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Incerteza política exige continuação da intervenção do BCE, diz Draghi

FRANCOIS LENOIR/REUTERS

A incerteza prevalece por todo o lado, disse o presidente do Banco Central Europeu na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio da decisão de prolongar o programa de compras até final do próximo ano. Redução do volume de compras a partir de abril não é nenhum sinal de descontinuação do programa

Jorge Nascimento Rodrigues

“A incerteza prevalece por todo o lado”, sublinhou Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu na conferência de imprensa desta quinta-feira que se seguiu ao anúncio da decisão em prolongar o programa de compra de ativos até final do próximo ano e em mexer em duas das suas regras que permitem uma elegibilidade mais ampla de obrigações para aquisição no mercado secundário.

Para ilustrar a importância da variável incerteza, Draghi citou o calendário eleitoral na Europa no próximo ano e o desconhecimento sobre as consequências que realmente surgirão em 2017 dos três eventos mais marcantes de 2016 – o Brexit, a vitória de Trump nas eleições da principal economia do mundo e o ‘não’ no referendo italiano de domingo passado. Sublinhou, a este respeito, que os mercados financeiros mostraram, até agora, “uma resiliência que muitos não esperavam”.

Deste modo, o fator incerteza é mais importante, hoje, para as decisões tomadas de prolongamento do programa de aquisições e de flexibilização das regras, do que o risco de deflação (de inflação negativa) que “desapareceu em larga medida”. No entanto, Draghi não deixou de reconhecer que, mesmo em 2019, a previsão da inflação divulgada hoje pelos seus técnicos, continua distante da meta de 2% da política monetária do BCE. As novas previsões dos técnicos apontam para 1,7% em 2019. Questionado por um jornalista se isso significava “abaixo, mas próximo de 2%”, o italiano respondeu, com ênfase, “não, realmente”.

Ou seja, as previsões de inflação a médio prazo continuam a justificar uma intervenção do BCE para impulsionar a subida dos preços. Segundo a Bloomberg, alguns membros do conselho teriam inclusive defendido um prolongamento de 12 meses e não apenas de nove.

A incerteza na Europa e nos Estados Unidos, o que se passa nos mercados emergentes e as alterações em segmentos dos mecados financeiros, exigem o reforço da ação dos bancos centrais, e não o contrário, explicou. "É necessário continuar com a acomodação monetária", sublinhou. Recorde-se que a Alemanha tem insistido que a política de estimulos monetários deveria iniciar um processo de redução.

Não há tapering nenhum

O presidente do BCE repetiu, várias vezes, ao longo da conferência de imprensa, que a redução em 20 mil milhões de euros do volume mensal de compras a partir de abril não é um sinal do início de um processo de descontinuação do programa. Em 2013, o processo de descontinuação das compras pela Reserva Federal norte-americana foi etiquetado de “tapering”.

Na realidade, apesar de um volume mensal de 60 mil milhões de euros de compras a partir de abril, o total da injeção de estímulos monetários em 2017 tem um reforço de 540 mil milhões de euros, superior aos 480 mil milhões de euros que eram previstos com uma extensão de seis meses a um ritmo mensal superior (de 80 mil milhões de euros).

“Quero dizer claramente que não há nenhum tapering no mercado. Continuamos a exercer pressão sobre os preços no mercado”, sublinhou Draghi, que adiantou que, na sua interpretação, o termo norte-americano lançado em 2013 significa redução até zero dos estímulos monetários através dos programas de compras. O que não vai acontecer a partir de abril de 2017 na zona euro.

Mexidas nas regras beneficiam uns e outros

A reunião do BCE incluiu, também, duas decisões importantes que flexibilizam o programa de compras. Os parâmetros do programa são alterados em dois aspetos a partir de janeiro de 2017. A primeira alteração não era esperada pelos analistas; a segunda era desejada e prevista.

As obrigações com maturidade de 1 ano passam a ser incluídas nas compras no mercado secundário. Anteriormente só a partir do prazo de 2 anos eram elegíveis. O que amplia o universo possível de aquisições, e em particular poderá beneficiar os periféricos do euro.

Em segundo lugar, o BCE decidiu que as obrigações com juros negativos abaixo de -0,4% (que abrangiam esta quinta-feira sete membros do euro) passam a ser elegíveis “em caso de necessidade”. O que, também, amplia o universo possível de aquisições, e em particular nas economias do centro, como a Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França e Holanda.

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