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O milionário “oportunista” por trás da Lone Star, o fundo que quer comprar o Novo Banco

JULGAMENTO Em 2011, a Lone Star foi condenada na Coreia do Sul por manipulação bolsista.

CHUNG SUNG-JUN/GETTY IMAGES

John Grayken fundou a Lone Star Funds em 1995 e fez fortuna com os erros dos outros. É descrito como um investidor implacável, que não olha a meios para maximizar os lucros, mesmo que isso signifique mudar de nacionalidade. A sua estratégia: comprar a preço de saldo e vender depressa e bem

Com uma fortuna avaliada em 6 mil milhões de euros, John Grayken, o fundador da Lone Star Funds, a entidade mais bem colocada para comprar o Novo Banco, é a quarta pessoa mais rica da Irlanda. Mas Grayken, que é também o segundo gestor de fundos privados mais rico do mundo, nasceu muito longe de Dublin, em Cohasset, um subúrbio a sul de Boston, nos Estados Unidos. Em 1999, numa jogada para pagar menos impostos, o milionário renunciou à cidadania americana e abraçou a irlandesa depois de se casar com uma britânica. Por causa disso, apesar de a Lone Star ter sede em Dallas, nos EUA, vive em Londres, porque não pode passar mais de 120 dias em solo americano sem ter de prestar contas ao fisco.

Num perfil publicado em março do ano passado com o título “O Banqueiro Milionário na Sombra”, a prestigiada revista “Forbes” descreveu-o como um “capitalista oportunista” que fez fortuna a partir dos erros dos outros: comprando ativos a bancos e estados soberanos sobreendividados e vendendo-os à melhor oportunidade. As suas táticas têm-lhe valido uma extensa lista de detratores, protestos de Nova Iorque a Berlim e Seul, e problemas com as autoridades. Em 2011, a empresa foi condenada na Coreia do Sul por manipulação bolsista na aquisição do Korea Exchange Bank. E, em 2015, a agência Bloomberg noticiou que o procurador-geral de Nova Iorque, Eric Schneiderman, tinha aberto uma investigação às alegadas “práticas predatórias” de Grayken e da Lone Star Funds.

Mas há pelo menos um grupo de pessoas com poucas razões de queixa de Grayken: aqueles que investem nos 15 fundos geridos pela Lone Stars, que têm garantido rentabilidades anuais na ordem dos 20%. Isso fez com que o investidor ganhasse também a reputação de alguém com o toque de Midas, capaz de pegar em ativos depreciados e de os valorizar rapidamente. O ciclo de vida dos seus fundos é relativamente curto – três anos ou menos. Comprar a preço de saldo é fundamental nesta estratégia. “Fazemos o nosso lucro na compra”, foi como André Collin, o presidente da Lone Star Funds, descreveu a estratégia da sociedade em fevereiro do ano passado.

PROTESTOS. A filosofia oportunista de Grayken e da Lone Star têm-lhe granjeado detratores em vários países

PROTESTOS. A filosofia oportunista de Grayken e da Lone Star têm-lhe granjeado detratores em vários países

HAN JAE-HO/REUTERS

“Ao longo de décadas, John tem tido retornos financeiros fenomenais e executado uma estratégia de investimento muito disciplinada. Isso coloca-o num campeonato próprio”, afirmou à “Forbes” Nori Gerardo Lietz, um professor da Harvard Business School que geriu uma das maiores empresas que prestam consultoria a fundos de pensões. Foi precisamente em Harvard que Grayken fez o seu MBA, depois de se licenciar em Economia da Universidade da Pensilvânia, onde se revelou implacável dentro do campo de hóquei em gelo – bateu o recorde de minutos de penalização no campeonato universitário.

O investidor conseguiu o seu primeiro emprego na divisão imobiliária do banco de investimentos Morgan Stanley, mas começou a trabalhar com hipotecas problemáticas e outros créditos falidos no início dos anos 90, quando conheceu o multimilionário texano Robert Brass. Em 1995, criou a Lone Star, que começou por investir nos Estados Unidos e no Canadá, mas rapidamente se focou na Ásia, em especial no Japão, Coreia, Indonésia e Taiwan. Em 2005, o fundo virou-se para a Europa, aproveitando a restruturação financeira de vários bancos para comprar dívida e outros ativos.

Dos centros comerciais à marina de Vilamoura

O fundo é considerado o candidato mais bem posicionado para comprar o Novo Banco, anunciou esta semana o Banco de Portugal. Vai passar à fase derradeira de negociação na segunda tentativa de venda da instituição financeira que resultou da resolução do Banco Espírito Santo. A Lone Star propõe comprar 100% do Novo Banco, por 750 milhões de euros, mas admite injetar mais 750 milhões na instituição. A proposta admite ainda a criação de uma entidade paralela, um side bank, para colocar ativos de má qualidade.

A confirmar-se a compra, este não será o primeiro negócio da Lone Star em Portugal. Em agosto de 2015, o fundo comprou quatro centros comerciais Dolce Vita – Porto, Douro, Coimbra e Monumental (Saldanha, Lisboa) - mas, poucos meses depois, vendeu três deles ao Deutsche Bank, numa operação de 200 milhões de euros (só o Monumental ficou fora da transação). Meses antes, em abril, tinha comprado ao Catalunya Banc os ativos imobiliários e a concessão da marina de Vilamoura. Na altura, estava ainda à procura de terrenos em Lisboa para construir edifícios residenciais e de escritórios.

No ano passado, o fundo tornou-se também o maior promotor imobiliário de Espanha, depois de comprar a Neinor, a imobiliária do Kutxabank, por 930 milhões de euros, e investir outros 300 milhões na compra de imobiliário a promotores e outras entidades financeiras. No total, o fundo gere hoje ativos num valor que supera os 60 mil milhões de euros.