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Juros da dívida acentuam quedas

Na véspera da reunião do BCE, os juros dos periféricos do euro prosseguem a trajetória de descida. A exceção é a Grécia. A maior descida no prémio de risco em relação ao final de novembro regista-se para Portugal

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo a 10 anos desceram para 3,59% na abertura dos mercados financeiros europeus nesta quarta-feira, na véspera de uma reunião importante do Banco Central Europeu (BCE).

As taxas para a dívida portuguesa no prazo de referência registadas no mercado secundário prosseguem a trajetória de baixa iniciada ainda na segunda-feira, depois de uma primeira reação negativa aos resultados do referendo em Itália que levaram ao pedido de demissão do primeiro-ministro Matteo Renzi.

Em relação ao fecho do mês de novembro, as yields das OT, naquela maturidade de referência, desceram 13 pontos base (0,13 pontos percentuais), de 3,72% para 3,69% na segunda-feira, 3,65% na terça-feira e 3,59% na abertura de hoje. É a redução mais significativa entre os periféricos do euro, com exceção da Grécia.

O prémio de risco da dívida portuguesa desceu esta manhã para 323 pontos base, uma redução de 22 pontos base em relação ao final de novembro. Aquele risco equivale a um diferencial de 3,23 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento, a 10 anos, da dívida alemã.

Como as taxas para as obrigações alemãs naquele prazo de referência subiram desde final de novembro, o prémio de risco tem descido para os periféricos do euro. A redução do prémio para a dívida portuguesa foi, também, a maior entre os periféricos desde 30 de novembro. Em virtude dessa descida mais significativa, a distância entre o prémio de risco para Portugal e os prémios para Espanha, Itália e Irlanda reduziu-se.

Expetativa em relação à reunião do BCE

Os mercados financeiros estão suspensos da última reunião do ano do BCE onde será realizada uma avaliação do programa de compra de ativos. O consenso entre os analistas é que amanhã a equipa de Mario Draghi aprovará a extensão do programa por mais seis meses, até setembro do próximo ano, cobrindo mais um semestre politicamente muito ‘quente’. E que deverá mexer nas regras do próprio programa, afastando o risco de falta de dívida elegível para aquisição no mercado secundário.

No entanto, alguns analistas sublinham que há uma forte pressão, sobretudo do ministro das Finanças alemão e do Bundesbank, o banco central germânico, para que seja dado um sinal de começo da redução do programa. O ministro Wolfgang Schäuble e o presidente do banco central Jens Weidemann expressaram-no publicamente ainda recentemente. Um ex-presidente do BCE, o alemão Axel Weber, disse esta semana que esperava que o programa de compras deverá abrandar e que as taxas de juro de referência deverão subir o mais tardar em setembro do próximo ano, segundo o Financial Times.

Situação de incerteza não desapareceu

Apesar de não se ter concretizado um ‘choque’ nos mercados financeiros depois da derrota de Renzi no referendo de domingo passado, o quadro na zona euro continua marcado pela incerteza política.

A probabilidade de eleições legislativas antecipadas em Itália no primeiro trimestre de 2017 aumentou, depois do ministro do Interior, Angelino Alfano, ter apontado para uma ida às urnas em fevereiro. Alfano é líder do parceiro de coligação no governo, e o seu partido deriva de uma cisão na força política de Berlusconi. Nas declarações proferidas, Alfano referiu que estaria em sintonia com o ainda primeiro-ministro Matteo Renzi.

O pedido de demissão de Renzi foi congelado até ser aprovado esta quarta-feira o Orçamento do Estado para 2017. Deverá seguir-se um governo interino, provavelmente liderado por um tecnocrata do atual governo e com apoio da coligação, que reveja a lei eleitoral e prepare eleições, que poderão decorrer 45 dias depois da dissolução do Parlamento.

A concretizar-se esta antecipação de eleições, o primeiro semestre do próximo ano vai estar marcado por elevada incerteza: eventuais eleições em Itália no primeiro trimestre; eleições legislativas na Holanda a 15 de março; eleições presidenciais provavelmente em duas rondas em abril e maio em França; início da Administração Trump nos Estados Unidos e medidas que sejam tomadas nos primeiros 100 dias; e começo das negociações do Brexit.

Entretanto, um porta-voz do Tesouro italiano desmentiu o jornal La Stampa que noticiava esta quarta-feira que o governo estaria a preparar um pedido de empréstimo de 15 mil milhões de euros ao Mecanismo de Estabilidade Europeia (MEE) para intervir na recapitalização do sector bancário.

O ‘choque’ entre o Eurogrupo, dominado pela orientação alemã, e a Comissão Europeia vai acentuar-se a propósito da orientação orçamental para 2017. A equipa de Jean-Claude Juncker recomendou um impulso orçamental de 0,5% do PIB da zona euro para o próximo ano, enquanto o presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, declarou à saída da reunião deste órgão informal na segunda-feira, que a política orçamental da zona deveria ser neutra e que os dois membros do euro que dispõem de folga orçamental (e excedentes externos elevados, infringindo o limite das regras europeias, Alemanha e Holanda) não concordam com a orientação proposta por Juncker.

Alemanha ameaçou com Grexit

A situação grega continua sem um desfecho da segunda revisão do terceiro resgate e Atenas não conseguiu colocar na agenda a segunda fase de renegociação da sua dívida numa perspetiva de médio prazo.

O Eurogrupo de segunda-feira deu apenas luz verde às iniciativas de curto prazo de mudança do perfil da dívida helénica que o MEE vai colocar em prática. Um alívio profundo só será discutido no final do programa de resgate em 2018.

Antes da reunião do Eurogrupo, o ministro alemão Schäuble reiterou que a Grécia ou conclui as exigências para o fecho do segundo exame ou terá como alternativa a saída do euro. O fantasma de um Grexit regressou.

As yields das obrigações helénicas a 10 anos subiram 14 pontos base entre o final de novembro e a abertura de hoje. Situam-se em 6,7%, muito abaixo do patamar de 8% em que estavam no final de outubro.

  • As bolsas europeias fecharam com ganhos, com exceção de Milão. Os juros da dívida soberana da zona euro subiram, mas não houve disparo. Prémio de risco da dívida portuguesa e espanhola baixou. Euro valorizou-se. Preço do Brent subiu ligeiramente