com o seu trabalho. Subtraia ao seu salário líquido. Esse é o seu salário real. É com esse que tem de contar.