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Jochen, em busca da rolha perfeita 

Jochen Michalski, fundador e presidente da Cork Supply

LUCILIA MONTEIRO

A Cork Supply duplicou as vendas em cinco anos e está pronta para iniciar um novo ciclo de crescimento

Na fábrica de rolhas naturais da Cork Supply, em São Paio de Oleiros, a entrada principal funciona como uma antecâmara do laboratório, onde há sempre filas de pequenos frascos de rolhas à espera de um nariz disponível para o controlo do TCA, principal responsável do chamado “gosto a rolha” no vinho, e de outros problemas que podem afetar a qualidade do produto final.

Em média, neste serviço premium de controlo unitário, passam diariamente 7500 frascos para análises individuais dos 10 provadores ao serviço da empresa e cada um deles é submetido a uma despistagem tripla, o que significa que tem de ser aprovado por três narizes diferentes.

Mas porque é que esta fábrica, inaugurada em 2008, decidiu fazer um laboratório com paredes de vidro mesmo junto à entrada? “Para mostrar que este trabalho de controlo está no centro de tudo o que fazemos e foi exatamente assim assim que começámos a trabalhar em Portugal, onde investimos num laboratório, ainda antes de fazermos rolhas”, explica Jochen Michalski, fundador e presidente da Cork Supply.

Na prática, todo o processo de produção contempla controlos contínuo da cortiça e da rolha, mas esta fase final, onde a taxa de rejeição ronda os 0,4% e a ambição é chegar uma taxa de rejeição nula, indicadora de “rolhas perfeitas”, requer cuidados especiais como a realização de provas cegas, para validar se os diferentes narizes estão prontos a seguir os padrões estabelecidos.

À espera de um crescimento de 5% nas vendas este ano, a Cork Supply fechou 2015 com vendas de €113 milhões, 95% dos quais relativos à exportação para 20 países. Feitas as contas, diz o presidente, o grupo duplicou vendas em cinco anos e está a iniciar um novo ciclo de crescimento “para voltar a duplicar vendas em cinco anos”, como provam os investimentos recentes de €1,5 milhões numa empresa na China, a que juntou um projeto de €15 milhões numa fábrica de rolhas técnicas e de champanhe em São João de Ver, onde passou a aproveitar internamente os desperdícios das suas rolhas.

Tudo começou em 1981, na Califórnia, quando Jochen Michalski montou uma importadora que comprava rolhas em Portugal para as vender aos produtores de vinho locais. Este “alemão de Birre”, como o próprio Jochen se apresenta antes de explicar que nasceu na Alemanha, mas veio viver para Birre, em Cascais, aos cinco anos, saltou dos Estados Unidos para outros países do Novo Mundo dos vinhos como a Austrália, África do Sul e Argentina, replicando o modelo inicial: uma empresa com laboratório e uma estrutura pronta a fazer acabamentos, dar às rolhas a marca dos clientes e esteriliza-las.

Dominar nos EUA

Quando percebeu que o TCA era um problema crítico nas vendas, montou um laboratório em Portugal e começou a trabalhar em parceria com os produtores, mas acabou por investir na produção de rolhas em 1995, sem medo das vozes que anunciavam o fim da rolha da cortiça.

Neste processo, juntou três famílias de investidores e acabou a produzir 240 milhões de rolhas naturais por ano, de forma a responder internamente a todas as encomendas dos seus clientes. Atento ao mercado, decidiu passar a oferecer, também, vedantes alternativos que compra em Itália (rosca metálica) e nos EUA (rolha sintética). Para diversificar a oferta sempre com o foco no mundo do vinho, criou a Tonnellerie Ô, especializada em barris de carvalho francês e americano, nos EUA, e a Studio Labels, que faz rótulos para garrafas, na Austrália. E, nos dois casos, desenvolveu o negócio de forma a poder replicá-lo noutros países.

Em Portugal, além da unidade de matéria-prima, no Montijo, e das fábricas de rolhas naturais e de rolhas técnicas, em São Paio de Oleiros e São João de Ver, tem mais uma unidade para marcar e personalizar as rolhas destinadas à Europa. Mas o maior mercado são os EUA, onde a empresa coloca 40% das suas exportações e garante uma quota de 20% nas rolhas naturais que sobe para os 28% juntando os vedantes alternativos, o que dá à Cork Supply a liderança no país.

Se o preço de uma rolha natural varia entre os 6 cêntimos e os €3, a estratégia da Cork Supply combina a atenção ao cliente, parcerias com universidades e outras instituições, investimento contínuo no controlo de qualidade e na investigação. O último desenvolvimento foi o DS100+, um projeto que demorou quatro anos a desenvolver, custou €2 milhões e permitiu desenvolver uma tecnologia que garante rolhas 100% isentas de TCA. A primeira máquina já está a postos e, em 2017, a empresa investe €1,5 milhões em mais cinco equipamentos, mas o nariz dos seus provadores continuará a testar rolhas porque “há outros problemas a identificar na busca da rolha perfeita”.