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Draghi deu uma ajuda ao leilão de dívida portuguesa

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Juros da dívida estão a descer desde segunda-feira depois de o presidente do Banco Central Europeu garantir que os estímulos monetários estão de pedra e cal. Risco de bancarrota está longe dos picos que atingiu aquando do Brexit ou do Grexit. IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública) regressa esta quarta-feira ao mercado para o último leilão português do ano

Depois de um sobressalto na sexta-feira com os juros da dívida portuguesa a 10 anos a atingirem um máximo de nove meses no mercado secundário, a trajetória de subida desde a vitória de Donald Trump inverteu-se segunda-feira. Os juros das Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos desceram para 3,6% na abertura desta terça-feira, depois do pico do mês de 3,85% a 18 de novembro. A mudança de trajetória registou-se também nos juros a 5 anos, que estão nos 2,16%, depois de terem atingido 2,3% na sexta-feira passada.

A inversão de tendência ocorre no início da semana em que Portugal vai regressar ao mercado com um leilão de OT a 5 anos marcado para esta quarta-feira de manhã, que será o último do ano. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) pretende emitir entre 500 e 750 milhões de euros, um valor mais baixo do que na operação similar anterior, em que colocou mil milhões de euros, pagando então 1,751%. As yields no mercado secundário estão atualmente acima desse juro, indiciando a probabilidade de a taxa de colocação desta quarta-feira vir a ser mais elevada do que no leilão de 26 de outubro.

Na segunda-feira, os juros a 5 anos chegaram a situar-se perto de 2,4% no mercado secundário durante a sessão e, se a trajetória ascendente continuasse, o ICGP poderia enfrentar um ‘teste de stresse’ muito duro esta quarta-feira.

Mas Mario Draghi, perante o Parlamento Europeu, reafirmou segunda-feira a independência do Banco Central Europeu (BCE) face às pressões políticas do ministro alemão Wolfgang Schäuble e do Bundesbank, o banco central germânico, que querem um emagrecimento da política monetária expansionista, a par da oposição a qualquer impulso orçamental em 2017 na zona euro. O presidente do BCE afirmou perante os deputados europeus que a sua política vai continuar com “um grau substancial de acomodação monetária” e que é “decisivo” que os governos façam o seu papel de apoio a uma retoma fraca. O BCE reúne-se a 8 de dezembro, dia em que vai avaliar o programa de compra de ativos - quatro dias depois do referendo em Itália.

Num sinal aos mercados financeiros, o IGCP realizou, de surpresa, mais um pagamento antecipado ao Fundo Monetário Internacional (FMI) na segunda e terça-feiras, reembolsando 1621 milhões de direitos especiais de saque (SDR, no acrónimo em inglês para a unidade de conta do Fundo), um pouco mais de 2 mil milhões de euros. Esta operação em vésperas de leilão aumenta o pagamento antecipado do Fundo realizado em 2016 para mais de 4 mil milhões de euros. Atè à data, Portugal já pagou 42,6% do empréstimo realizado pelo FMI no âmbito do resgate de 2011.

“Creio que Portugal conseguirá emitir sem grandes problemas esta quarta e só terá de refletir no leilão a recente subida dos juros em mercado secundário. A política monetária do BCE continua e continuará a ser expansionista durante muto tempo e há a perceção que Portugal continuará a ter o apoio do Banco Central Europeu (BCE). O OE 2017 tem sido bem recebido, assim como os números do crescimento do PIB mais recentes, pelo que um corte de rating pela DBRS parece ser, por agora, um cenário distante, o que facilita a emissão de dívida. De resto, analisando os CDS, percebe-se que o risco apercebido de um incumprimento a 5 anos não se alterou de forma significativa”, refere ao Expresso Filipe Garcia, presidente da consultora Informação de Mercados Financeiros.

ACALMIA. Juros já desceram dos máximos de sexta-feira passada e aliviaram a pressão sobre a colocação de dívida desta quarta-feira

ACALMIA. Juros já desceram dos máximos de sexta-feira passada e aliviaram a pressão sobre a colocação de dívida desta quarta-feira

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Risco de bancarrota não disparou

De facto, apesar da subida dos juros no mercado secundário para um máximo de nove meses na sexta-feira passada, o custo dos credit default swaps (CDS) a 5 anos, que dão uma indicação do risco de incumprimento da dívida portuguesa, moveram-se desde 8 de novembro num intervalo entre 270 e 280 pontos base, muito abaixo do temor que provocou o Brexit no final de junho, quando o custo dos CDS registou o máximo do ano acima de 340 pontos base. Fecharam na segunda-feira em 276 pontos e na terça-feira em 274 pontos.

