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Empresas serão negócios tecnológicos

No final da conferência no Oceanário, Mariza deu um concerto privado

António Bernardo

Soluções com o dedo da robótica e da inteligência artificial marcam as mudanças na era mais digital de sempre

Rute Barbedo

Já não se espera que a magia saia de cartolas mas sim das novas tecnologias de informação, porque os consumidores exigem, cada vez mais, que as empresas antecipem os seus desejos. E isto está a transformar o mundo empresarial, acreditam os oradores da conferência New IT — Power the Future, promovida pelo Expresso e pela Accenture, que decorreu a semana passada no Oceanário de Lisboa. “Todos os negócios estão a tornar-se negócios de software; é uma questão de sobrevivência”, sumarizou Yves Bernaert, líder da Accenture Technology para a Europa, África e América Latina.

Olha o robô
Exagerado? Talvez não, se considerarmos empresas como a Amazon, que começou por vender livros e hoje concentra uma base de serviços contratáveis desde a carpintaria até aulas de piano; ou a Tesla, uma fabricante de automóveis que pôs um pé no sector da energia com a criação de coletores de radiação solar (Tesla Roof) aptos a alimentar a sua Powerwall. O expoente máximo chega do Oriente, sob a figura humanoide da estrela pop Hatsune Miku, um holograma que esgota salas de concerto desde o Japão até aos Estados Unidos. Aos que acreditam que estes exemplos são uma parte mínima da realidade, Ben Goertzel, da Hanson Robotics (especializada no fabrico de robôs como Sophia, que foi entrevistada no mês passado pela CBS News), responde o seguinte: “Há alguns anos, pensar num computador era um absurdo e agora eles fazem parte de tudo. Hoje, podemos pensar o mesmo sobre os robôs.”

Mas não são apenas os gigantes da tecnologia a disputar esta corrida. Na era digital, “as formigas estão a comer os elefantes”, sublinha Pedro Lopes, diretor-administrativo da Accenture Technology, referindo-se à ascensão da filosofia startup, que é capaz de personalizar a oferta, porque analisa o “cliente não na perspetiva de um sector mas pelo seu estilo de vida”. “Os novos players digitais têm uma agilidade e flexibilidade que a maioria das empresas não tem”, considera.

As novas tecnologias aplicadas a empresas portuguesas marcaram o segundo painel, em que estiveram representantes da EDP, NOS e Fidelidade

As novas tecnologias aplicadas a empresas portuguesas marcaram o segundo painel, em que estiveram representantes da EDP, NOS e Fidelidade

As novas tecnologias de informação atravessam, assim, as diferentes áreas de negócio, fazendo irremediavelmente parte dele. Já não são as empresas a fabricar para o exterior soluções digitais mas a incorporá-las no seu funcionamento. “Temos de parar de pensar em apps e em websites para pensarmos em serviços. O importante não é a tecnologia em si mas o ponto de inflexão psicológica do consumidor, em que ele fica feliz ao interagir com ela”, resumiu Mark Curtis, cofundador da agência de design Fjord. É também nesses “micromomentos” que a inovação poderá manifestar-se com mais força. “Hoje, as decisões podem ser comandadas pela voz, mas, no futuro, poderá ser porque o ritmo cardíaco se altera ou porque entramos num quarto ou num automóvel” e a tal magia acontece, exemplificou.

“Capturar o valor do digital”
O momento atual é “uma oportunidade para repensar como estamos a conduzir os negócios”, defende Andra Keay, diretora-administrativa da Silicon Valley Robotics, que aconselha a olhar para “as grandes mudanças” e a não “subestimar os impactos a longo prazo”, que deverão ser sentidos perto das nossas casas e até em áreas como a agricultura, com a entrada em cena de veículos autónomos, dotados de inteligência artificial.

No plano da prestação de serviços, o relacionamento com os clientes; a automação e robotização dos processos (como acontece em alguns call centres, em que o atendimento é executado por assistentes virtuais); o equilíbrio entre os ativos físicos e a internet; e a aplicação de ferramentas de análise estatística (analytics) e de gestão de megadados (big data) são centrais no estudo de como os negócios se podem “transformar para capturar o valor do digital”, nas palavras de José Gonçalves, presidente da Accenture Portugal.

À cabeça desta revolução estão os avanços nos campos da robótica e da inteligência artificial, que, concordam os oradores desta conferência, permitirão acelerar os processos organizativos e tornar a execução de tarefas mais eficaz. Isso significa a extinção de postos de trabalho? “Todas as revoluções em tecnologias de informação geraram mais empregos, eles apenas mudam de natureza”, garantiu Yves Bernaert. Portanto, o futuro deverá trazer novas profissões, focadas, em grande parte, na gestão de exceções (imprevistas pela máquina), na criatividade e inovação e no design de experiências coerentes para o utilizador. Como frisou Jorge Graça, administrador-executivo da NOS, “seja num telemóvel ou num tablet, a experiência tem de ser comum a todos os end-points”.

No primeiro painel estiveram quatro oradores que também participaram na Web Summit

No primeiro painel estiveram quatro oradores que também participaram na Web Summit

Hiato entre a revolução e os trabalhadores
Se a computação em nuvem (cloud), as redes sociais e os dispositivos móveis desconstruíram em pouco mais de uma década o mundo em que vivíamos, as tecnologias de informação emergentes vão fazê-lo de forma ainda mais veemente, prevê Paul Daugherty, diretor de Tecnologia da Accenture. O mercado de trabalho e a estruturação das empresas não serão indiferentes às mudanças, cabendo neste cenário mais trabalhadores independentes, o recurso crescente ao outsourcing, uma especialização galopante e o fenómeno da “disrupção previsível”. “Muitas startups e gigantes da tecnologia irão destronar empresas tradicionais” pela simples rutura da ordem, deduz o especialista.

A perspetiva portuguesa, nesta conferência, mostrou-se mais ponderada quanto à supremacia das soluções tecnológicas. Para Rogério Campos Henrique, administrador-executivo da Fidelidade, o panorama atual ainda se faz de clientes híbridos, que “utilizam vários canais em simultâneo, como a pesquisa offline e a compra online” ou vice-versa. “Não há uma visão 100% digital.”

Por outro lado, quando os “talentos” especializados em novas tecnologias são recrutados pelas empresas do presente, “há problemas de fit [ajustamento], porque as tecnologias não são as que eles imaginaram e porque alguns processos de trabalho ainda não são suficientemente ágeis”. O desafio atual é o da “coexistência entre as novas tecnologias e as arquiteturas empresariais”, que, segundo o administrador, implica “mudar processos de trabalho” e integrar diferentes gerações numa empresa, cruzando a criatividade e a inovação com a experiência.

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 12 de novembro de 2016