Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Bundesbank quer ‘desativar’ política de estímulos do BCE

Jens Weidmann, presidente do banco central alemão, critica a “politização” da política monetária da zona euro por Mario Draghi e quer uma eliminação progressiva dos juros baixos e das compras de dívida

Jorge Nascimento Rodrigues

Chegou o momento de o Banco Central Europeu (BCE) iniciar um processo de desativação da sua política “acomodatícia” de juros baixos e programas de compra de ativos. Não deve fazê-lo, a frio, de um modo abrupto, mas não deve adiar mais essa decisão. Assim resume o jornal económico alemão Handelsblatt a entrevista exclusiva que publica esta sexta-feira com Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o banco central alemão.

A entrevista surge a menos de duas semanas da reunião do conselho diretivo do BCE cuja agenda é a realização de um balanço dos programas de compra de ativos e a decisão se a aquisição de dívida pública deve ser estendida para além de março do próximo ano e as suas regras inclusive alteradas para garantir mais flexibilidade.

É publicada no dia seguinte ao BCE ter divulgado o seu relatório semestral sobre a estabilidade financeira na zona euro em que alerta para a possibilidade de “um evento mais dramático” e chama a atenção para riscos sistémicos que se agravaram.

Bancos centrais estão cada vez mais “politizados”

“O objetivo da política monetária não deve ser o de permitir aos governos ganhar tempo. Isso contribuiria precisamente para um tipo de politização da política monetária”, diz Weidmann, que os meios alemães gostariam de ver substituir Mario Draghi à frente do BCE quando a cadeira de presidente vagar daqui a três anos. O banqueiro central alemão considera inclusive que “o alívio dado pelas taxas de juro baixas não foi usado pelos governos para consolidarem os seus orçamentos ainda mais rapidamente, mas, sim, pelo contrário, para aumentarem os gastos”.

A “politização” é um dos pontos centrais da critica de Weidmann à política de Draghi desde que este tomou as rédeas da presidência do BCE em novembro de 2011. “Os bancos centrais tornaram-se cada vez mais politizados. É, precisamente, através das medidas não convencionais que o BCE apagou a linha divisória entre a política monetária e a orçamental. Por isso, a intensidade do debate sobre o papel dos bancos centrais surgiu sem surpresa. É, por isso, que sou a favor de uma interpretação restritiva do mandato [do BCE]”, sublinha.

O BCE não deve hesitar em normalizar a sua política e acabar com o período excecional de estímulos ficando paralisado pelo impacto que essa saída possa ter nos países membros do euro. “Não se deve tomar em linha de conta o impacto da normalização da política monetária nas finanças públicas de cada país membro. A política monetária não deve ser orientada para assegurar a solvência orçamental”, reforça.

“Não pretendo antecipar o debate no Conselho diretivo do BCE [a 4 de dezembro]. Desde há muito que tenho sublinhado que a política monetária tem sido muito acomodatícia e que os efeitos pretendidos diminuem com o tempo, à medida que os impacto indesejáveis aumentam. Além do mais, as taxas de juro reais continuarão a cair em virtude do aumento da inflação”, refere o presidente do Bundesbank. “O programa de compra de ativos certamente que não deve ser terminado abruptamente. Mas, independentemente da forma como a política monetária regresse ao seu normal, o fator chave, em todas as circunstâncias, é preparar o trabalho para essa normalização em termos de comunicação”, acrescenta.

“Os bancos centrais são, agora, os principais credores dos países da zona euro. Isto desgasta a disciplina de mercado, que impõe prémios de risco elevados a países com políticas orçamentais não saudáveis”, diz Jens Weidmann, numa referência dirigida em particular aos periféricos do euro. No caso português, o BCE – e o Banco de Portugal – aumentou o seu peso como detentor de dívida direta transacionável do Estado português de 12% em março de 2015 para 25% em setembro de 2016.

Não a um impulso orçamental na zona euro

A par do aperto na politica monetária, o presidente do banco central alemão não quer permitir qualquer folga na política orçamental da zona euro e não admite qualquer apoio de uns a outros membros, mesmo que para corrigir os atuais desequilíbrios existentes no seio do bloco da moeda única, apontados pela recente atualização do mecanismo de alerta publicado pelo Eurostat no âmbito do Macroeconomic Imbalance Procedure (MIP) Scoreboard.

Perguntado sobre a recente proposta da Comissão Europeia para um impulso orçamental em 2017 equivalente a 0,5% do PIB da zona euro, Weidmann é muito claro: “Duvido que a zona euro realmente necessite de um programa de estímulos económicos financiado por endividamento. Os problemas em muitos países são, na sua natureza, estruturais”. E prossegue: “A ideia por detrás desses apelos é que necessitamos de uma política orçamental centralizada na Europa e que os países com orçamentos saudáveis devem permitir-se algum endividamento para dar um empurrão à economia de outros países. Isso não é compatível com o atual caráter da União Monetária Europeia”. Em conclusão: “Os países não devem esperar que outros entrem a tapar o buraco quando esgotaram as suas próprias opções”.

Nesta posição coincide com a recente reação negativa do ministro das Finanças Wolfgang Schäuble à proposta da equipa de Jean-Claude Juncker. A sintonia entre as Finanças federais e o banco central é total. No início da semana, citado pela Reuters, Schäuble havia referido, também, que “não se cansa de dizer que prefere que se comece o mais cedo possível [a desativação da política monetária expansionista”. Ainda que isso deva ser feito “com imensa cautela”.

A Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional têm insistido que as economias da zona euro com excedentes externos – inclusive persistentemente acima do limite de 6% do PIB, violando as próprias regras da União – e com folga orçamental deveriam adotar uma política orçamental expansionista que permita, à escala da zona euro, diminuir os estímulos fornecidos por uma política monetária que está “sobrecarregada”, pela ausência de atuação dos governos.

O presidente do banco central alemão não só quer descontinuar a única política que tem sido expansionista, a monetária, como fechar qualquer porta a que a política orçamental, a de ação direta dos governos, comece a desempenhar um papel mais ativo no impulso a uma retoma que tem sido medíocre.

Na entrevista, Weidmann condenou as políticas isolacionistas e a retórica “nacionalista simplista”. Apontou para alguns efeitos negativos da globalização, do progresso tecnológico e da evolução demográfica como responsáveis pelo ascenso do populismo. Disse que “preferia pensar que um empreendedor como Donald Trump compreende o papel chave que a concorrência desempenha para o crescimento económico”.