Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

2017: O ano de todos os riscos

O menor dos problemas para Mário Centeno até pode ser a passagem em Bruxelas do ‘rascunho’ do Orçamento para 2018

José Carlos Carvalho

Stresse do rating, eleições 
na zona euro, incerteza sobre Trump, ‘Brexit’, esgotamento 
da ajuda do BCE. Não há 
escassez de momentos críticos

Não é a pergunta de um milhão de dólares, ou euros, neste final de ano, mas podia ser. Se Portugal avançar em janeiro próximo com uma operação sindicada de nova linha de Obrigações do Tesouro (OT) no prazo de referência, a 10 anos, como o fez em meados do primeiro mês de 2015 e 2016, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) terá de pagar um juro de 4%?

A expectativa geral dos analistas ouvidos pelo Expresso é de que o nível dos 4% não está longe e poderá ser atingido, se não em janeiro, durante o ano de 2017. A materializar-se numa primeira operação sindicada, representaria mais de 1 ponto percentual em relação às operações sindicadas de 13 de janeiro de 2015 e de 14 de janeiro de 2016, lançando as novas OT a 10 anos. Então, o IGCP pagou 2,92% na primeira operação e 2,973% na segunda.

“Uma taxa de 4% para uma nova referência a 10 anos é certamente possível”, afirma ao Expresso David Schnautz, gestor de taxas de juro do Commerzbank. A possibilidade de um aumento do juro a pagar na operação sindicada é implicitamente indicada pela subida no mercado secundário das yields das OT naquele prazo desde agosto de 2016, quando chegou a menos de 2,7%.

Risco BCE

A subida deveu-se ao impacto de diversos fatores, entre eles o stresse com o risco de corte do rating de Portugal pela agência canadiana de notação de risco DBRS, que se prolongou por setembro e outubro, depois pelo impacto inflacionista da vitória de Trump nos Estados Unidos, provocando uma trajetória de aumento geral dos juros da dívida nas economias desenvolvidas e mais recentemente, após a última reunião do ano do Banco Central Europeu (BCE), as dúvidas sobre quando se esgotarão os títulos elegíveis para compras pelo banco central, apesar do prolongamento até final de 2017. Segundo o Commerzbank, Portugal estaria na primeira linha de esgotar esse canal de resgate (ver gráfico), à frente de Irlanda, Finlândia e Itália.

“Em geral, as obrigações soberanas portuguesas foram sensíveis a aumentos de aversão ao risco e tiveram um ano volátil em 2016. Não esperamos que esse padrão mude muito em 2017”, diz Daniel Lenz, estratego do DZ Bank. Lenz sublinha que, na primeira metade de 2017, Portugal irá estar exposto a muitos fatores externos de risco (ver agenda). Destaca ainda os riscos domésticos a ter em conta: “Há diferenças notáveis entre as previsões do Governo e da Comissão Europeia para o PIB e o défice.” E lembra que a política monetária do BCE pode ter um impacto muito crítico nos juros da dívida portuguesa.

Portugal é uma das economias periféricas que depende como de pão para a boca do canal de resgate via programa de compras de Frankfurt. “Uma vez que os juros comecem a subir na zona euro, os investidores podem reavaliar os prémios de risco de países mais endividados que beneficiaram fortemente do programa de aquisições do BCE.”

Para Ciaran O’Hagan, responsável da Société Générale pela estratégia de taxas de juro do euro, há o risco “de não estar totalmente incorporada no mercado a descontinuação do programa (tapering) do BCE e a subida de taxas pela Reserva Federal”.

Uma anomalia

Por seu lado, Alberto Gallo, gestor de portefólio da Algebris Investment, adianta que há três razões para uma pressão altista sobre os juros. A primeira é que “há, de facto, um problema estrutural de dívida e de crescimento” em Portugal, que leva a uma ‘anomalia’ recente. O custo de financiamento da dívida pública portuguesa é mais elevado do que o de endividamento de empresas europeias com o mesmo nível de rating especulativo (BB-) atribuído pelas três principais agências, sublinhou, recentemente, a Reuters (ver gráfico). O normal é que seja o contrário, pois a dívida pública costuma ser considerada menos arriscada do que a privada. A segunda “é que existe apenas um rating de grau de investimento a manter Portugal no programa de compras do BCE”. E, por isso, as revisões pela DBRS da notação portuguesa serão sempre momentos de alto stresse, o primeiro dos quais a 21 de abril.

Finalmente, a terceira “é que os dados macroeconómicos na Europa continuam a melhorar, o que coloca pressão sobre o BCE para fazer menos em vez de mais daqui para a frente”. “Acho inclusive que a descontinuação do programa vai ser discutida de novo e talvez até uma subida da taxa de remuneração dos depósitos que está em -0,4%”, prevê Gallo. Luís Bravo, gestor da DIF Broker, alerta que a própria DBRS “já colocou as emissões da CGD sob monitorização negativa” e que, para Portugal, qualquer alteração para uma política menos expansionista por parte do BCE ou contágio por efeito de eventos políticos na zona euro é “potencialmente letal”.

Contudo, alguns analistas não antecipam uma tal subida para 4% já em janeiro. Segundo Filipe Silva, diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa, “se Portugal vier a emitir dívida a 10 anos no próximo mês, a taxa será próxima da que estiver a ser praticada no mercado secundário”. Defende que “teria de acontecer algo muito relevante para haver uma subida de 15 pontos base e chegar a 4% num curto espaço de tempo”. Luís Bravo acredita que o juro de uma sindicação “pode ficar entre os 3,75%/3,85%, consoante o nível de procura — a procura pode reduzir-se um pouco, mas não antecipo ainda problemas de maior”.