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Quem pode salvar Portugal em 2017?

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA acaba de pôr em causa todo o cenário macroeconómico que sustenta o Orçamento do Estado português para o próximo ano. Como pode o Governo fazer acelerar as exportações em 2017, quando a guerra anunciada pelo próximo inquilino da Casa Branca é precisamente contra a globalização, o livre comércio e as importações que destroem os empregos dos americanos?

DR

Os maiores clientes de Portugal

1º Espanha: Em 2015, comprou 20,6% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe mais 4,6% de bens e 8,2% de serviços. Mas em 2017, o FMI prevê que as importações espanholas no mundo abrandem de 6,1% para 4,4%

2º França

3º Alemanha

4º Reino Unido: Em 2015, comprou 9,7% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe mais 8,1% de bens e 5,8% de serviços. Mas, em 2017, o FMI alerta que as importações britânicas no mundo podem cair 2,2%

5º EUA: Em 2015, comprou 5,2% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe menos 12% de bens mas mais 9,1% de serviços. E em 2017, o FMI previa (antes de Trump) que as importações americanas no mundo disparassem de 2,2% para 7,2%

6º Angola:Em 2015, comprou 4,8% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe menos 42,2% de bens e menos 34% de serviços. Mas, em 2017, o FMI prevê que as importações angolanas no mundo estanquem a queda e subam 14,8%

7º Países Baixos

8º Itália

9º Bélgica

10º Suíça: Em 2015, comprou 2% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe mais 16,2% de bens e 2,6% de serviços. Mas em 2017, o FMI prevê que as importações suíças no mundo abrandem de 5,9% para 4,3%

11º Brasil: Em 2015, comprou 2% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe menos 9,3% de bens e menos 19,1% de serviços. Mas, em 2017, o FMI prevê que as importações brasileiras no mundo estanquem a queda e subam 2,1%

12º China: Em 2015, comprou 1,3% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe menos 29,7% de bens. E em 2017, o FMI alerta que as importações chinesas no mundo vão continuar a desacelerar de 3,9% para 2,7%

13º Irlanda: Em 2015, comprou 1,1% das exportações portuguesas. Em 2016, Portugal está a vender-lhe mais 46,5% de bens mas menos 1,7% de serviços. Mas, em 2017, o FMI prevê que as importações irlandesas no mundo abrandem de 7% para 5,9%

O cenário macroeconómico que sustenta as contas públicas do Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano corre o risco de ficar desatualizado antes de entrar em vigor a 1 de janeiro de 2017. É que se há Governo da zona euro que conta com a aceleração da procura externa e das exportações para alcançar as metas do PIB e do défice do próximo ano, esse governo é o português. E se há prioridade que se destaca na agenda de Donald Trump, essa prioridade é o protecionismo comercial que ameaça agravar tarifas aduaneiras, reavaliar acordos internacionais, travar as trocas com grandes fornecedores como a China, o México, a Alemanha ou o Japão e abalar todas as cadeias de valor estabelecidas à escala mundial que envolvem dezenas de países, incluindo Portugal.

Vulnerabilidade máxima

Para medir a vulnerabilidade do Governo português a este contexto de incerteza a nível internacional, o Expresso comparou os cenários macroeconómicos dos OE dos 18 países da zona euro que durante outubro submeteram a sua proposta orçamental à Comissão Europeia (todos menos a Grécia que está sob assistência financeira). Conclusão: o cenário macroeconómico que sustenta o OE português é dos mais arriscados quanto à retoma do comércio internacional em 2017.

Primeiro, o Governo português foi dos mais otimistas quanto à retoma da procura externa relevante para os bens e serviços portugueses no próximo ano, contando com uma aceleração de 1,8 pontos percentuais (p.p.), de 2,4% em 2016 para 4,2% em 2017. Só o Governo finlandês acompanha o entusiasmo português, prevendo uma aceleração dos seus mercados externos relevantes de 1,3% em 2016 para 3,1% em 2017. De facto, as projeções dos restantes parceiros do euro foram mais prudentes no que toca ao dinamismo da procura externa em 2017. A Alemanha só previu no seu OE uma aceleração de 1 p.p. enquanto a Bélgica e a Holanda previram mesmo uma desaceleração da procura externa em 2017.

