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“Portugal mantém-se à sombra da energia solar”

Alberto Frias

Um dos vice-presidentes da Associação Portuguesa das Energias Renováveis, Hélder Serranho, alerta que, apesar dos preços dos painéis solares estarem mais baratos, o valor que se paga pela venda de energia à rede não chega para cobrir os custos. E é por isso, diz, que não há projetos

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

A energia solar em Portugal tem tudo para dar certo, principalmente agora. Os preços dos painéis estão quase a metade do preço de há três anos, há uma série de empresas a pedir autorização para construir parques e o Governo já emitiu licenças para se construírem cerca de 400 MW centrais - quase o dobro do que existe hoje no país - e sem quaisquer subsídios, ou seja, a energia produzida é vendida a preços de mercado. Mas projetos, no terreno, nem vê-los.

“Portugal mantém-se à sombra da energia solar. Não há investimentos a acontecer, porque fazer projetos com base nos preços de mercado é difícil”, disse um dos vice-presidentes da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), Hélder Serranho, quarta-feira na conferência anual desta associação.

De facto, segundo outro dos vice-presidentes desta associação, António Lobo Gonçalves, mesmo que os preços no mercado de compra e venda de energia estejam a cerca de 40 euros por MWh, como estão agora, esse não será o valor final que o produtor recebe. “É preciso descontar a utilização das redes ou o custo do comercializador e os 40 euros passam a ser 25 euros, por exemplo, e 25 euros por MWh não é seguramente suficiente para remunerar uma instalação fotovoltaica”, disse no mesmo encontro.

Esta pode ser uma das razões para que os cerca de 400 MW atribuídos recentemente pelo Governo ainda não tenham saído do papel, pelo menos segundo notou António Lobo Gonçalves que é também administrador da EDP Renováveis. “Nenhum foi executado ou esta em vias de o ser. E a licença tem uma validade de dois anos. Se não se investir nesse prazo perde-se a licença”, disse.

Para os dois responsáveis da APREN, a solução não pode ser esperar que os preços dos painéis desçam ainda mais. O ideal, dizem, é criar um novo modelo tarifário em vez de simplesmente estar a atribuir licenças em regime de mercado. “Não precisamos de ser subsidiados, mas temos de ser remunerados de forma adequada. Os preços de mercado não pagam o solar. Não pagam nenhuma fonte de produção de energia”, comentou Hélder Serranho.

Segundo António Lobo Gonçalves, “o Governo tem de lançar um concurso com uma remuneração definida como se está a fazer noutros países da Europa”. Contudo, se isso acontecer, os quase 400 MW que já foram atribuídos têm de ser retirados às empresas que os pediram e tem de começar tudo do zero de novo.

“Quem já avançou pensa que está na pole position e não pode ser. Nós lutaremos contra isso. Se houver um concurso, que tem de ser internacional, tem de se fazer um reset ao que já foi licenciado e todos têm de seguir as mesmas regras. Não há melhor democracia do que esta”, adiantou o administrador da EDP Renováveis.

A empresa não recebeu nenhuma das licenças atribuídas, mas diz que quer continuar a apostar no solar em Portugal. Aliás, já tem uma central a funcionar e na segunda-feira vai iniciar a construção de mais um projeto em Évora - a central de Alcalinizes - com uma potência instalada de 3 MW. Mas este resultou de um concurso anterior que tinha a chamada feed-in-tariff, ou seja, o preço a que se venda a energia produzida está definido e é ligeiramente acima do preço do mercado. Dai que a considerem uma tarifa bonificada ou mesmo subsídio.