Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Juros da dívida portuguesa em máximos de nove meses

Os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos fecharam esta quarta-feira em 3,69%. O ‘efeito Trump’ já provocou uma subida de quase meio ponto percentual. Prémio de risco da dívida portuguesa já é o que mais subiu desde 8 de novembro entre os periféricos

Jorge Nascimento Rodrigues

A vaga de subida das yields das obrigações soberanas na zona euro continua, induzida pelo que os analistas financeiros chamam de ‘efeito Trump’.

Na sequência da vitória de Donald Trump nas presidênciais nos Estados Unidos a 8 de novembro, a expetativa de uma aceleração da reflação (aumento da inflação) nos Estados Unidos e a convicção de uma subida das taxas de juro do banco central norte-americano, Reserva Federal, menos gradualista, estão a provocar um ‘choque’ no mercado da dívida soberana (e, também, da dívida obrigacionista das grandes empresas, encarecendo o custo de financiamento destas).

Esta quarta-feira registaram-se subidas nos periféricos do euro, com exceção da Grécia. Os maiores aumentos de yields no mercado secundário na sessão de hoje registaram-se para as obrigações portuguesas e espanholas naquele prazo de referência.

O custo de financiamento da dívida portuguesa a 10 anos fechou em 3,69%, um máximo de nove meses, só ultrapassado pelo pico do ano em 4,1% registado a 11 de fevereiro, com a crise grega e a reação internacional a uma decisão do Banco de Portugal sobre transferência de dívida sénior do Novo Banco para o BES “mau”. Só esta quarta-feira, as yields aumentaram 19 pontos base, a maior subida entre os periféricos do euro.

Desde 8 de novembro, dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT), a 10 anos, já subiram 47 pontos base, quase meio ponto percentual, destacando-se como a maior subida entre os periféricos do euro em termos de valor de fecho. As yields das obrigações espanholas, naquele prazo, subiram, no mesmo período, 30 pontos base, o segundo maior aumento. As irlandesas aumentaram 25 pontos base e as italianas avançaram 28 pontos base. No caso da Grécia, a subida foi de, apenas, sete pontos base. O governo deste país recebeu ontem o apoio do presidente norte-americano à necessidade de um alívio da dívida grega, aquando da visita de Obama a Atenas.

Entretanto, as yields das obrigações alemãs no prazo de referência desceram hoje dois pontos base, fechando em 0,29%, um aumento de 10 pontos base em relação ao valor de 8 de novembro.

Os valores de fecho desta quarta-feira das yields, no prazo a 10 anos, nos cinco periféricos foram de 3,69% para as OT, 1,57% para as obrigações espanholas, 2% para as italianas, 0,94% para as irlandesas e 7,39% para as helénicas.

Em virtude das yields das obrigações de quatro periféricos – Espanha, Irlanda, Itália e Portugal – terem aumentado muito mais do que o custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência, o prémio de risco disparou 36 pontos base para Portugal, 22 pontos base para Itália, 20 pontos base para Espanha, 16 pontos base para Irlanda, entre 8 e 16 de novembro. Desceram três pontos base para a Grécia, no mesmo período.

O prémio de risco da dívida portuguesa subiu hoje 20 pontos base para 339 pontos base. Um nível que corresponde a um diferencial de mais de 3 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã. Os valores de fecho desta quarta-feira do prémio de risco dos restantes periféricos foram 128 pontos base para Espanha, 175 pontos base para Itália, 65 pontos base para a Irlanda, e 710 pontos base para a Grécia.

O prémio de risco português é quase o dobro do italiano e mais de 2,5 vezes superior ao espanhol. O prémio de risco irlandês é 1/5 do português. As diferenças entre os quatro periféricos continuam a ser substanciais, apesar da atenção dos analistas financeiros estar ultimamente focada no risco político em Itália, com o referendo constitucional a 4 de dezembro.

Riscos dos orçamentos para 2017 de Espanha e Portugal

A Comissão Europeia anunciou hoje o seu veredicto sobre o ‘rascunho’ do Orçamento do Estado para 2017 apresentado a Bruxelas pelo Governo de António Costa, considerando que há “risco de incumprimento” das regras a que está obrigado, ainda que “o desvio projetado exceda o limite definido para um desvio significativo por uma margem muito estreita”. "Margem muito estreita" no desvio é a parte chave do comunicado.

No entanto, o risco de incumprimento em 2017 não foi referido só em relação a Portugal. “O rascunho do orçamento [apresentado pelo então governo em gestão de Mariano Rajoy] está em risco de não cumprir os requisitos para 2017 estabelecidos no Pacto de Estabilidade e Crescimento”, refere a posição de Bruxelas sobre o orçamento espanhol, sublinhando que a sua previsão “é que não se cumpra nem a meta do défice nem o esforço orçamental recomendado”.

O reparo foi feito, também, aos ‘rascunhos’ de orçamentos de mais seis países – Bélgica, Itália, Chipre, Lituânia, Eslovénia e Finlândia. Itália, Lituânia e Finlândia já pediram “maior flexibilidade” para o próximo ano.

O colégio de comissários europeus em Bruxelas, também, decidiu, esta quarta-feira, não congelar os fundos estruturais a Espanha e Portugal, penalização a que os dois países poderiam ser sujeitos em virtude de incumprimento de objetivos anteriores de redução do défice em que se haviam comprometido.