Segundo, o Governo português foi dos mais otimistas quanto à retoma das exportações de bens e serviços, contando com uma aceleração de 1,1 p.p., de 3,1% em 2016 para 4,2% em 2017. Esta confiança na retoma só é acompanhada por três países, embora nenhum deles preveja exportar tanto quanto Portugal no próximo ano: a Letónia previu uma subida de -0,6% para 3,9%; a França de 0,9% para 3,5%; e a Finlândia de 1% para 3%. De facto, as projeções dos restantes parceiros do euro são mais prudentes no que toca à aceleração das vendas ao exterior em 2017. Dado o contexto de elevada incerteza a nível mundial, governos como os da Alemanha e da Holanda contam mesmo desacelerar as exportações no próximo ano.

Terceiro, o otimismo do cenário macroeconómico do Governo português é dos mais questionados pelas previsões de outono que a Comissão Europeia divulgou poucas horas após a imprevisível vitória de Donald Trump. De facto, mesmo sem contar com o devido impacto dos resultados das eleições norte-americanas, Bruxelas acaba de rever, para pior, as principais metas do Governo português para 2017: as exportações devem crescer 3,7% em vez de 4,2%, o PIB deve crescer 1,2% em vez de 1,5% e o défice orçamental deve ficar nos 2,7% em vez de 1,6% do PIB. Finlândia, Letónia, França ou Eslovénia são parceiros que viram as suas metas das exportações ou do PIB corrigidas em baixa por acreditarem demasiado na recuperação da frente externa em 2017, mas nenhum tem a pressão do endividamento público português.

Dose dupla

Não é a primeira vez que o Governo arrisca tanto na frente externa. Recorde-se que no OE-2016, o Executivo já falhara a previsão quanto à procura externa relevante em 1,9 p.p., tendo sido obrigado agora a revê-la em baixa de 4,3% para 2,4%. No mesmo OE, o Governo também falhou a previsão quanto às exportações deste ano em 1,2 p.p., revendo-a agora em baixa de 4,3% para 3,1%.

Aliás, o ministro das Finanças justificou recentemente ao Parlamento o falhanço do cenário macroeconómico do OE-2016: “A economia internacional tem vindo a afetar e a fazer rever todas as projeções de todos os países de todas as instituições internacionais.” Mas a continuada incerteza a nível internacional não impediu o Governo de repetir a aposta e voltar a arriscar na meta das exportações em 2017”
De resto, mal foi conhecido o OE-2017, o Conselho das Finanças Públicas alertou para o grande risco do cenário macroeconómico que sustenta o défice do próximo ano: “As exportações são a componente que apresenta o maior contributo para o crescimento do PIB em volume em 2017, baseando-se numa forte recuperação da procura externa que tem subjacente um elevado grau de incerteza.” O risco de uma nova previsão falhada na frente externa vem calculado no próprio relatório que acompanha o OE-2017: “Num cenário de crescimento de procura externa relevante mais reduzida, -2 p.p., registar-se-á uma contração da atividade económica em -0,3 p.p.”

Na mão de 13

Espanha, França, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos da América, Angola, Países Baixos, Itália, Bélgica, Suíça, Brasil, China e Irlanda são os países que mais rapidamente podem baralhar as contas do OE-2017 se não comprarem tanto a Portugal como o Governo espera. É que na mão destes 13 países estão 80% de todos os bens e serviços que o país consegue vender ao exterior.

As previsões de outono que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou em outubro já alertavam para uma possível quebra das importações do Reino Unido em 2017 e para uma desaceleração das compras por parte de Espanha, Suíça, China ou Irlanda. Para o próximo ano, o FMI também previu que Angola e Brasil contivessem o colapso das importações dos últimos anos e que os EUA fizessem disparar as suas importações mundiais de 2,2% para 7,2%, uma projeção que choca de frente com a agenda económica de Donald Trump.

Tanto o FMI como a Comissão Europeia estimam que as importações da Alemanha, França, Holanda, Itália e Bélgica acelerem em 2017. Mas os riscos destas projeções agravaram-se nos últimos dias e podem piorar na primavera com a concretização do ‘Brexit’ ou das sondagens que dão Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais francesas.

As consequências de Portugal concentrar tantas vendas em tão poucos clientes já estão aí, sobretudo ao nível do comércio de mercadorias. Pelas contas do Instituto Nacional de Estatística (INE), as cinco maiores empresas do país — responsáveis por 15,9% das exportações portuguesas de bens — concentram metade das suas vendas em apenas três mercados: Alemanha, Espanha e EUA.

