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Queda de Renzi. Não houve terramoto nos mercados financeiros

As bolsas europeias fecharam com ganhos, com exceção de Milão. Os juros da dívida soberana da zona euro subiram, mas não houve disparo. Prémio de risco da dívida portuguesa e espanhola baixou. Euro valorizou-se. Preço do Brent subiu ligeiramente

Jorge Nascimento Rodrigues e Vítor Andrade

Não houve esta segunda-feira terramoto nos mercados financeiros em virtude da derrota do governo italiano no referendo de domingo.

As bolsas europeias fecharam com ganhos, com exceção de Milão, cujo índice MIB perdeu 0,21%. O índice MSCI para as bolsas europeias (excluindo as que são classificadas como mercados emergentes, como a Grécia, por exemplo) subiu 1,18%. As yields das obrigações dos países do euro subiram no mercado secundário, mas não registaram, como se temia, um disparo. No caso das Obrigações do Tesouro português, as yields fecharam a cair a 2 e 5 anos e subiram ligeiramente, apenas dois pontos base, a 10 anos. As maiores subidas das taxas, no prazo de referência, a 10 anos, verificaram-se para a Grécia, Irlanda, Bélgica, Itália e França. O prémio de risco da dívida portuguesa desceu três pontos base e o de Espanha caiu sete pontos base.

O referendo constitucional em Itália saldou-se por uma vitória expressiva do ‘não’, com um avanço de cerca de 20 pontos percentuais em relação ao 'sim'. Quase 60% dos votantes, num referendo com uma forte afluência, de 70% dos eleitores, rejeitaram a proposta do primeiro-ministro Matteo Renzi, que apresentou a sua demissão após a derrota.

O euro caiu 1,5% em relação ao dólar numa primeira reação ainda no domingo à noite na Europa quando a derrota de Renzi passou a estar clara. As bolsas asiáticas, as primeiras a abrirem esta segunda-feira, acabaram por fechar em terreno negativo, com exceção de Mumbai, na Índia. A maior queda registou-se em Xangai, com o índice DJ a recuar 1,2%. No conjunto da Ásia Pacífico, o índice MSCI respetivo perdeu 0,66%.

Apesar do choque político em Itália, a Europa fechou esta segunda-feira em terreno positivo, com o índice Eurostoxx 50, das cinquenta principais cotadas da zona euro, a registar um ganho de 1,3%. A liderarem as subidas os dois índices de Moscovo e o Dax em Frankfurt. O PSI 20, em Lisboa, fechou a avançar 0,47%. Em Nova Iorque, os principais índices estão a negociar em terreno positivo.

O euro, depois de uma trajetória de queda para um mínimo de 21 meses no domingo, acabou esta segunda-feira a valorizar-se 0,5% face ao dólar em relação ao câmbio de fecho de sexta-feira.

Mercados ainda não consideram eleições antecipadas em Itália

A derrota de Renzi provocou um choque na bolsa de Milão, mas a perda acabou por ser limitada. O efeito mais negativo registou-se no sector bancário transalpino, com cinco bancos cotados em Milão a perderem mais de 3% esta segunda-feira. Na liderança das quedas, com um afundamento de 7%, a Banca di Milano e a Banca Popolare. O caso mais mediatizado, o Banco dei Paschi di Siena, que está a meio de uma operação de recapitalização de 5 mil milhões de euros, perdeu hoje 4,2%. Desde início do ano, a sua cotação afundou-se 85%.

A situação da banca transalpina é a questão imediata de maior risco para Itália e para toda a zona euro. Com a apresentação do pedido de demissão pelo primeiro-ministro, a Itália entrou num limbo político, em que há incerteza sobre o que se vai seguir a sexta-feira depois de terminar o 'congelamento' desse pedido. São avançados três cenários: um novo governo, chefiado por uma nova figura do atual espectro que apoiou o governo de Renzi; um governo de tecnocratas para conseguir concluir a aprovação do Orçamento do Estado para 2017, prosseguir a procura de uma solução para a banca, e rever a lei eleitoral; ou a convocação de eleições legislativas antecipando o ato eleitoral previsto para depois de março de 2018.

