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Brasil quer massificar tecnologia portuguesa da mobilidade elétrica

A plataforma integradora de serviços de mobilidade elétrica criada pela engenharia nacional entrou no Brasil. Permitirá lançar em grande escala a partilha de carros elétricos

A tecnologia portuguesa deu esta semana um salto de gigante na área da mobilidade elétrica. É que uma das principais instituições tecnológicas brasileiras acabou de contratar a plataforma que o centro português de engenharia CEiiA criou para monitorizar os veículos elétricos que a ela estão ligados, permitindo partilhar uma frota de carros elétricos por multiplos utilizadores.

Mais: esta plataforma consegue disponibilizar várias informações sobre a circulação de veículos elétricos e sobre o carregamento das respetivas baterias - sejam carros, motos ou bicicletas - em todos os perímetros geográficos. Faz isso para universos tão pequenos como as ruas de uma cidade. Mas também pode fornecer o mesmo tipo de informação para áreas mais vastas como uma região, um país, ou até para monitorizar a mobilidade elétrica em diferentes países.

Esta tecnologia portuguesa foi agora introduzida no Brasil pelo Parque Tecnológico de Itaipu (PTI), localizado no Estado do Paraná, perto da cidade de Foz do Iguaçu. A apresentação desta plataforma contou com a presença do secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, mostrando a importância que o Governo português atribui à internacionalização deste projeto.

CEiiA instalado na zona da barragem de Itaipu

O "quartel-general" brasileiro desta plataforma tecnológica do CEiiA funciona num dos antigos edifícios que, a partir de 1973, albergaram os operários que construíram a gigantesca barragem de Itaipu, no rio Paraná, localizada na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. É aí que agora está instalada a unidade do CEiiA que gere este projeto.

Para o efeito, o Parque Tecnológico de Itaipu (PTI) reaproveitou algumas das casas construídas para albergarem as 40 mil pessoas que trabalharam na construção da grande barragem partilhada pelo Brasil e pelo Paraguai.

Numa das salas do PTI, o diretor de inovação do CEiiA, João Caetano, explicou ao Expresso em que consiste a plataforma tecnológica agora adotada no Brasil. Em quatro grandes ecrãs fixados numa parede, mostrou como se monitoriza o sistema inteligente de partilha de veículos elétricos.

Trata-se de uma plataforrma que vai muito além da mera localização dos veículos elétricos que circulam nas imediações do PTI, dentro da área da barragem de Itaipu. Também não se resume a extrair informações detalhadas sobre cada veículo elétrico em circulação. Nem diz apenas qual é o nível de carga das baterias e os percursos realizados pelo carro partilhado. No limite, esta plataforma permitirá quantificar a pegada ecológica de toda a área analisada, informando com rigor a quantidade de emissões poluentes que foram poupadas com a mobilidade elétrica.

Quantificar a pegada ecológica

"Quantificamos a totalidade da pegada ecológica de uma cidade, obtida por um determinado sistema de mobilidade elétrica", explica João Caetano. Para o diretor de inovação do CEiiA "o factor mais interessante da adopção desta plataforma na zona da barragem de Itaipu, é que aqui toda a energia elétrica está completamente liberta de emissões de carbono, porque é exclusivamente produzida por geração hidroelétrica".

"A nossa plataforma inteligente de partilha de veículos elétricos de nova geração - o ´car sharing´- quantifica com grande rigor a pegada ecológica do sistema de mobilidade elétrica, e em Itaipu até consegue evidenciar o carater totalmente despoluído da energia utilizada pelos veículos elétricos ligados ao nosso sistema", adianta João Caetano.

Ver trânsito de Barcelona a partir de Itaipu

Nos mesmos ecrãs, em Itaipu, são visualizadas as scooters elétricas que circulam pelas ruas de Barcelona ligadas à mesma plataforma desde o início de 2016. O mesmo modelo de gestão de scooters elétricas será alargado a Lisboa, Madrid e Roma, Em Cascais, a MobiCascais inclui uma componente de "bike sharing" e um programa de integração de mobilidade inteligente.

De resto, o desenvolvimento desta plataforma de mobilidade sustentável já conta, no Brasil, com cerca de 120 mil horas de trabalho de engenharia, avaliadas em 6 milhões de euros. Este trabalho de engenharia liderado por portugueses insere-se no Programa Mob-i, que resulta da colaboração entre a Central de Itaipu e o CEiiA, para o desenvolvimento de iniciativas de mobilidade inteligente, utilizando a plataforma mobi.me.

João Caetano explica ainda que o sistema de "car sharing" de elétricos divulgado esta semana é a nova fase do projeto iniciado no Brasil com a parceria estabelecida com Itaipu em dezembro de 2013. Para este serviço de "car sharing" são alocados 32 veículos do modelo Renault Twizy e 20 Renault Zoe.

Ligar os carros a partir do smartphone

Ao nível das especificações técnicas, o CEiiA integrou nestes veículos o designado "Mobility Device Connector" (MDC) que permite fazer a ligação e o controlo em tempo real dos veículos à plataforma mobi.me.

Para exemplificar o seu funcionamento, utiliza-se uma aplicação mobile - quer em ambiente Android, quer em iOS - através da qual se faz a reserva do veículo pretendido, disponível em qualquer das ruas circundantes da área da barragem de Itaipu. A aplicação visualizada num smartphone pode controlar o uso do veículo, integrando-o no que o CEiiA designa como o "eco-sistema de mobilidade da barragem".

Mecanismo para descarbonizar as cidades

A plataforma "mobi.me" gere todo o sistema de partilha inteligente de veículos, monitorizando, em tempo real, a "pegada ecológica da mobilidade" local. "Este sistema cria as bases para adotar um mecanismo eficiente de descabonização das cidades através da mobilidade inteligente dos veiculos elétricos de nova geração", explica João Caetano.

Mas o projeto é mais ambicioso. A integração no sector elétrico brasileiro da informação fornecida pela plataforma torna possivel atribuir uma pegada ecológica a cada utilização de um determinado veículo. Assim, será possível criar mecanismos de transação de créditos sustentáveis, o que fomentará comportamentos de utilização dos veículos mais favoráveis do ponto de vista ecológico, reduzindo os custos globais da mobilidade.

Numa primeira fase, este projeto monitoriza a utilização da frota de veículos elétricos da barragem de Itaipu - um modelo de partilha corporativa de veículos elétricos - , permitindo a sua gradual otimização, dentro de uma lógica de sustentabilidade ambiental. Ao mesmo tempo, funcionará como um laboratório de testes para outras soluções a desenvolver pelo "mobi.me".

Mas o passo seguinte será mudar o paradigma da gestão das frotas das instituições e dos grandes grupos empresariais. Isso implicará o aumento do número de pontos de carregamento monitorizáveis pela gestão inteligente do "mobi.me".