Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Compensa comprar um painel solar? (parte II)

d.r.

No princípio de novembro, escrevi aqui no Expresso que comprei um painel solar, para testar se realmente vale a pena. Passado um mês, vamos às primeiras contas

Pedro Andersson/SIC

Ao longo dos últimos anos tenho ouvido as mais diversas opiniões. Há os claros defensores de que sim, e os que acham que feitas todas as contas é um investimento a tão longo prazo que não vale a pena. Estamos a falar apenas na questão puramente financeira - e não ecológica.

Recordo que, a dada altura, ao perceber que a questão era quase ideológica, decidi “investir” profissionalmente na questão. Como faço reportagens sobre poupança há mais de 5 anos, e já percebi que como jornalista a única forma de ver se as dicas de poupança realmente funcionam é experimentá-las, resolvi “arriscar” comprar um painel e tentar fazer as contas por mim.

Comprei o painel mais barato que consegui: gastei 467 euros num painel de 250 W. Já me disseram que é possível (procurando bem) encontrar mais barato, ou pelo mesmo preço incluir a instalação. Repito esta informação para quem não leu a CRÓNICA ANTERIOR sobre este tema.

Esse é o primeiro alerta que deixo: se estiver interessado em comprar um painel solar para autoconsumo (sem baterias) não se deixe levar apenas pelo preço do painel. Conte com mais cerca de 150 euros para a instalação. Aconselho-o vivamente, porque pela minha experiência não o conseguiria fazer sozinho, e andar num telhado não é para qualquer um, por uma questão de segurança. Portanto, arredondando as contas, um painel pronto a funcionar ficará nos 600 ou 650 euros. Logo aqui estamos a dar razão a quem diz que é um investimento a médio/longo prazo.

Coloquei um medidor de eletricidade em casa e outro ligado ao painel solar (é uma despesa opcional) que me permitem saber minuto a minuto quanto estou a gastar e quanto estou a produzir. Percebi, em primeiro lugar, que a minha casa vazia (desde que saímos de manhã até regressarmos ao fim da tarde) gasta no máximo 170 W (frigorífico, arca congeladora, standby da TV da cozinha e o router). Logo, um painel de 250 W deveria chegar perfeitamente para não pagar nada à EDP durante esse período. Já percebi que não é bem assim.

Neste primeiros 20 dias de produção, o painel produziu € 0,36 de eletricidade durante 5 dias, no pior dia (em que choveu imenso) produziu € 0,20. Nos restantes dias produziu cerca de 26 a 30 cêntimos. Talvez ache pouco, mas se multiplicar € 0,28 por 365 dias dá € 102. Um valor de “juros” muito razoável para um investimento de cerca de 600 euros.

Segunda conclusão, um painel (sobretudo no inverno) nunca produz a totalidade do que diz que produz (isto eu já sabia, só confirmei). Num dia de sol radioso no inverno produz no meu caso cerca de 190 W com o sol a pique. Começa a produzir “devagarinho” às 8 da manhã, às 9h produz 50 W, a partir das 9h30 já produz 100 W, às 10h30 injeta em minha casa 150 W e este domingo às 12h30 atingiu um pico de 208 W. A partir daí começou a descer na mesma proporção da manhã, até que às 17h00 já estava novamente a zeros.

Em relação aos gastos da minha casa vazia, concluí que gasta entre as 8h e as 18h cerca de € 0,17 de eletricidade (tarifa simples). Somei mesmo todas as parcelas: o frigorífico gasta, por exemplo, 60 W 23 vezes durante 6 minutos de cada vez e o router consome 27 W e está ligado 24h por dia.

Ou seja, € 0,17 vezes 365 dias dá 62 euros que eu gasto de eletricidade. Se produzo € 102 (na melhor das hipóteses, se nunca chovesse) há muita energia que estou a oferecer à EDP, porque ela não me paga nada por isso. Se dividir € 650 por € 62 quer dizer que demoraria cerca de 10 anos a recuperar o investimento e outros 10 a ter esse “lucro”.

O que me deixa mais ou menos otimista é que há vários dias ao longo da semana e quase todos os fins de semana em que há alguém em casa durante o dia. O que quer dizer que basta que uma televisão ou o computador estejam ligados para que toda a produção do painel solar seja aproveitada. Além disso, assim que os dias começarem a ser maiores (e já está quase), a produção do painel vai ser cada vez maior e durante mais horas. Neste momento, a minha expectativa é que o meu investimento de exatamente 620 euros fique pago em 7 anos. O equipamento deverá funcionar pelo menos 20 anos. Mas basta que se avarie (sem estar na garantia) para as minhas contas irem todas por água abaixo.

Em resumo, se tiverem curiosidade em acompanhar esta experiência, tentarei dar conta das contas que vou fazendo. E poderá ver AQUI, com fotos e vídeos, todo o processo desde o início.

Para já, a minha convicção é a de que, tendo esse dinheiro para investir, nunca será um mau negócio. Ter esse dinheiro no banco sem lhe dar uso ou baixar imediatamente a fatura de eletricidade é uma opção que só cada um poderá fazer.

Daqui a 7 anos falamos… Em 2023 conto estar cá para dizer se o painel já está pago ou não.