A opção de eleições antecipadas abriria um período de elevada incerteza política. Os mercados financeiros, ainda, não estão a considerar essa possibilidade. O analista Wolfgang Munchau alertou hoje que “é difícil vislumbrar um governo pró-europeu em Itália depois de próximas eleições”. É elevada a probabilidade de uma coligação anti-União Europeia e anti-euro com base nas atuais principais forças de oposição, com o Movimento 5 Estrelas à frente nas sondagens.

BCE serve de guarda-chuva

Um disparo nos juros da dívida soberana no mercado secundário não se verificou, nem mesmo no caso de Itália. Tomando em consideração os valores pelas 17 horas (hora de Portugal), no prazo de referência, a 10 anos, as taxas subiram nove pontos base para os títulos gregos (pressionados por declarações do ministro das Finanças alemão, ao jornal Bild no domingo, revivendo o risco de Grexit), sete pontos base para as obrigações italianas, irlandesas e belgas, e seis pontos base para as francesas.

As yields das OT a 10 anos subiram esta segunda-feira apenas dois pontos base em relação a sexta-feira, fechando em 3,7%. No caso das taxas para as obrigações espanholas, recuaram de 1,57% para 1,56% no mesmo período.

Em virtude de as yields das obrigações alemãs a 10 anos terem aumentado cinco pontos base, o prémio de risco nos casos da dívida portuguesa e espanhola desceu. O risco para Portugal caiu para 338 pontos base (o equivalente a um diferencial de cerca de 3,4 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã) e no caso de Espanha reduziu-se para 123 pontos base.

Os analistas consideram que a garantia que terá sido dada pelo Banco Central Europeu (BCE) de que interviria no mercado secundário em caso de necessidade, através do programa de compras de ativos, serviu de guarda-chuva.

Preço do petróleo perto de 55 dólares

À quarta sessão, após a reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em Viena no final de novembro, o preço do barril de petróleo abriu em alta e chegou mesmo a bater recordes de julho de 2015 – com os valores do Brent a situarem-se nos 55,11 dólares por barril. Uma hora mais tarde já deslizava para a casa dos 54 dólares e depois voltaria a passar a fasquia dos 55. Aquando do fecho dos mercados europeus, o preço estava em 54,5 dólares, uma subida de 0,7% em relação a sexta-feira passada.

Ou seja, uma verdadeira montanha russa, depois do disparo de 8% que ocorreu no passado dia 30 de novembro, assim que foi anunciada a intenção de cortar 1,2 milhões de barris na produção diária de petróleo, entre os países que integram o cartel.

Em paralelo com este acordo, outros países produtores que não integram a OPEP também se comprometeram a cortar 600 mil barris nas respetivas produções diárias, com a Rússia em grande destaque, a assumir cortes da ordem dos 300 mil barris.

O grande objetivo é ter menos oferta no mercado e, dessa forma, fazer com que os preços subam. Na verdade, todos os países produtores têm a ganhar com a escalada de preços.

A questão que se coloca é se o acordo agora firmado pela OPEP – já há oito anos que não havia um acordo de cortes na produção – vai ser realmente cumprido por todos os membros do cartel.

É sabido, por exemplo, que o Irão não alinhou em anteriores tentativas de cortes de produção, pois precisa de vender o máximo possível de petróleo para realizar liquidez. Na verdade, só assim conseguirá colocar de pé uma economia de rastos, carente de infraestruturas que exigem doses maciças de investimento público.

O efeito de uma subida dos preços do petróleo (que têm impacto importante nos preços da energia, uma das componentes do índice de preços no consumidor) reforçará, na zona euro, o processo de reflação, de subida da taxa de inflação. A par com a expetativa de subida da inflação provocada pelas promessas de política orçamental expansionista nos Estados Unidos com a nova Administração Trump a partir de janeiro, um ciclo de subida de preços do crude alterará o quadro em que se tem movido a política monetária do BCE.