Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Quiosques
 e casas 
em movimento

O sistema de Vieira Lopes é versátil e serve para casas, restaurantes ou bungalows de um eco-resort

RUI DUARTE SILVA

As casas rodam, seguindo o sol, permitindo ao longo do dia a articulação dos espaços interiores

E, no entanto, a casa move-se, seguindo o sol, comprovando a inesgotável magia da inteligência artificial. Mas, na fase de definir o modelo de negócio, Manuel Vieira Lopes, o fundador da empresa Casas em Movimento e de um sistema revolucionário patenteado em 77 países, evoluiu para o formato simplificado de quiosques inteligentes (‘Kiosks in motion for smart cities’), tendo como mercado-alvo os 308 municípios do país. O contrato de estreia é com a Câmara de Matosinhos, a meta é terminar 2017 com uma rede de 40 instalações, antes de avançar para o mercado externo. É altura de fazer render o investimento acumulado de €1,5 milhões em protótipos e investigação.

O arquiteto Manuel, 44 anos, exercitava o ofício em gabinetes convencionais quando os crescentes desafios no âmbito da climatização e eficiência energética despertaram o lado tecnológico e visionário que o habita. Imaginou uma ‘casa-girassol’ que, através de uma rotação de 180 graus, se protegesse do sol no verão e potenciasse o calor no inverno. O recurso a painéis solares revestindo a casa e a entrada em cena de organismos de referência do sistema tecnológico nacional conduziram o projeto a um estádio superior de inovação.

“É um conceito único no mundo que interfere na organização dos espaços interiores, viabiliza a transferência da casa para outro sítio e uma produção de energia cinco vezes superior ao consumo da casa”, resume o arquiteto. O segredo está na combinação “do algoritmo que suporta a automação com a morfologia e solução estrutural”. A versão final da casa concede dois tipos de movimentos. A rotação da cobertura fotovoltaica, criando alpendres e terraços, conjuga-se com a da própria estrutura, através de mecanismos e articulações que funcionam como eixos. É ao morador que cabe dar ordens à casa e decidir a sua posição, recorrendo ao comando ou a uma aplicação de telemóvel. A automação programada define uma velocidade semelhante à da rotação da terra, mas é possível rodar a casa em menos de 15 minutos, sem atordoar os ocupantes nem derrubar os objetos.

Prémios internacionais

O primeiro reconhecimento desta cruzada domótica verificou-se na edição 2012 do Solar Decathlon, apresentando um modelo com estrutura em madeira e uma rotação da cobertura limitada. O prémio (€100 mil) foi uma ajuda preciosa para financiar um projeto que seduziria depois o investidor Andrea Bertoli (aplicou €350 mil) e iniciava um roteiro de apresentações em palcos seletos como o MIT-Massachusetts Institute of Technology, em Boston.

No verão passado a última versão em aço e vidro, entretanto desmontada, esteve em exposição no Porto, em frente ao mar, com a novidade de incluir um módulo fixo, por causa das tubagens, incorporando a cozinha e a casa de banho. O movimento permitia que a cozinha, ao fim do dia, se fundisse com a sala, numa nova articulação de espaços. No momento de descer à realidade e definir um “produto escalável e um mercado abrangente”, Manuel lembrou-se do elogio de Álvaro Siza de que a casa era uma excelente solução para centros históricos por permitir abastecer de energia o edificado envolvente e afinou um novo conceito para o espaço público, numa lógica de plataforma comunicacional. ‘Kiosks in motion’ é “uma solução quatro em um”. Incorpora ecrãs informativos que rodam com o painel solar que produz energia em excesso ao dispor da autarquia e conta com um ambiente interior touch para promover o turismo e a economia local. Uma vantagem suplementar é o funcionamento em rede dos quiosques, permitindo a interação ou promoção cruzada entre municípios. O mais difícil “é conseguir os primeiros 10 contratos”, refere o empreendedor, ansioso para que o projeto liberte dinheiro à razão de €36 mil/ano por cada contrato de aluguer.