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Bolsas mundiais ganharam 5,6% em 2016. Lisboa entre as 5 piores

Londres, Nova Iorque e mercados emergentes lideraram subidas. Europa caiu pelo terceiro ano consecutivo. Bolsas chinesas, Copenhaga, Lisboa e Milão com quebras acima de 10%

Jorge Nascimento Rodrigues

O conjunto das bolsas mundiais regressou ao verde depois do índice MSCI global ter perdido 4,3% em 2015. Os ganhos foram de 5,6% em 2016, segundo aquele índice, que registou subidas em 2012, 2013 e 2014.

Mas o ganho global no ano que findou esconde duas realidades muito distintas, em que a Europa é, no seu conjunto, o “doente” do mundo.

A Europa e os mercados fronteira (22 economias que não são consideradas emergentes) tiveram quedas, de 3,4% e 1,3% respetivamente, segundo os índices MSCI.

O índice para a Europa abrange praças de 15 economias europeias (incluindo a Bolsa de Lisboa, mas exclui, por exemplo, a de Atenas que é considerada emergente) e está em queda pelo terceiro ano consecutivo. Desde final de 2013, a capitalização das 15 bolsas europeias abrangidas pelo índice MSCI já perdeu mais de 17%.

Lisboa e Milão afundam-se com crise bancária

Mas, dentro da Europa, há duas Europas. A bolsa de Londres encontra-se no grupo das que subiram no mundo mais de 10% em 2016, apesar do impacto negativo inicial do Brexit; enquanto Copenhaga, Lisboa e Milão pertencem ao “clube” das cinco bolsas que tiveram as maiores quebras anuais no mundo, acima de 10%. O PSI 20, em Lisboa, perdeu quase 12%. Na Europa, lideraram as subidas as bolsas do Luxemburgo (20%), de Amesterdão (9,4%), de Viena (9,2%) e de Frankfurt (6,9%).

Os dois periféricos – Itália e Portugal – registaram o pior desempenho bolsista na zona euro, com o sector bancário a marcar negativamente o ano.

Em Lisboa, o BCP perdeu quase 71% e o Montepio caiu cerca de 36%. Em Milão, o banco mais velho do mundo, o Monte dei Paschi di Siena, que iniciou nos últimos dias do ano um processo de resgate, afundou-se quase 88%. Outros quatro bancos transalpinos registaram quedas de capitalização entre 47% e 76%: Unicredit, UBI, Banca di Milano e Banca Popolare, por ordem crescente de perdas.

No lado dos ganhos, o índice MSCI para Nova Iorque, com as duas principais bolsas do mundo (o New York Stock Exchange-NYSE e o Nasdaq), registou uma subida de 9,2%, depois de ter perdido 0,8% no ano anterior. O conjunto das 23 economias emergentes registou um ganho de 8,6%, depois de se ter afundado 17% no ano anterior.

O grupo de bolsas com maiores ganhos do ano à escala mundial inclui diversos mercados emergentes e de fronteira, com subidas de capitalização acima de 30%.

A valorização mais espetacular registou-se na bolsa de Caracas, com um ganho de 117%, numa economia em hiperinflação e crise politica permanente. Seguem-se as bolsas do Egito, Cazaquistão, Rússia (o índice RTSI de Moscovo, com as cotações em dólares), Paquistão, Argentina, Brasil (o índice iBovespa subiu 39%), Hungria e Marrocos, por ordem decrescente de subidas.

Bolsas da China lideram quedas

Apesar do ganho no conjunto dos mercados emergentes, com muito bom desempenho por parte de Moscovo e São Paulo, a China registou um ano no vermelho, com as suas duas bolsas a liderarem as perdas à escala mundial: o índice de Shenzhen caiu 19,5% e o de Xangai recuou 12,3%.

Estas duas bolsas são, respetivamente, a 4ª e a 6ª à escala mundial e sofreram duas derrocadas em janeiro e fevereiro e uma inversão da trajetória de subida no final de novembro. Para o final do ano, os investidores começaram a ficar, de novo, cautelosos face à montanha de dívida pública e privada chinesa que representa cerca de 260% do PIB (uma fatia de mais de 150% do PIB é dívida empresarial) e às suas aplicações em investimentos de risco, alimentando algumas ‘bolhas’ de ativos.