Segundo a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), 71% das exportações portuguesas de bens e serviços tiveram como destino a União Europeia em 2015. Só Espanha (20,6%), França (12,6%), Alemanha (10,9%) e Reino Unido (9,7%) compram mais de metade de tudo o que Portugal consegue vender ao mundo. Portugal exporta mais para os britânicos — que agora querem sair da União Europeia — do que para todos os mercados americanos (9,5%) ou africanos (9,1%). Ao conjunto dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), só consegue vender metade do que exporta para França (6,3%). E para os mercados da Ásia e Oceania (4,9%) vende tanto como para Angola (4,8%).

Na última década, Portugal até tentou sair da zona de conforto do mercado europeu e diversificar as exportações para mercados extracomunitários como Angola, Brasil ou Venezuela. Mas o colapso do poder de compra dos clientes produtores de petróleo está a obrigar as exportadoras portuguesas a repensarem estratégias e a procurarem mercados alternativos.

O sonho angolano tornou-se um pesadelo. Pelas contas da AICEP, a quota deste cliente nas exportações portuguesas de bens e serviços multiplicou por cinco entre 1999 (1,4%) e 2013 (6,9%), mas hoje vale só 3%. As vendas a Angola atingiram o recorde de €4745 milhões em 2014, mas desde então já caíram €1198 milhões durante 2015 e mais €888 milhões só nos primeiros oito meses de 2016, somando um rombo superior a €2 mil milhões nos exportadores portugueses.

O sonho brasileiro não correu melhor. A quota deste cliente nas exportações portuguesas de bens e serviços praticamente triplicou entre 2003 (1%) e 2013 (2,7%), mas hoje vale só 1,8%. As vendas ao Brasil atingiram o recorde de €1835 milhões em 2013, mas desde então já caíram €324 milhões até 2015 e mais €147 milhões até agosto de 2016, somando um rombo próximo dos €500 milhões nos exportadores portugueses.

Ordem para diversificar

O Governo tem estado a trabalhar numa estratégia de internacionalização da economia portuguesa. Em abril, o conselho de ministros reativou o Conselho Estratégico de Internacionalização da Economia (CEIE) criado em 2011 pelo anterior governo PSD/CDS. Em junho, o primeiro-ministro chamou a São Bento as maiores empresas exportadoras como TAP, Petrogal, Navigator (ex-Portucel), Autoeuropa ou Continental Mabor. Em julho, foi a vez de as associações empresariais serem ouvidas em São Bento.

Além do reforço da eficácia da rede de apoio às empresas — tirando todo o partido da ação da AICEP e da diplomacia económica —, o Governo pretende promover o comércio externo, o investimento português no estrangeiro e captar mais investimento direto estrangeiro em países com excessos de liquidez ou com uma forte apetência para a exportação de capitais para a Europa.

O desafio não é só aumentar o número de mercados de exportação, mas também aumentar o número de empresas exportadoras. A base exportadora do país é mínima, pois, segundo dados governamentais, apenas 20 mil empresas têm atividade exportadora, o que significa que cerca de 90% das empresas com nove ou mais trabalhadores estão exclusivamente orientadas para o mercado interno. Segundo o INE, a falta de exportadores é flagrante no comércio internacional de mercadorias, já que 69,7% das empresas transaciona apenas com um país. Em 2015, as cinco maiores empresas exportadoras de bens concentraram 15,9% do valor transacionado, as dez maiores 20,4%, as cem maiores 43,7% e cerca de 2/3 das exportações foram efetuadas pelas 500 maiores empresas.

É neste contexto que o Governo está a equacionar medidas como a formação de elevada qualidade de empresários, gestores e técnicos, a inserção de quadros especializados e novas ferramentas de apoio à identificação de mercados, para desencadear o potencial exportador de mais empresas portuguesas.

Para já, a AICEP tem percorrido as cidades de norte a sul do país com o roadshow Portugal Global, de modo a captar mais empresários para a exportação. Para dia 23 de novembro está marcado o maior evento nacional dedicado à internacionalização das empresas — Portugal Exportador. Este ano, o programa traz dez mercados em destaque: Argélia, Chile, Canadá, Emirados Árabes Unidos, Espanha, Japão, Marrocos, Moçambique, Polónia... e EUA.