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Subida mundial dos juros da dívida em novembro

O efeito Trump gerou um aumento de mais de meio ponto percentual nos juros das obrigações norte-americanas a 10 anos no mês que termina. O contágio provocou um movimento de alta mais significativo nos juros do Brasil, Portugal, Espanha, Itália e França. Fim da era do dinheiro barato para os estados se endividarem

Jorge Nascimento Rodrigues

Novembro de 2016 vai ficar caraterizado pelo efeito Trump no mercado da dívida soberana mundial. O custo de financiamento do endividamento público ficou, em geral, muito mais caro e o retorno para os investidores baixou.

Para os membros da zona euro mais endividados em relação à riqueza anual que criam, novembro marca provavelmente o fim da era do financiamento barato.

Os mínimos históricos registados já no segundo semestre deste ano para as yields da dívida obrigacionista a 10 anos de Espanha, Irlanda, Itália e Reino Unido ficaram para trás. Os níveis atuais são quase o dobro ou o triplo dos mínimos então registados nesses quatro países em agosto e setembro.

A dimensão dos prazos da dívida obrigacionista na zona euro que registam taxas negativas emagreceu. De dez membros do euro que pagavam aos investidores taxas abaixo de zero no final de outubro passou-se para nove. Quatro países do centro - Alemanha, Áustria, Finlândia e Holanda - que registavam taxas negativas até à maturidade de 8 anos em 31 de outubro, agora viram-nas recuar para 6 e 7 anos. Taxas negativas sigificam que os investidores "pagam" aos Estados para deter os títulos públicos.

Mesmo assim, há, ainda, sete membros do euro que registam taxas negativas abaixo de -0,4% - o limiar para que as obrigações sejam elegíveis para o programa de compra de dívida pelo Banco Central Europeu - em prazos entre 2 e 5 anos. O grupo é formado pela Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda.

Grécia e Índia com descida dos juros

Gerou-se um movimento altista das yields no mercado secundário da dívida, com exceção da Grécia, na zona euro, e da Índia, nos BRIC, a partir de 9 de novembro, depois de conhecida a vitória nas eleições presidenciais nos Estados Unidos do candidato que as sondagens davam como menos provável em vencer.

O contágio norte-americano afetou significativamente a zona euro em novembro. Espanha e Portugal foram os países membros do euro que registaram as maiores subidas nas yields no mercado secundário da dívida pública. No prémio de risco, o maior aumento no mês que hoje findou verificou-se para a dívida espanhola.

Entre os periféricos do euro,o preço de segurar a dívida contra um risco de incumprimento a 5 anos (custo dos credit default swaps) aumentou em novembro mais para Itália e Espanha.

Rentabilidade em queda

A rentabilidade da dívida obrigacionista caiu significativamente em novembro nos Estados Unidos e no conjunto da zona euro. Reduziu-se de 3,9% para 1,14% no primeiro caso, e de 6,3% para 2,39% no segundo caso, segundo dados dos índices da Bloomberg para a dívida soberana entre 31 de outubro e 30 de novembro.

A exceção, na zona euro, foi a Grécia, onde a rentabilidade, avaliada desde início do ano, disparou de 6,83% para 21,07% entre final de outubro e final de novembro.

No caso de Portugal, o retorno negativo desde o início do ano, agravou-se, de -1,65% para -3,41% naquele período. Itália passou de um retorno positivo de 1,46% para uma rentabilidade negativa de -0,57%, no mesmo período .

Juros em máximo de 16 meses nos EUA

A expetativa de uma aceleração na reflação (aumento contínuo da taxa de inflação) nos Estados Unidos com a Administração Trump e a quase certeza de um aumento das taxas de juro da Reserva Federal norte-americana na próxima reunião de 13 e 14 de dezembro e de uma probabilidade crescente de um novo aumento em junho do próximo ano, geraram uma subida de mais de meio ponto percentual nas yields das obrigações do Tesouro norte-americano (US Treasuries) a 10 anos durante novembro.

As yields das US Treasuries subiram 55 pontos base (0,55 pontos percentuais) de 1,83% a 31 de outubro para 2,38% a 30 de novembro. Este nível de valor de fecho já não se verificava desde junho de 2015. A subida mensal de 55 pontos foi a maior desde 2009.

No mais recente leilão de dívida a 10 anos, realizado a 9 de novembro (no dia seguinte à eleição presidencial), o Tesouro norte-americano teve de pagar uma taxa média de 1,95%, superior a 1,749% registada no leilão anterior, a 12 de outubro.