Admite-se que, em 2017, o crescimento da segunda maior economia do mundo possa descer para menos de 6,5% e há um enorme grau de incerteza em relação ao impacto de medidas protecionistas por parte da nova Administração norte-americana.

A hierarquia das principais bolsas mundiais abrange as duas de Nova Iorque (NYSE e Nasdaq), Tóquio, Xangai, Mumbai (considerando os dois índices indianos no seu conjunto, BSE e NSE) e Shenzhen. Nas posições seguintes, Londres e Hong Kong. O Euronext encontra-se acima de Hong Kong, mas abrange cinco praças (incluindo Lisboa).

O peso das bolsas chinesas (e por extensão, considerando a da Região Administrativa Especial de Hong Kong) na capitalização mundial é de 16%. A repetição de derrocadas, como as de janeiro e fevereiro de 2016, poderá ter um efeito de contágio global ainda maior, num ano que vai ser marcado por enorme incerteza em termos políticos (sobretudo na Europa), geopolíticos (a começar por um provável novo quadro de relações entre os EUA, Rússia e China) e no comércio internacional (risco de escalada de guerras aduaneiras).

Bolha ou não bolha em Wall Street?

Wall Street (onde fica o NYSE) e Times Square (onde reside o Nasdaq) alojam as duas principais bolsas do mundo com uma capitalização superior a 26,5 biliões de dólares, uma fatia de 39% da capitalização mundial.

O ano assistiu a uma corrida do índice Dow Jones 30 para ultrapassar a marca mítica de 20.000 pontos. O DJ 30 fechou o ano a 237 pontos daquela marca, apesar da euforia, fixando sucessivos máximos históricos, em particular desde o início de novembro. Um disparo claro a partir do momento em que uma vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 8 de novembro passou a ser considerada possível.

O programa eleitoral de Trump gerou uma expetativa inflacionista que alimentou a euforia em Wall Street. O académico Antonio Fatás, do INSEAD, sublinhou no seu blogue, neste final do ano, que as bolsas norte-americanas denotaram em novembro e dezembro um clima claro de euforia superior ao verificado em outubro antes do efeito Trump, mas não considera que tenham entrado já num estado de ‘bolha’. O que poderá acontecer depois do anúncio das medidas para os 100 primeiros dias da Administração Trump.

O quadro macroeconómico que a Administração Obama vai deixar tem alimentado otimismo. A economia dos EUA cresceu 3,5% em termos homólogos no terceiro trimestre de 2016, o mais elevado em dois anos, e o desemprego em novembro caiu para 4,6%, o mais baixo desde agosto de 2007.

Um dos termómetros de bolha financeira é o rácio calculado pelo Nobel de Economia Robert Shiller para a relação entre o valor bolsista do índice S&P 500 e a média dos lucros anuais da carteira dos últimos 10 anos corrigidos pela inflação. Esse rácio - conhecido pela sigla CAPE em inglês (Cyclically adjusted price earnings ratio, rácio preço/benefício ajustado ciclicamente) - atingiu um múltiplo de 28,26 em dezembro.

Um rácio tão elevado já não se verificava desde 2007 e é o mais elevado do ciclo que se iniciou em março de 2009, quando o caiu para 13,32. Um múltiplo de mais de 28 na fase ascendente de um ciclo de valorizações é o terceiro mais elevado da história registada por Shiller, cujos dados do CAPE estão calculados desde janeiro de 1881. O pico mais elevado verificou-se em dezembro de 1999, no auge da bolha especulativa das dot-com, com o múltiplo a atingir 44,2. Em setembro de 1929 atingiu 32,6. Na sequência destes máximos ocorreram colapsos financeiros.

Antonio Fatás considera que os investidores em Wall Street estão a desvalorizar o risco “numa altura em que alguma precaução poderá ser necessária”. Refere que “ainda estamos a 1% do prémio de risco registado no pico de 2007 e muito longe da loucura de 2000”, e que, por isso, “ainda pode haver algum espaço de subida”. Mas conclui: “Convém recordar que esses foram os anos que precederam uma queda significativa no mercado de ações, e não são, portanto, o ponto de referência certo para usar”.

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