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Contágio americano encarece custo da dívida dos periféricos. Irlanda lidera disparo

Depois de conhecida a vitória de Trump nas eleições de 8 de novembro nos EUA, o custo de financiamento a 10 anos subiu 10% para Portugal. Mas, no caso irlandês, o aumento foi de 46%. Juros em França subiram 77% e na Alemanha 68% nas últimas quatro sessões

Jorge Nascimento Rodrigues

O custo de financiamento da dívida soberana no prazo de referência a 10 anos subiu em toda a zona euro. Para a dívida portuguesa, naquele prazo, o aumento foi de 10% entre 8 (dia das eleições presidenciais norte-americanas) e 14 de novembro. Apesar do encarecimento recente, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) mantém a possibilidade de mais uma emissão obrigacionista até final do ano.

Na segunda-feira, as yields das Obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos fecharam em 3,53%, um valor próximo do registado a 7 de outubro, aquando da conjugação do pico do stresse de um corte do rating português pela DBRS (que não se viria a verificar no final daquele mês) com o rumor de que o Banco Central Europeu iria antecipar um processo de redução de compras de ativos antes de março de 2017 (o que foi desmentido por Mario Draghi).

Durante a sessão de ontem, as yields, naquela maturidade, chegaram a marcar 3,68%. O pico do ano verificou-se a 11 de fevereiro, com as yields a ultrapassarem os 4,1%. Na abertura desta terça-feira, a trajetória é descendente.

O contágio da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 8 de novembro provocou uma tendência de subida global nas yields da dívida obrigacionista das economias desenvolvidas, mas em particular nos membros do euro.

No prazo de referência, as yields dispararam 77% no caso das obrigações francesas e 68% no caso das alemãs, entre 8 e 14 de novembro. Entre os periféricos, a Irlanda liderou com uma subida de 46%, seguida de 22% para Espanha, 21% para Itália, 10% para Portugal e 1% para a Grécia. Estas variações são em termos relativos. Os patamares em que se encontram as yields das obrigações alemãs, francesas e irlandesas são inferiores a 1%, o que compara com 1,6% para Espanha, 2% para Itália, 3,5% para Portugal e 7,4% para Grécia, nos valores de fecho de ontem.

Nos EUA, a subida foi de 21% e no Reino Unido de 14%. No Japão, na abertura desta terça-feira, as yields das obrigações a 10 anos abriram ligeiramente em terreno positivo, em 0,005%. Se o valor de fecho for positivo, será a primeira vez desde janeiro.

Os dados divulgados hoje apontam para uma estabilização em outubro da inflação anual em 0,5% em Espanha e França e para um crescimento anual do PIB (em termos homólogos) no terceiro trimestre de 1,6% em Portugal e 0,9% em Itália, acima das taxas registadas no segundo trimestre, de 0,9% e 0,7% respetivamente. No entanto, no caso da Alemanha, o ritmo anual de crescimento abrandou significativamente de 3,1% no segundo trimestre para 1,5% no terceiro trimestre. E, no Reino Unido, a inflação anual desceu para 0,9% em outubro, depois de 1% em setembro.

De assinalar que as yields das obrigações italianas ultrapassaram a barreira dos 2% no dia 11 de novembro, o que já não se registava desde julho de 2015. No caso dos EUA, aquela barreira foi galgada a 9 de novembro, logo que conhecida a vitória de Trump.

Subida dos juros da Fed na reunião de dezembro com alta probabilidade

A conjugação da promessa do candidato Trump de um programa orçamental expansionista (infraestruturas, Defesa, incentivos fiscais a relocalização de empresas e indústrias) e de desregulação em Wall Street (liquidação da lei Dodd-Frank que limita as operações especulativas dos bancos e a venda de derivados) e no sector dos combustíveis fósseis a par da pressão para uma subida menos gradualista das taxas de juro da Reserva Federal, o banco central norte-americano, aumentaram as expetativas de inflação, de reforço do processo de reflação já em curso nos EUA, e, por arrasto, no Reino Unido e na Zona Euro.

A probabilidade de uma subida de 25 pontos base dos juros da Fed para o intervalo entre 0,5% e 0,75% na próxima reunião de 14 de dezembro subiu ontem para 85,8%, segundo os futuros das taxas de juro monitorizados pela CME. A probabilidade de os juros serem subidos para o intervalo de 0,75% a 1% na reunião de 1 de novembro de 2017 – daqui a menos de um ano – aumentou para 38%.

Alguns analistas norte-americanos colocam alguma água na fervura na atual “exuberância”. Mike Shedlock, por exemplo, chama a atenção que há diversos potenciais movimentos deflacionistas que poderão contrabalançar a reflação em que os mercados financeiros estão a apostar.

Um dólar forte prejudica as exportações norte-americanas e uma maior desvalorização do yuan chinês poderá dificultar ajustamentos pretendidos pela Administração Trump, o que será, ainda, mais agravado com eventuais guerras comerciais prejudicando o comércio internacional e provocando um abrandamento na economia mundial. O aumento das yields das obrigações norte-americanas está a ter já um impacto negativo nas hipotecas no mercado imobiliário. O risco do cartel da OPEP não concretizar um teto de produção na sua cimeira de 30 de novembro continua de pé e o excesso de oferta mundial poderá ser agravado por um boom na produção norte-americana impulsionada pela prioridade de Trump aos combustíveis fósseis, o que terá um efeito deflacionário.

Rentabilidade negativa para Portugal e Itália

O retorno do conjunto da dívida obrigacionista portuguesa continua a agravar-se. Medido desde o início do ano, caiu de -2,4% no final da semana passada para -2,7% na segunda-feira.

A novidade, pela negativa, em novembro é Itália. A rentabilidade da dívida obrigacionista transalpina caiu para terreno negativo na semana passada e está a agravar-se com o contágio Trump que aumenta o risco político quanto ao desfecho do próximo referendo constitucional em Itália a 4 de dezembro. Nas 32 sondagens realizadas por 11 institutos diferentes desde 21 de outubro, todas apontam o 'não' como vencedor no referendo, e por larga maioria.

O retorno das obrigações italianas desde início do ano caiu de -0,77% na sexta-feira passada para -1,21% ontem.

No conjunto da zona euro, a rentabilidade da dívida obrigacionista, desde início do ano, emagreceu, de 2,2% a 11 de novembro para 1,99% a 14 de novembro.