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“Somos o Uber da moda”

Tiago Miranda

Entrevista a José Neves, CEO e fundador do site Farfetch

Catarina Nunes

Catarina Nunes

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Lançada em outubro de 2008, a Farfetch conta hoje cerca de 700 empresas na sua plataforma, entre lojas e marcas de moda de luxo. José Neves, CEO e fundador do site de comércio eletrónico, sustenta que luxo é o segmento com maior capacidade de defesa dos gigantes do negócio online. “Qualquer outro segmento vai ser trucidado pela Amazon, é uma questão de tempo”, prevê.

Como é que funciona o modelo de negócio da Farfetch?
Trabalhamos como uma plataforma, não compramos o stock, cobramos uma comissão pela venda (que não revelamos a percentagem), mas tratamos com todas as funções de e-commerce.

Onde é que está o stock?
Está nas lojas físicas, espalhadas pelo mundo inteiro. Somos o Uber ou o Booking.com da moda. Em cada ponto de venda existe software nosso que sincroniza o site com o stock das lojas, em tempo real, o que significa que o cliente está a ver um par de sapatos que pode estar em Capri. Ele compra esse par de sapatos, a loja em Capri é notificada, faz a embalagem do produto, nós comunicamos com a DHL, que faz o pick-up e que entrega no cliente final. Os produtos nunca passam pelas nossas mãos, a não ser uma unidade de cada para ser fotografada que depois é devolvida.

Como é que isso funciona?
Temos estúdios fotográficos em Guimarães, Los Angeles, Hong Kong e São Paulo, que servem todas as boutiques e marcas nos 35 países em que estamos presentes. A logística é essencialmente com a DHL, da qual somos o segundo maior cliente no Reino Unido, porque agregamos lá as faturas do mundo todo.

Quem é que define o preço, as lojas ou a Farfetch?
Os preços são os mesmos das lojas, mas claro que depois há as taxas alfandegárias. Se o produto vier dos Estados Unidos, por exemplo, todo esse cálculo tributário é feito pela nossa plataforma automaticamente.

Se o preço é igual ao das lojas, o que é que o consumidor vai à procura na Farfetch?
Vai à procura de produtos únicos que não consegue encontrar nas lojas físicas, porque nós de facto temos uma oferta absolutamente única. Temos 1500 designers e cerca de 120 mil produtos em cada época, e isso é maior do que qualquer department store.

Isso tem que ver com a alteração do perfil do consumidor de luxo, que viaja muito e compra no retalho tradicional?
E continua a comprar. Se formos ver, 90% das compras são ainda nas lojas físicas. O que está a acontecer é o canal online a crescer imenso e o canal offline estagnado. Acreditamos no casamento entre o offline e o online, porque as pessoas compram das duas formas, e nós queremos estar nessa vanguarda dessa união.

Para as lojas não é uma forma de canibalização?
Não. Estamos a dar acesso, por exemplo, a uma loja em Lisboa a clientes de Singapura, China, Austrália, que se calhar nunca viriam a Lisboa. O que isso permite é dar uma rotatividade ao stock, que em vez de estar acessível só à demografia de Lisboa está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana ao mundo inteiro. Temos um milhão de clientes ativos e isso permite uma otimização e rentabilização do stock incrível, comparada com uma loja física.

Porque é que recuou na ida para a Bolsa?
A Bolsa será o próximo passo da empresa, contemplado nos próximos dois, três anos, 2018, 2019. A entrada em Bolsa é a melhor forma de dar liquidez aos investidores, mantendo a independência da empresa.

Como é que vê o mercado do comércio eletrónico e o domínio da Amazon e do Alibaba?
São empresas fortíssimas. A Amazon é o maior vendedor de moda do mundo, mas não é luxo. A própria LVMH já disse que a Amazon não é uma plataforma para eles, da mesma forma que uma marca de luxo não está num supermercado. A Amazon é um supermercado com tudo misturado a rodar, escovas de dentes e pares de meias. Não se pode vender luxo com essas coisas. Não se pode ir a uma drogaria e encontrar malas Prada num cantinho.

Dentro da moda, o luxo é o que tem maior potencial para crescer?
O luxo é o segmento com maior capacidade de defesa dos gigantes do comércio eletrónico. Qualquer outro segmento vai ser trucidado pela Amazon, é uma questão de tempo. O luxo é uma venda emocional, que tem muito que ver com um lado estético, códigos de etiqueta que a Amazon não entende, porque vende-se de forma muito simples: preços baixos, entrega rápida, espremer os fornecedores e passar a poupança para o consumidor final. O bolo do comércio eletrónico é muito grande e o luxo é a cereja em cima dele. A nossa esperança é que a Amazon tenha uma indigestão a comer o bolo e que deixe a cereja de lado.

Qual é o impacto dos sites com imitações ou artigos em segunda mão?
Os usados são outro mercado. As imitações são ótimas para nós porque o consumidor sabe que somos um site em que todos os artigos têm uma proveniência legítima e isso promove lealdade em relação ao nosso site. O facto de haver marketplaces como o eBay e a Amazon, completamente desregulados, onde aparecem originais e réplicas, tudo misturado, dá-nos uma grande vantagem.

Qual é a estratégia para 2017?
O crescimento internacional e consolidar nos mercados onde já estamos, onde fizemos grandes investimentos e estamos a ter grandes crescimentos, como China, Japão, Coreia, Rússia, o próprio Brasil, os Estados Unidos.