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Os próximos anos da economia portuguesa em cinco gráficos

Novas previsões do Banco de Portugal apontam 2019 como o ano em que o PIB regressa ao nível pré-crise. Mas a recuperação será lenta e, nessa altura, a economia terá cerca de 430 mil empregos a menos do que em 2008

Boletim Económico que o Banco de Portugal (BdP) acaba de publicar ajuda a contar a história da economia portuguesa - a passada e a que se prevê

Boletim Económico que o Banco de Portugal (BdP) acaba de publicar ajuda a contar a história da economia portuguesa - a passada e a que se prevê

ALBERTO FRIAS

Muitas vezes basta um desenho simples para ilustrar uma ideia forte. E o Boletim Económico que o Banco de Portugal (BdP) publicou esta quarta-feira está repleto de gráficos que ajudam a contar a história da economia portuguesa. A passada e a que se prevê para os próximos três anos. A ideia mais forte é que só em 2019 o PIB irá regressar ao nível pré-crise financeira. Mas, mesmo assim, o emprego será ainda bastante inferior ao de 2008. Serão cerca de 430 mil postos de trabalho a menos, apesar de a taxa de desemprego estar próxima do valor de há oito anos.

Pelas contas do Expresso a partir das projeções do BdP para 2019, que assumem como hipótese uma “virtual estabilização da população ativa”, haverá 4,688 milhões de empregos em 2019. Em 2008, eram 5,116 milhões, segundo a base de dados do Instituto Nacional de Estatística. Esta diferença de 428,8 mil postos de trabalho não impede, contudo, que as taxas de desemprego sejam semelhantes nos dois anos: 8,3% em 2008 e 8,5% em 2019. O que é, aliás, uma das boas notícias do BdP tendo em conta que Portugal vai viver uma década com taxas de dois dígitos.

O gráfico da evolução do mercado de trabalho é um dos cinco escolhidos pelo Expresso para ilustrar o que se vai passar na economia portuguesa durante os próximos três anos. Mas há mais. A começar no andamento do PIB e no seu ritmo de recuperação e passando pelas toneladas de dívida que pesam sobre os ombros de empresas e famílias ou pelo investimento - que é uma sombra do que já foi.

Regresso a 2008 só daqui a três anos

Existem vários conceitos de recessão. Um deles considera recessão o período de tempo que vai desde que a economia começa a cair até que regressa ao ponto de origem. Segundo esta interpretação, Portugal ainda está em recessão. Pior. Só em 2019 é que o PIB voltará ao nível de 2008, quando deflagrou a crise financeira. Pelo meio ficam mais de dez anos de ‘recessão’, com um resgate internacional pelo meio e o desemprego a duplicar. Na zona euro, por exemplo, esta recuperação também foi lenta mas aconteceu no ano passado.

O BdP prevê que a economia cresça 1,2% este ano – um valor idêntico ao do governo e que representa uma revisão em alta de 0,1 pontos face a outubro – e que acelere para 1,4% em 2017 e para 1,5% nos dois anos seguintes. Será um período de “recuperação moderada”, diz o banco central, e para ultrapassar os “constrangimentos estruturais” é necessário fazer reformas. E, claro, ter atenção às fragilidades da banca e reforçar a consolidação orçamental. Em qualquer caso, o banco central refere que a recuperação tem traços “consistentes com um padrão de crescimento mais sustentado”, em que o maior contributo vem das exportações.

A construção já não é o que era

O PIB que ‘regressa’ a 2008 é um PIB novo, diferente. Serviços e indústria voltarão ao nível pré-crise e a grande mudança está na agricultura e na construção. Enquanto o valor acrescentado da primeira – juntamente com pescas e silvicultura – estará em 2019 cerca de 15% acima do que era antes da crise financeira, a construção está muito longe de recuperar. Dentro de três anos, deverá estar 40% abaixo do que era. Os serviços, que representam cerca de três quartos do PIB, deverão ter uma “aceleração moderada” e, para isso, contribuirá decisivamente o turismo, que tem sido um sector de grande dinamismo.

Desemprego desce devagar

Dentro de três anos, mesmo com um PIB ao nível pré-crise, a taxa de desemprego continuará ligeiramente acima: 8,5% contra 8,3% de 2008. É menos 1,5 pontos percentuais que este ano, em que a previsão do BdP aponta para 11%. O Boletim Económico sublinha que, nos próximos anos, o emprego deverá crescer a um ritmo na ordem de 1% ao ano, o que está mais em linha do andamento da economia. Ao contrário do que aconteceu este ano, quando deverá avançar 1,5%.
A redução da taxa de desemprego deverá resultar da criação de emprego no sector privado, já que se assume que, no Estado, o nível de emprego deverá manter-se estável ao longo dos próximos anos.

Estado não investe como antes

O pico no gráfico entre 2008 e 2010 mostra bem como o Estado entrou em força e saiu rapidamente do ‘negócio’ do investimento – mais concretamente da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Coincidiu com as medidas de resposta à crise e à grande recessão internacional em 2009 e terá passado, entre outras coisas, pelas obras nas escolas através da Parque Escolar.

A partir de 2011, o investimento público teve uma queda para níveis inferiores a 2008 e tem-se mantido baixo desde então. Também a FBCF em habitação teve uma queda da qual não recuperou e têm sido as empresas a contribuir positivamente para inverter a tendência, embora de forma insuficiente para que o investimento global suba. As previsões do BdP apontam para uma queda da FBCF global de 1,7% este ano e para crescimentos acima de 4% nos próximos três anos – 4,4%, 4,3% e 4,5% respetivamente.

E a dívida, ai a dívida…

O Estado tem uma dívida que está próxima dos 130% do PIB, que vai voltar a subir este ano, e o sector privado também não ajuda. Em 2019, as famílias e empresas (não financeiras) ainda terão um endividamento acima de 100%, respetivamente do rendimento disponível e do PIB. O que ilustra bem o peso que está sobre os ombros da economia portuguesa e que tem no exterior uma parte relevante dos credores de muita desta dívida. Todos os anos, todos têm de tirar parte do seu rendimento para pagar juros e isso significa que fica muito menos para gastar.