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Juros da dívida portuguesa sobem após reunião do BCE

Portugal foi esta quinta feira o periférico mais penalizado. Os juros das Obrigações do Tesouro subiram a 2, a 5 e a 10 anos no mercado secundário. Na Irlanda desceram a 2 e a 5 anos e em Espanha e Itália desceram a 5 anos. Impacto foi assimétrico na zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

O anúncio esta quinta-feira do pacote de estímulos monetários para 2017 pelo Banco Central Europeu (BCE) provocou um impacto heterogéneo no custo de financiamento do endividamento das economias do euro.

O ‘efeito Draghi’, desta vez, gerou o que alguns analistas já consideraram de “flutuações selvagens” nas taxas no mercado secundário entre o anúncio das principais medidas e o final da conferência de imprensa dada por Mario Draghi, onde ele reafirmou que o BCE não decidiu nem sequer discutiu qualquer descontinuação da estratégia de estímulos monetários.

A tendência global na reação dos mercados de dívida foi para uma subida das taxas no prazo de referência a 10 anos, mas nas maturidades de curto e médio prazo o impacto foi diferenciado.

Maior disparo diário desde o Brexit

Portugal foi o periférico do euro mais penalizado esta quinta-feira. As taxas subiram no mercado secundário para as Obrigações do Tesouro (OT) a 2, a 5 e a 10 anos. A 5 anos a subida foi de 18 pontos base para 2,17% e a 10 anos registou um aumento de 21 pontos base para 3,73%, depois de ter chegado a 3,79% pelas 16 horas (hora de Portugal). Foram as maiores subidas registadas na sessão de hoje entre as economias do euro.

A 10 anos, a subida diária de 21 pontos base registada esta quinta-feira foi a maior desde o Brexit, que provocou, então, um disparo de 40 pontos base na sessão de 24 de junho. No período recente do 'efeito Trump', quando as yields das OT a 10 anos subiram para 3,85%, o disparo foi de 20 pontos base na sessão de 18 de novembro.

Em suma, o país seguiu a tendência global de subida das taxas a 10 anos, mas não acompanhou a descida das taxas em prazos mais curtos ocorrida na maioria dos membros do euro. Haverá que averiguar se esta “particularidade” portuguesa – de subida das taxas em todos os prazos – se vai manter.

O prémio de risco da dívida portuguesa deu um salto de 18 pontos base no fecho desta quinta-feira, muito acima do que se registou para os prémios de risco das dívidas italiana, espanhola e irlandesa, que subiram sete, seis e dois pontos base respetivamente.

A taxa das obrigações alemãs, a 10 anos, fechou a subir três pontos base, para 0,38%. No entanto, a 2 e a 5 anos as yields encerraram a sessão a cair. O mesmo padrão verificou-se para a Irlanda. Mas, para Espanha e Itália registaram-se descidas no prazo a 2 anos e subidas nas maturidades a 5 e 10 anos.

Não há 'afunilamento' do programa de compras

O BCE decidiu prolongar o programa de compra de ativos até final de dezembro do próximo ano, envolvendo uma injeção adicional de 540 mil milhões de euros em relação à meta prevista até março de 2017. Esse aumento dos estímulos foi superior ao que era esperado pelos analistas, que apontavam para uma extensão de seis meses, e não de nove, implicando uma injeção de 480 mil milhões de euros.

A equipa de Draghi apostou por mais estímulos monetários e não por qualquer redução global ou sinal de descontinuação do programa de compras. O presidente do BCE repetiu que a redução de 20 mil milhões de euros nas compras mensais a partir de abril de 2017 não é nenhum ‘tapering’ (afunilamento) similar à descontinuação até zero do programa de compras posta em prática pela Reserva Federal norte-americana em 2013.

Contudo, a partir de abril de 2017, o BCE regressa ao ritmo mensal de compras que registava antes de março de 2016, mês em que decidiu aumentá-las precisamente em 20 mil milhões de euros.

Prenda de Natal

Os mercados financeiros reagiram em particular às duas mexidas nas regras do programa, que entrarão em vigor em janeiro do próximo ano.

Uma alteração permite adquirir, “em caso de necessidade”, no mercado secundário obrigações com yields atualmente negativas abaixo do limiar de -0,4% (a taxa de remuneração dos depósitos dos bancos, que serve de referência), o que favorece seis economias do centro do euro (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França e Holanda) e um periférico (Irlanda).

Esta garantia de aquisição no mercado secundário pelo BCE pressionou em baixa as taxas, já de si negativas, nos prazos de curto e médio prazo daquelas dívidas. O que significa que o Tesouro daqueles estados membros do euro recebeu uma 'prenda de Natal'. Os investidores em dívida soberana vão pagar, ainda mais, para deterem aqueles títulos com taxas negativas. Alguns analistas consideraram esta mexida “feita à medida para a Alemanha”.

A segunda alteração permite ao BCE adquirir no mercado secundário obrigações com prazo de 1 ano, o que amplia o leque de títulos elegíveis.