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2017: ano de ‘reality check’ para Portugal

A torneira tenderá a começa a fechar. É altura da Europa começar a largar o ‘doping’ fornecido pelo Banco Central Europeu. Para países como Portugal, este não é o único problema em 2017. Para emitir dívida, em janeiro poderá pagar mais 100 pontos base do que um ano antes

Portugal enfrenta ventos fortes em 2017. Um sinal disso é o nível a que estão os juros da dívida portuguesa a 10 anos no mercado secundário. Apesar de correr o mês de dezembro, habitualmente menos líquido, os juros aproximam-se rapidamente do nível de 4% (3,84% no final da sessão de hoje) registado na crise vivida em fevereiro deste ano, após decisões polémicas do Banco de Portugal que causaram perdas a grandes investidores institucionais internacionais.

Não é caso único. A Irlanda também regista uma subida dos seus juros da dívida soberana no mercado. Mas Portugal tem mais problemas. E com a Grécia a encontrar soluções para a sua dívida, Portugal fica de novo debaixo dos holofotes dos investidores. Por maus motivos.

“Portugal pode tomar o lugar da Grécia como o novo ponto de preocupação dos investidores em obrigações devido aos seus problemas orçamentais”, afirma Michael O’Sullivan, diretor de investimentos da unidade de gestão de ativos internacional do Credit Suisse no relatório ‘Investment Outlook 2017’.

Para já, Portugal está a ressentir-se da última reunião do Banco Central Europeu (BCE). “Havia alguma expectativa no mercado de que o programa de compras fosse redesenhado para comprar mais dívida na periferia, o que beneficiaria claramente as obrigações portuguesas, o que não se materializou”, lembra Steven Santos, gestor do BiG.

Se, por um lado, o anúncio do BCE teve impacto nos títulos soberanos da generalidade dos países da União Monetária, Portugal e a Irlanda têm sido de longe os mais afetados. “Para ambos, a restrição de um limite de 33% por emissor torna-se cada vez mais forte e o Banco Central da Irlanda já anunciou um corte de 50% das compras de dívida soberana irlandesa para conseguir manter as compras até ao fim de 2017”, explica David Schnautz, estratega de dívida do Commerzbank.

Nos mercados, a leitura é de que um dos riscos é que, se houver algum stress na Europa, seja político ou financeiro, o BCE poderá não ter capacidade para ‘salvar’ Portugal e os juros da dívida podem escalar. Um risco que se está a refletir já hoje nos juros da dívida portuguesa.

Ajustar expectativas

Portugal e Irlanda enfrentam alguns pontos em comum. Mas o Banco de Portugal não fez qualquer anúncio de ajustamento. ”Os investidores foram obrigados a ajustar as suas expectativas sobre futuras compras por parte do BCE, em baixa no caso de Portugal, o que levou a uma pior performance das obrigações portuguesas face, por exemplo, as espanholas (em cerca de 20 pontos percentuais no caso dos juros da dívida a 10 anos nas duas últimas sessões)”, sublinha Schnautz.

Por isso, o Commerzbank “continua cauteloso em relação aos Bunds alemães, ainda mais cauteloso em relação à dívida dos grandes periféricos, e a maior cautela é em relação à dívida portuguesa”.

O mercado esperava que o BCE tivesse mantido o ritmo de compras de ativos e que eventualmente tornasse mais abrangente o programa. Agora pode comprar dívida com juros de -0,4%. Também se esperava que pudesse aumentar o limite de 33% que pode deter de stock de dívida de um país. “Não foi assim que aconteceu, acabou por ser uma surpresa, mas trouxe ao de cima uma evidência – o “Euro QE” não vai durar para sempre”, diz Luís Tavares Bravo, 'partner' da DIF Broker. E avisa: “Se o BCE andar a comprar ao mesmo ritmo, não chega até março sem 'rebentar' com a quota”.

