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Juros da dívida disparam para Grécia, Reino Unido e Holanda

O mercado da dívida soberana europeia regista um movimento altista esta quinta-feira. Risco de novo stresse grego, subida dos juros pela Fed, divergências claras na zona euro sobre a decisão de suspensão do alívio imediato de dívida a Atenas e acerca de impulso orçamental em 2017. Portugal com subida moderada

Jorge Nascimento Rodrigues

Regista-se um movimento de alta nas taxas da dívida obrigacionista na Europa no mercado secundário esta quinta-feira. Ao final da sessão da manhã, o prazo de referência, a 10 anos, as yields estão a subir 28 pontos base para a dívida grega, 14 para a britânica e nove para a holandesa.

No caso das Obrigações do Tesouro português, naquele prazo de referência, a subida era de apenas quatro pontos base, para 3,81%. Durante a manhã, as yields destas OT já atingiram 3,87%, mas a trajetória está muito oscilante.

A situação mais preocupante regista-se na dívida grega. As taxas dispararam para 7,38%, pelas 12 horas (hora de Portugal). Os investidores temem o renascer de uma nova crise grega – como a de fevereiro - depois do anuncio por um porta voz do presidente do Eurogrupo que estava suspensa a implementação pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade da implementação de um plano imediato de alívio da dívida helénica.

O anuncio foi feito ontem e revelaram-se esta quinta-feira claras divergências no seio do Eurogrupo – órgão informal de reunião dos ministros das Finanças da zona euro. O líder do grupo socialista no Parlamento Europeu, Gianni Pittella, criticou a decisão e o ministro das Finanças francês revelou a sus oposição à medida. Pittella, que deverá concorrer à presidência do Parlamento, disse que, por detrás da posição do presidente do Eurogrupo, está “a mão” do ministro alemão Wolfgang Schäuble.

As divergências no seio da zona euro estendem-se, também, à opção por um impulso orçamental do conjunto da área da moeda única em 2017. A Comissão Europeia propôs um impulso de 0,5% do PIB da região em 2017, mas a Alemanha e a Holanda opõem-se claramente. A apoiar a proposta de Jean-Claude Juncker alinharam-se Espanha, França, Grécia, Itália e Portugal. Na agenda oficial do Conselho Europeu desta quinta-feira, em matéria económica, é ignorada a proposta da Comissão.

A vaga altista de hoje está a ser, também, alimentada pelo disparo nas yields das obrigações norte-americanas, que subiram para mais de 2,6% esta manhã. Esta subida deveu-se à reação do mercado da dívida à decisão da Reserva Federal norte-americana em aumentar as taxas de juro de referência em 25 pontos base ao fim de doze meses e em anunciar que em 2017 projeta uma aceleração da sua subida gradual para contrabalançar um eventual “aquecimento” da economia e das bolsas norte-americanas em virtude do que é designado por “trumpflation”.

Portugal sensível a contágios externos e ao futuro da política do BCE

Em relação às taxas registadas antes da última reunião do ano do Banco Central Europeu (BCE), as yields das OT a 10 anos estão 30 pontos base acima. A 7 de dezembro, registavam 3,51%. A trajetória altista que se seguiu levou a fechos de 3,75% no dia da conferência de imprensa de Mario Draghi, a 8 de dezembro, e a 3,85% no dia seguinte. Depois, recuaram para 3,75% no dia 13.

A 14 de dezembro, com o anuncio da suspensão do alívio imediato à dívida helénica e após a decisão da Fed, as yields mantiveram uma trajetória ascendente, tendo fechado em 3,77% nesse dia e abrindo esta quinta-feira a subir para 3,87%. Entretanto baixou para perto de 3,8%.

Portugal continua a ser extremamente sensível a contágios externos, como o Brexit ou a evolução da política económica e monetária norte-americana, ou o renascer de uma crise no resgate grego como a de fevereiro (quando as yields das OT fixaram um máximo acima de 4,1%) ou um eventual agravamento da crise bancária italiana.

O fator incerteza tem um peso importante no comportamento da dívida portuguesa e da própria economia. Em relação ao comportamento do Produto Interno Bruto, a incerteza sobretudo sobre a situação europeia passou a ter um impacto negativo desde o primeiro trimestre de 2016, segundo o Banco de Portugal (BdP) no seu último Boletim Trimestral, divulgado esta semana.

À incerteza global na Europa (Brexit, Grécia, Itália, eleições em 2017, sobretudo as do primeiro trimestre de 2017), junta-se a “incerteza quanto à configuração da política monetária do BCE no horizonte da projeção” realizada pelo BdP até 2019, que vai para além do final do programa de compras de ativos do banco central, que foi prolongado até final de dezembro de 2017.

O Relatório do BdP salienta que “a natureza temporária do atual conjunto alargado de medidas não convencionais de política monetária” do BCE entronca com os constrangimentos estruturais internos ao crescimento que permanecem e com o fato de, no horizonte projetado pela análise, não haver uma convergência real com a zona euro.