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A “esquina do Mundo”, como lhe chamou Ferreira de Castro, foi vendida por €4,7 milhões

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O dinheiro da venda do café Golden Gate será dividido entre o Governo madeirense e o BCP. O leilão em hasta pública prolongou-se por 33 lances

Marta Caires

Jornalista

O prédio do Golden Gate, um dos cafés mais emblemáticos da baixa do Funchal, foi vendido esta terça-feira por 4,7 milhões de euros, em hasta pública, a um emigrante na Venezuela. O valor da venda será agora dividido entre o Governo Regional da Madeira e o BCP, os proprietários do imóvel na baixa da capital madeirense.

O leilão fez-se em 33 lances e mais do que duplicou o preço base de licitação, que era de dois milhões de euros. A Golden Metal, sociedade que arrematou o Golden Gate, terá que somar aos 4,7 milhões da compra o imposto de selo e o IMT. Contas feitas, o café conhecido como a “esquina do Mundo” – como lhe chamou o escritor Ferreira de Castro – irá custar ao novo proprietário 5,3 milhões de euros.

O leilão do espaço do café – um rés do chão, o primeiro andar e a cave – inclui-se no plano de rentabilização do património que o executivo de Miguel Albuquerque se propôs fazer. A venda desta terça-feira foi muito bem recebida, já que entre o valor do imóvel e os impostos deverão entrar nos cofres regionais perto de 2,7 milhões de euros. A outra parte do dinheiro será entregue ao BCP, que era proprietário de 50% do espaço.

A esta venda, o Governo Regional soma uma outra, um prédio na zona velha da cidade, por 900 mil euros, também vendido em hasta pública recentemente. Nos últimos meses, foram ainda feitos contratos de exploração e arrendamento de casas de férias a parques de estacionamento.

A venda do Golden Gate está feita – só entrou no leilão desta terça-feira quem apresentou propostas fechadas e deu garantias de pagamento de 25% à cabeça –, mas ainda não se sabe que uso lhe pretende dar o novo proprietário ao espaço. O emigrante na Venezuela que comprou o café tem negócios na restauração e é provável que reabra o espaço fechado há dois anos, desde que a sociedade que o geria abriu falência.

O encerramento do café, muito frequentado, sobretudo por turistas, tornou-se tema de conversas na cidade já que o Golden Gate faz parte da história do Funchal e foi até celebrado por escritores como Ferreira de Castro. É dele a expressão “esquina do Mundo”, já que o café foi um lugar onde se ouviam todas as línguas e onde paravam, por pouco tempo que fosse, todos os que estavam de passagem pela capital madeirense. “Aquele ângulo do Funchal era, entre as esquinas do Mundo, dos mais dobrados pelo espírito cosmopolita do século”, escreveu Ferreira de Castro.

O café sofreu várias alterações ao longo do tempo e recebeu diferentes tipos de clientes desde que abriu as portas em 1841, na altura para servir de apoio a um hotel que existiu à entrada da cidade. No início do século XX, quando o Funchal era um ponto de paragem para os barcos que cruzavam o Atlântico para o Brasil, Estados Unidos e África, era ali que paravam os turistas, os passageiros em trânsito e esse ambiente manteve-se durante anos na esplanada e nas mesas da varanda com vista para a placa central. O ambiente mudou um pouco anos 70 e 80 do século passado, quando o café perdeu a esplanada e se transformou em poiso dos estudantes do secundário, um sítio da moda, para ir estudar, tomar café e namorar. Mais tarde, em meados dos anos 90, o Golden voltou a fechar para reabrir com nova gestão e nova decoração, que tentava ser mais parecida à inicial.