“Se os juros tocarem nos 4% nas obrigações a 10 anos, certamente irá chamar a atenção dos investidores à medida que se preparam para o novo ano e precisam começar a pensar nem que termos poderiam investir em obrigações portuguesas quando retomarem as emissões”, refere Schnautz.

Os investidores contam que Portugal deverá iniciar o ano com uma grande nova emissão sindicada de OT a 10 anos ou duas emissões “decentes” de OT. “Os juros serão muito próximos dos níveis do mercado secundário, muito acima dos 2,9% da emissão sindicada de janeiro de 2016”. São cerca de 100 pontos base menos do que Portugal poderá ter de pagar em janeiro de 2017.

Existem ainda outros fatores a juntar a este cocktail potencialmente explosivo. As recentes declarações da agência de ratings DBRS sobre Portugal, e a colocação da Caixa Geral de Depósitos em perspetiva ‘negativa’, são pontos negativos. Bem como, o abandono do ímpeto reformista, fraco crescimento económico. E elevada vulnerabilidade a choques externos. O comportamento dos mercados petrolíferos pode ser uma dos motivos de stresse.

“Penso que podemos ver as taxas de juro para emissões a 10 anos a 4% serem testadas e isto também pode danificar a procura por emissões no primeiro mercado”, aponta Bravo.

“Agora, com os riscos que estão pela frente em 2017, pode, em cenário de stress, trazer problemas sérios a Portugal”, avisa Bravo.

Um dos fatores externos, cujo desenrolar ainda é incerto, chama-se Brexit. E apesar de o Credit Suisse não esperar que leve à saída da EU de outros estados-membros, O’Sullivon recomenda: “os riscos na Irlanda e em Portugal precisam de ser monitorizados”.

Petróleo em chamas

A negociação do barril de petróleo abriu em alta acentuada, esta segunda-feira, com as cotações do Brent a baterem nos 57,5 dólares. Esta subida superior a 6%, surge na primeira sessão a seguir à reunião do passado sábado, que juntou a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) aos países que não integram esse cartel.

Neste encontro, realizado em Viena, ficou decidido que os países produtores que estão fora da OPEP também aceitam cortar a produção diária de petróleo. Ou seja, a partir de 1 de janeiro, e pela primeira vez em 15 anos, o mundo vai assistir a um corte global na produção, concertado entre a OPEP e os países ‘não-OPEP’. Só da parte da Rússia poderá haver um corte de 300 mil barris diários, num total de 600 mil acordados entre todos os países não cartelizados. Este valor deverá juntar-se ao corte de 1,2 milhões de barris diários com que a OPEP se comprometeu.

O objetivo é fazer com que a quebra na oferta faça subir os preços junto da procura. O efeito pretendido começou a fazer-se sentir logo a seguir à reunião que a OPEP realizou no passado dia 30 de novembro, também em Viena, com subidas acumuladas de 12% nas três sessões que se seguiram e acentuou-se hoje com o Brent a cotar entre os 56 e os 57 dólares por barril.

Apesar desta primeira reação às decisões do cartel, vários analistas internacionais continuam a achar que a cotação do Brent pode estabilizar na casa dos 50 dólares por barril. Por um lado, porque a procura pode não corresponder às expectativas, essencialmente devido ao fraco desempenho das economias à escala global. Por outro, porque, no passado, outras decisões semelhantes tomadas pela OPEP não resultaram conforme o pretendido pelos seus dirigentes (aliás, continua a haver várias vozes dissonantes dentro da própria organização). Outra dúvida que se levanta é se a Rússia (não-OPEP) vai cumprir com a promessa feita este sábado, tendo em conta que raramente alinha em decisões tomadas em conjunto a OPEP.

Há ainda um outro fenómeno que pode diminuir o apetite pelo ouro negro. É que, a nível global, há uma tendência para a descarbonização das economias. Ou seja, uma aposta cada vez maior nas energias renováveis. Em 2015, os investimentos em energias limpas ficaram praticamente equiparados aos que se realizaram na indústria petrolífera.