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Juros da dívida aproximam-se de 4%. Portugal tem ‘teste de stresse’ na próxima quarta-feira

O efeito Trump, o risco da zona euro ficar sem impulso orçamental e o BCE muito pressionado politicamente estão a alimentar uma vaga altista nos juros da dívida na zona euro. IGCP realiza leilão de dívida a 5 anos a 23 de novembro

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos fecharam esta semana em 3,85% no mercado secundário, o nível mais elevado desde há mais de nove meses. O pico do ano, até à data, registou-se a 11 de fevereiro, quando as yields naquele prazo encerraram a sessão ligeiramente acima de 4%.

Os níveis desta semana já ultrapassaram os registados aquando do stresse do risco de corte de rating da dívida portuguesa pela agência canadiana DBRS (que não se concretizou) em setembro e outubro.

Em fevereiro o stresse foi motivado pela conjugação do contágio grego e da reação internacional a uma decisão anterior do Banco de Portugal em transferir alguma dívida sénior do Novo Banco para o BES “mau”.

Agora, a vaga altista, que levou à subida do custo de financiamento a 10 anos em 63 pontos base, mais de meio ponto percentual, desde 8 de novembro, deriva de uma nova conjugação negativa: o efeito global do ‘choque’ Trump e o aumento do risco na zona euro de que não haja um impulso orçamental em 2017 (como pretende a Comissão Europeia e se opõe a Alemanha) ao mesmo tempo que o Banco Central Europeu (BCE) está a ser cada vez mais pressionado para arrefecer a sua política monetária expansionista.

A reunião do BCE a 8 de dezembro revela-se crucial, quatro dias depois do referendo constitucional em Itália, A equipa de Mario Draghi enfrenta um quadro marcado por duas tendências negativas. A política orçamental continua a não ajudar a uma reflação mais robusta (a inflação da zona euro em outubro subiu para 0,5% bem longe da meta de 2%, e muito atrás da norte-americana) e à retoma económica (apenas um crescimento anual de 1,6% entre julho e setembro deste ano, abaixo dos 2% registados no segundo semestre de 2015 e no primeiro trimestre de 2016). E a política monetária pode esgotar-se em março próximo para alguns países do euro beneficiados pelo programa de compras de dívida pública, por emagrecimento das obrigações elegíveis. Portugal está nessa zona de risco.

IGCP testa mercado na quarta-feira

Portugal regressa ao mercado obrigacionista na próxima quarta-feira. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, IGCP, realiza o último leilão do ano, reabrindo a linha de OT que vence em 2021. O IGCP pretende colocar entre 500 e 750 milhões de euros, menos do que os 1000 milhões de euros no leilão anterior desta linha realizado em 29 de outubro. Então, pagou uma taxa de 1,751% e a procura foi de 1,93 vezes superior ao montante colocado.

No mercado secundário, as yields das OT a 5 anos registam 2,25%, meio ponto percentual acima do verificado no leilão de outubro, e já estiveram em 2,5%. Portugal prova um “teste de stresse” no dia 23 de novembro.

As yields das OT no prazo de referência foram as que mais subiram em termos de pontos base, mas em termos de variação relativa desde 8 de novembro, ficaram muito atrás dos disparos para as yields das obrigações francesas e irlandesas, ou mesmo das obrigações alemãs, espanholas e italianas.

O custo de financiamento da dívida a 10 anos portuguesa subiu 63 pontos base, como já se referiu, uma variação de 19,5% desde 8 de novembro. Um nível de 3,85% no fecho de sexta-feira alerta para a possibilidade de uma subida até 4%, o atual pico do ano.

Se ao contágio norte-americano em curso se adicionarem novos contágios na Europa e temores sobre o futuro da política monetária do BCE, Portugal é um dos periféricos mais vulneráveis.

Disparos em França e na Irlanda

Em termos de subidas em pontos base no prazo a 10 anos, desde as eleições presidenciais norte-americanas, as yields aumentaram 38 pontos para as italianas, 35 pontos para as irlandesas, 34 para as espanholas e 30 para as francesas. As yields das obrigações alemãs subiram apenas nove pontos base e as relativas às obrigações gregas desceram 21 pontos base, naquele período.

Olhando para os mínimos que foram atingidos nas yields de alguns periféricos no prazo de referência em agosto e setembro, o custo de financiamento atual é quase o dobro para Espanha, é o dobro para Itália e mais do triplo para a Irlanda. As yields das obrigações italianas regressaram acima de 2% e das irlandesas acima de 1%, no prazo a 10 anos.

As variações relativas dão uma melhor dimensão do disparo que marcou as yields de algumas dívidas da zona euro desde o ‘choque’ Trump: 62,5% para as francesas; 51,5% para as irlandesas; 47% para as alemãs e holandesas. No caso de Espanha a variação foi de 27% e no caso italiano de 22%.

Rentabilidade negativa agrava-se em Portugal e Itália

Portugal e Itália são os dois únicos membros do euro que registam rentabilidades negativas, se o retorno for medido desde início do ano. Aquele indicador, com base nos índices da Bloomberg, agravou-se.

A rentabilidade caiu de -1,65% no final de outubro para -4,12% na sexta-feira passada no caso da dívida obrigacionista portuguesa. Para a dívida italiana, o retorno caiu de 1,46% (positivo) para -1,13%, naquele período.

No conjunto da zona euro, a rentabilidade está em trajetória descendente, mas é de 2,2%.

O recordista na rentabilidade é a dívida grega que subiu de 6,83% no final de outubro para 16,66% na sexta-feira passada. A consolidação do processo de ajustamento no quadro do terceiro resgate retirou a Grécia do foco negativo dos mercados financeiros. Atenas recebeu, esta semana, o apoio político do presidente norte-americano Obama para uma reestruturação da dívida helénica.