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“Financial Times”: elogio ou crítica?

Jose Carlos Carvalho

Jornal britânico elogia Costa, que bateu as expectativas, mas deixa uma série de avisos à navegação. A dívida é alta, o PIB cresce pouco, a banca é um problema e os juros podem disparar a qualquer momento. O desafio para 2017 é outro e Marcelo já o disse na mensagem de Ano Novo

“Não pode haver uma crise na próxima semana, já tenho a agenda cheia”, disse um dia, com humor, Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA nas administrações de Richard Nixon e Gerald Ford. Kissinger não é português nem viveu em Portugal no último ano mas a sua frase bem podia ser usada por alguns dos responsáveis políticos portugueses. Ao longo de 2016, foram várias as crises anunciadas que acabaram por não acontecer. Desde o cartão vermelho da Europa ao primeiro Orçamento do Estado de António Costa, ao risco de estouro da ‘geringonça’ ou a ameaça de sanções europeias no verão.

Mas os piores cenários acabaram por não se concretizar e o Governo chega ao fim do ano com vários elogios. A começar em Marcelo Rebelo de Sousa mas passando também pela imprensa económica internacional que, no início, levantou algumas dúvidas sobre a solução de governo socialista apoiada à esquerda por PCP, PEV e Bloco de Esquerda.

Esta segunda-feira, foi a vez do “Financial Times”, num texto amplamente divulgado em Portugal. “Mantêm-se algumas preocupações mas o primeiro-ministro antiausteridade socialista bateu as expectativas” lê-se logo na entrada do artigo assinado por Peter Wise, correspondente do diário britânico em Lisboa. As palavras, simpáticas para António Costa, têm muito a ver com as (piores) expectativas que não se confirmaram. O jornal lembra que alguns viam Costa como um “aventureiro” que fez um “pacto diabólico com os comunistas e a esquerda radical”, que Passos Coelho falava numa “casa em chamas” e que “até agora não há nenhum fogo”.

A grande vitória do Governo é conseguir fechar o ano com um défice abaixo de 3% do PIB e poder tirar Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, onde está há quase uma década. Os números finais só serão reportados pelo Instituto Nacional de Estatística ao Eurostat no final de março, mas Costa já assegurou que ficará abaixo de 2,5%, o limite imposto por Bruxelas. Mas a dívida volta a subir e o crescimento será bastante inferior ao previsto inicialmente.

As expectativas? Quais expectativas?

Para o FT é tudo uma questão de expectativas. E estas não eram muito animadoras aos olhos dos partidos da oposição e de vários analistas. Houve quem falasse na vinda do Diabo, no falhanço da meta de défice e até num colapso do acordo político que sustenta o governo socialista. Nada disso aconteceu. Quer dizer que não há problemas? Nada disso. Mesmo com um tom elogioso, o artigo do Financial Times mete o dedo em algumas das feridas que castigam a economia portuguesa: fraco crescimento, dívida excessiva e banca.

Lembra o jornal que muitos dos críticos do Governo “temem que o modesto crescimento económico – previsto pelo Banco de Portugal em 1,2% para 2016 - seja demasiado baixo para sustentar a dívida pública acima de 130% do PIB” e que há também “preocupações com o frágil sector financeiro, penalizado por créditos problemáticos que estão a fazer aumentar os custos de financiamento do Estado”. Sublinha inclusivamente que as taxas de juro da dívida a 10 anos se aproximaram de 4% quando o Banco Central Europeu anunciou, em dezembro, a extensão do programa de compra de dívida a partir de abril num montante inferior. A taxa a 10 anos mantém-se próxima da fasquia dos 4% e rondava esta tarde os 3,927%.

É esta pressão dos mercados que, segundo um economista português não identificado citado pelo FT, faz com que “qualquer choque – bancos italianos, eleições francesas – possa precipitar uma crise”. A estes alertas, o jornal refere ainda outros problemas, como a reversão de reformas no mercado de trabalho, dificuldade em atrair investidores e controlo de despesa pública à custa do investimento público.

Este ano, António Costa não tinha agenda para crises, ainda mais para crises que nunca aconteceram. Mas há vários problemas que podem complicar a vida à economia portuguesa no próximo ano. E as expectativas para 2017, Marcelo já as fixou, são bem mais exigentes. O curto prazo é passado, o longo prazo está já aí.