O efeito Trump desde 8 de novembro teve, também, um impacto menor no preço dos CDS do que o contágio grego de fevereiro misturado com a reação à decisão do BdP e do que o stresse do risco da DBRS cortar o rating de Portugal para ‘lixo financeiro’ em outubro. Nesses dois casos anteriores, o preço dos CDS esteve acima de 300 pontos base.

O ‘choque’ Trump teve um impacto negativo mais elevado no custo dos CDS de Espanha e sobretudo de Itália; o efeito no preço dos CDS para a dívida portuguesa foi menor do que em Espanha, Irlanda e Itália após 8 de novembro.

Uma avaliação em termos relativos da subida dos juros no mercado secundário no prazo a 10 anos revela um disparo entre 8 (dia das eleições norte-americanas) e 18 de novembro para França, Irlanda, Alemanha e Holanda, com variações acima de 45%. No caso da Irlanda, os juros registados no final da semana passada subiram mais de 50% em relação aos registados no dia da vitória de Trump e são atualmente mais do triplo em relação ao mínimo histórico verificado a 28 de setembro. A variação para os juros das OT a 10 anos foi de 19,5% naquele período.

tiago miranda

A distancia entre o prémio de risco de Portugal e o de Itália encurtou-se no período pós 8 de novembro. Era superior a 2 pontos percentuais aquando da incerterza quanto à decisão de agência DBRS sobre o rating português em outubro e caiu para ligeiramente acima de 1,5 pontos percentuais a 18 de novembro.

Na realidade, os fatores que afetaram seriamente a dívida portuguesa, até agora, em 2016, foram de dois tipos. No plano externo, ruturas no espaço europeu como o Grexit (um risco hoje fora dos cenários) ou o Brexit (até à data, o maior impacto no risco de incumprimento implícito no preço dos CDS). Relacionadas com a situação interna, registam-se a decisão do BdP afetando investidores internacionais e o folhetim de rumores sobre o corte do rating pela agência canadiana (um risco que poderá regressar em abril de 2017).

O próximo momento de risco na zona euro, que poderá gerar contágio negativo, está agendado para a semana posterior ao referendo constitucional em Itália a 4 de dezembro.

Um fator global à zona euro que poderá, sempre, afetar os periféricos, e em particular Portugal, é o andamento a partir de março de 2017 do programa de compras de ativos, e em particular de dívida pública, por parte do BCE. Ou os sinais que sejam dados sobre o futuro desse programa já a 8 de dezembro.

Não menosprezar o efeito Trump

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Apesar da acalmia do início desta semana, não se deve menosprezar o efeito Trump, que provocou uma subida generalizada dos juros nas economias desenvolvidas. A subida do custo de financiamento da dívida pública das economias desenvolvidas vai ser o calcanhar de Aquiles dos mercados financeiros globais, como sublinhou segunda-feira a Société Générale, podendo inclusive vir a registar-se um “processo desordenado”.

A par da incerteza política no curto prazo (de quais vão ser as medidas efetivas nos primeiros 100 dias da nova administração Trump a partir de 20 de janeiro próximo, dos resultados do referendo constitucional em Itália já a 4 de dezembro e da evolução do peso dos candidatos presidenciais em França) e do risco de uma derrapagem na China, o aumento dos juros da dívida parece ter vindo para ficar, apesar das flutuações.

O fator fundamental que alimenta o aumento tendencial dos juros da dívida é a expectativa de uma inflação mais elevada nas economias desenvolvidas. Dois ‘motores’ estão a alimentar essa expectativa. O primeiro, o expansionismo orçamental e a desregulação nos EUA, que se espera logo nos primeiros dias de Trump na Casa Branca. O segundo, uma subida dos preços do crude – que têm um peso importante na evolução global da inflação - após a cimeira do cartel da OPEP a 30 de novembro, onde se espera que se chegue a um acordo, incluindo não membros, como a Rússia, para um teto de produção diário que possa reduzir o excesso da oferta.

No entanto, o grau de incerteza é elevado. A expectativa em relação aos 100 primeiros dias de Trump pode estar a ser exagerada e o cartel pode não chegar a um acordo robusto no final de novembro. Com a desregulação prometida por Trump no sector energético nos EUA, a oferta norte-americana pode contrariar os esforços do cartel.

Publicado no Expresso diário de 22/11/2016

  • Os juros das Obrigações do Tesouro a 5 e 10 anos estão em trajetória descendente desde segunda-feira, depois de terem subido para cerca de 3,9% e 2,3% respetivamente no final da semana passada. Ontem foram os que mais desceram nos periféricos. Quarta-feira Portugal realiza leilão de dívida a 5 anos