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Yellen diz que fica e Juncker quer expansão orçamental

Janet Yellen, chefe do banco central dos EUA

GARY CAMERON/REUTERS

Dois factos marcaram a semana. A primeira audição no Congresso da presidente do banco central norte-americano depois da vitória de Trump e o apelo da Comissão Europeia para um aumento do gasto público em 0,5% do PIB na zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

Nos Estados Unidos, Janet Yellen, a chefe do banco central, não facilita a vida ao presidente eleito, pelo menos no próximo ano e, na Europa, Jean Claude Juncker comprou uma guerra com Berlim sobre terminar, ou não, com a orientação para a austeridade na zona euro.

Em Washington, perante a Comissão Económica Conjunta do Congresso norte-americano, a presidente da Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, fez finca pé. Não saio antes de cumprir o mandato, disse ela, mandato que só termina em 2018, mesmo que a nova Administração Trump nomeie “fanáticos” (como alerta o economista norte-americano Kenneth Rogoff em entrevista ao Expresso, publicada na edição impressa deste sábado) para os lugares vagos no conselho federal de governadores.

Em Bruxelas, a Comissão Europeia diz que é preciso uma expansão orçamental em 2017, e aponta 0,5% do PIB da zona euro como o objetivo “médio” desejável, entre 0,3% que seria muito modesto e 0,8% que seria o adequado (para encerrar o hiato do produto da zona euro já em 2017), mas politicamente excessivo.

Schäuble diz nein

Nos Estados Unidos, a presidente do banco central, tida como próxima dos Democratas, torce o nariz ao impulso orçamental que Donald Trump quer dar e diz que o importante era uma política dirigida ao aumento da produtividade que tem sido “extremamente desapontante na última década”.

Na Europa, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, o maior defensor da austeridade, diz não às pretensões de Juncker. O risco, como apontou a Comissão, é da trajetória orçamental em 2017 e 2018 ser contracionista, no exato momento em que deveria apoiar a retoma e a inflação que continuam em níveis fracos.

O ministro alemão sublinhou que não vê qualquer possibilidade de uma política expansionista orçamental e o jornal alemão Handelsblatt foi muito duro ao considerar que a Comissão estava a fazer “um apelo à irracionalidade e à irresponsabilidade” e que “Juncker sabe como encorajar muitas formas de delírio”.

Com esta oposição alemã a uma expansão orçamental na zona euro – sobretudo por parte das economias do ‘centro’ com excedentes externos muito elevados (acima do limite de 6% do PIB estabelecido pelas normas europeias como excessivo e carecendo de procedimento de correção em baixa) e folga orçamental – e face a uma crítica crescente à política monetária expansionista do Banco Central Europeu (BCE) por parte da Alemanha e do Bundesbank (o banco central alemão), a zona euro começa a ficar muito vulnerável. Sem impulso orçamental de 0,5% do PIB e com uma enorme pressão política para o BCE travar o seu programa de compras de ativos, o risco em 2017 aumentou significativamente.

O ‘choque’ Trump e estas circunstâncias políticas na zona euro estão a provocar uma vaga altista no custo da dívida soberana, e em particular nos periféricos.

Na agenda política europeia está o referendo constitucional em Itália a 4 de dezembro e quatro dias depois o BCE realiza a sua última reunião do ano onde está previsto um balanço sobre o programa de compra de ativos.

Produtividade mais importante do que prioridade de Trump

O evento mais esperado da semana era, de facto, a audição da presidente da Fed no Congresso, o primeiro testemunho depois das eleições.

"É minha intenção cumprir o mandato”, referiu Yellen perante a Comissão do Congresso, onde só compareceram para a interrogar dois Republicanos, o presidente e o vice-presidente da comissão, e sete Democratas que a espicaçaram para se afirmar como um dos obstáculos, em estruturas de poder central, à vaga Trump. A presidente da Fed espera para ver: “[As políticas da nova Administração] poderão afetar a perspetiva da Fed, mas só quando surgirem”. Até lá, “há um enorme grau de incerteza” que vai “durar por algum tempo considerável”.

Para já, Yellen vincou a independência do banco central face ao poder político e criticou, indiretamente, pontos cruciais do programa anunciado pelo presidente eleito durante a campanha eleitoral.

Torceu o nariz ao impulso orçamental para fomentar emprego. “A economia está a operar relativamente próxima de pleno emprego neste momento”, por isso, um impulso orçamental é “desnecessário", e “poderá ser desestabilizador” para a dinâmica da dívida pública e do défice orçamental. A situação norte-americana é complexa, alertou. O ritmo da mudança tecnológica diminuiu, a dinâmica da produtividade abrandou, a globalização e a crise financeira destruíram muitos empregos de médios rendimentos, gerou-se uma onda de frustração, segundo Yellen. “Há muitas opções possíveis [para lidar com o problema], mas não há soluções fáceis”, concluiu.

Andar para trás não

E, politicamente importante, levantou a voz contra a desregulação financeira que se desenha. Perante a Comissão, Yellen defendeu a lei Dodd-Frank, promulgada por Obama contra a especulação financeira, como tendo dado “uma contribuição muito significativa para a estabilidade financeira”. “Não gostaria de ver os ponteiros do relógio andarem para trás”, rematou.

O que é certo é que a garantia de Yellen de que a Fed aumentará “em breve” as taxas de juro, com uma probabilidade implícita de 94,5% de que haja uma subida para 0,5% a 0,75% na próxima reunião de 13 e 14 dezembro, junto com o ‘choque’ Trump provocaram a maior subida quinzenal dos juros das obrigações norte-americanas nos últimos 15 anos e um máximo de 14 anos no dólar face a um cabaz de divisas de parceiros comerciais.

A trajetória das yields das obrigações norte-americanas a 10 anos no mercado secundário pode ter decididamente encerrado um longo período de queda, desde o pico em 15,82% em setembro de 1981. Elas chegaram a um mínimo histórico de 1,36% em julho de 2016 e estavam a flutuar abaixo de 2% desde janeiro até que o ‘choque’ eleitoral as empurrou para cima desse limiar. Fecharam em 2,35% na sexta-feira. Desde 8 de novembro, subiram quase meio ponto percentual, um aumento de 26%.

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