Contágio na zona euro afeta trio de periféricos

O efeito Trump na zona euro afetou, em primeira linha, três dos periféricos – Espanha, Itália e Portugal.

Não teve impacto na Grécia; as yields das obrigações helénicas a 10 anos caíram 176 pontos base em novembro, descendo de 8,33% no final de outubro para 6,57% no final de novembro, um nível que já não se registava desde outubro de 2014. Este mínimo de mais de dois anos reflete o bom andamento da avaliação da execução do terceiro resgate.

No prazo de referência, a 10 anos, as maiores subidas das yields registaram-se, em novembro, para as obrigações do Tesouro espanhol e português que fecharam 35 pontos base (0,35 pontos percentuais) acima do valor de final de outubro, e, depois, para as obrigações francesas e italianas que encerraram esta quarta-feira com um aumento de 31 pontos base em relação ao final do mês anterior.

As yields das Obrigações do Tesouro português, a 10 anos, registaram um máximo de nove meses a 18 de novembro no mercado secundário quando fecharam em 3,85%, no auge do efeito Trump. No final do mês, encerraram em 3,72%. A distância em relação às yields da dívida espanhola, irlandesa e italiana continua elevada. Os valores de fecho esta quarta-feira, no prazo de referência, foram de 0,88% para as obrigações irlandesas, 1,57% para as espanholas e 1,99% para as italianas.

A dívida espanhola registou, entre os periféricos, o maior aumento do prémio de risco. Este subiu 25 pontos base, de 105 para 130 pontos base. O segundo maior aumento registou-se com Portugal; o risco aumentou 24 pontos base, de 321 para 345 pontos. Seguiu-se a Itália, com um avanço de 19 pontos base de 152 para 171 pontos base. Um prémio de 345 pontos base significa que os investidores exigem um adicional de 3,45 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência.

Preço de segurar a dívida portuguesa está longe de máximos do ano

Quanto ao preço de segurar a dívida contra o risco de incumprimento a 5 anos, avaliando o custo dos credit default swaps (CDS), Espanha e Itália tiveram o maior aumento, seguido da Irlanda e depois de Portugal. O custo dos CDS aumentou 28 pontos base para Itália, quase 15 pontos base para Espanha, perto de 8 pontos base para Irlanda e 4 pontos base para Portugal.

Os patamares em que se encontram os custos dos CDS são, contudo, muito distintos. O nível do preço dos CDS para Portugal está em 276 pontos base, enquanto o italiano se situa em 177 pontos, o espanhol em 88 e o irlandês em 70.

Os máximos dos CDS para Portugal registaram-se em 27 de junho, no rescaldo do Brexit, acima de 340 pontos base, e a 17 de fevereiro, durante a crise do Grexit, perto de 340 pontos base. Atualmente, estão, ainda, longe desses picos do ano.

Sobe probabilidade da Itália sair do euro

A dívida italiana tem estado pressionada pela incerteza sobre os resultados do referendo constitucional que se realiza no próximo domingo. O Banco Central Europeu terá decidido preparar uma intervenção temporária extraordinária no mercado secundário da dívida italiana no caso de um ‘choque’ a partir de segunda-feira, segundo a Reuters.

O índice Sentix para a Itália aponta para uma probabilidade de 19,3% do país sair da zona euro nos próximos 12 meses, refletindo o sentimento dos investidores entrevistados, segundo dados divulgados esta semana. O índice disparou no início de junho, de menos de 2%, para os dois dígitos atuais. A consultora alemã Sentix publica, regularmente, um índice designado “Euro break-up” (EBI) refletindo a probabilidade que os investidores privados e institucionais atribuem à materialização de alguma rotura na zona euro nos próximos 12 meses. O índice permite, ainda, identificar os países membros do euro que revelam uma maior probabilidade de sair do euro - atualmente é o caso de Itália.

Brasil regista maior subida nos BRIC

No grupo dos BRIC, na maturidade de referência, a 10 anos, as yields das obrigações brasileiras subiram 36 pontos base em novembro, de 11,47% para 11,83%. Em contraste, as relativas às obrigações indianas baixaram 64 pontos base, de 6,89% para 6,25%.

As yields das obrigações chinesas subiram 20 pontos base de 2,74% para 2,94% e as relativas às obrigações russas avançaram 23 pontos base, de 8,58% para 8,81%.