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Exuberância especulativa regressa a Wall Street

Indicador de bolha financeira regressa a níveis de 2007. O multiplo calculado pelo Nobel Robert Shiller atingiu 27,79. Dispararam os alarmes no meio de máximos históricos batidos todos os dias nos índices bolsistas de Nova Iorque

Jorge Nascimento Rodrigues

O índice Dow Jones 30 está a 300 pontos de atingir a marca mítica de 20.000. Tem fixado máximos históricos consecutivamente. Também os índices S&P 500 e Nasdaq têm registado máximos históricos. Os analistas sublinham o facto do S&P 500 e do Nasdaq estarem a subir consecutivamente há seis sessões, e o DJ há cinco.

No meio do frenesim desta última onda gerada pelas expetativas inflacionistas das promessas do pacote expansionista e de desregulação financeira da futura Administração Trump, o rácio calculado pelo Nobel Robert Shiller para a relação entre o valor bolsista do índice S&P 500 e a média dos lucros anuais da carteira dos últimos 10 anos corrigidos pela inflação atingiu 27,79 a 1 de dezembro, ou seja, o valor em bolsa é quase 28 vezes superior. Um múltiplo tão elevado já não se verificava desde 2007.

Conhecido pela sigla CAPE em inglês (Cyclically adjusted price earnings ratio, rácio preço/benefício ajustado ciclicamente), este múltiplo é encarado como um termómetro de bolha financeira. É atualizado mensalmente por Shiller, a partir da sua base de dados que remonta a 1881 para o cáculo do CAPE.

Depois deste alerta dado pelo rácio, alguns analistas falam, agora, de exuberância especulativa em Wall Street. O múltiplo de dezembro é o mais elevado do ciclo que se iniciou em março de 2009, quando o rácio caiu para 13,32.

Terceiro mais elevado na fase ascendente do ciclo

Um múltiplo de cerca de 28 na fase ascendente de um ciclo de valorizações é o terceiro mais elevado da história registada por Shiller.

O pico mais elevado verificou-se em dezembro de 1999, no auge da bolha especulativa das dot-com, com o múltiplo a atingir 44,20.

O segundo momento de pico histórico no final da fase ascendente de um ciclo registou-se em setembro de 1929, com o múltiplo a atingir 32,56. A fase ascendente iniciara-se em 1921.

Recorde-se que estes dois episódios representaram duas das maiores bolhas financeiras.

A exuberância de 1921 a 1929 terminaria, como se sabe, com a maior crise financeira da história do capitalismo industrial e com uma Grande Depressão.

A exuberância de 1996 a 1999 terminaria com a chacina da chamada Nova Economia e com um abrandamento económico mundial significativo, ainda que sem cair numa recessão. Foi o então presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, que batizou, logo em dezembro de 1996, aquele movimento especulativo de “exuberância irracional”. Shiller adotaria a expressão para o título do livro que publicou em 2000.

Em 2007, o múltiplo atingiu 27,32 no final da fase ascendente do ciclo iniciado em 2003. Seguiu-se um novo estoiro financeiro que originou a segunda maior recessão da história do capitalismo industrial. O múltiplo só desceu abaixo de 25 em janeiro de 2008. O ponto mais baixo desse ciclo registou-se em março de 2009, com o rácio a cair para 13,32.

O múltiplo atual está longe, sem dúvida, do disparo ocorrido na bolha da Nova Economia, o que leva muitos analistas a falarem, agora, de "exuberância racional". O racio de 30 foi atingido em junho de 1997 e a barreira dos 40 ultrapassada em fevereiro de 1999.

Depois de um recuo de 4,3% em 2015, o índice bolsista mundial MSCI já leva um ganho de 6,3% em 2016.

As bolsas de Nova Iorque registam uma subida desde o início do ano de 10,2%, segundo o índice MSCI respetivo. No ano anterior, haviam caído 0,8%.

As 23 economias emergentes registam, também, uma subida anual similar à de Nova Iorque, com dois BRIC a liderarem subidas mundiais: a bolsa de Moscovo ganhou 46% e a de São Paulo avançou 40%, segundo os índices MSCI respetivos.

O ano de 2016 está a revelar-se de forte ganho em Nova Iorque, mercados emergentes e dois BRIC. Em perda, a Europa (abrangendo 15 economias) e os mercados fronteira (economias ainda não consideradas emergentes).