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Presidente da CMVM alerta para situações semelhantes às da era pré-crise 2007-08

Num artigo publicado esta segunda-feira, Carlos Tavares, questiona se se aprendeu com os erros da crise de 2007-2009. Tavares, que está de saída do cargo de presidente do regulador português dos mercados financeiros, avisa que existem situações preocupantes paralelas às que antecederam a anterior crise.

Existem hoje situações preocupantes semelhantes às que precederam a crise de 2007-2008 e não se aproveitou para aprender com os erros da anterior crise, avisa Carlos Tavares, presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Tavares, que está de saída daquele cargo, após mais de um ano após ter terminado o seu mandato, faz vários alertas e deixa críticas, nomeadamente à falta de coordenação entre entidades com responsabilidades no setor e também ao governo das instituições financeiras.

"Encontramos hoje situações preocupantemente paralelas às que precederam os acontecimentos de 2007-2008", refere no artigo divulgado no site do regulador.

"São os casos do comportamento dos preços de vários activos financeiros e reais, do excesso de endividamento da generalidade dos agentes, da disseminação e tomada de riscos excessivos por diversas categorias de investidores e da subsistência de partes substanciais dos mercados com défices de transparência", alerta.

Admite que "algumas coisas mudaram" como o facto de "o conhecimento dos riscos" ser "maior dos que há oito anos". E as áreas que se revelaram mais problemáticas nessa altura – como os derivados OTC (transacionados fora de mercado) e a securitização – estão mais reguladas e controladas.

"Em compensação, novas zonas de risco surgiram, desta vez em produtos mais simples - como os riscos de crédito e taxa de juro no mercado obrigacionista – ou em novos produtos complexos (por exemplo, ETF [fundos transacionados em bolsa], opções binárias) e mesmo como consequência não desejada da nova regulamentação", avisa.

E sublinha que "neste último caso estão por exemplo os riscos decorrentes da possível escassez de colateral para assegurar as obrigações decorrentes da regulação do mercado de derivados OTC (EMIR)".

Esta escassez "já tem levado alguns bancos a desenvolver novas linhas de negócio baseadas na cedência de colateral de boa qualidade a participantes daquele mercado, o que estabelece um novo canal de contágio de risco ao sistema bancário".

Por outro lado, sublinha o facto de que a "política monetária adoptada em reacção à crise tem contribuído para gerar novos riscos nos mercados financeiros".

Descoordenação
"Se, como referi, o conhecimento dos riscos é hoje mais perfeito, já a actuação no sentido da sua redução se tem revelado mais problemática. O próprio diagnóstico da situação e dos possíveis remédios não se tem revelado totalmente coordenado", alerta também.

"Em particular, a visão das autoridades de supervisão de mercados (através da IOSCO e da ESMA, por exemplo) e as dos supervisores prudenciais e dos bancos centrais nem sempre têm sido coincidentes e articuladas (apesar de podermos descortinar alguns progressos no passado mais recente, designadamente através do ESRB)", frisa.

E questiona se os agentes do mercado aprenderam lições com a crise de 2007-2009 e mudaram atitudes, comportamentos e procedimentos, incluindo acionistas, bancos e agências de rating.

"Infelizmente, tudo parece indicar que não haverá uma resposta inequivocamente positiva para estas perguntas. Infelizmente, parece consensual que os progressos no governo das instituições financeiras, em geral, ficam aquém do desejável", diz.

"A verdade é que não há bons modelos que resistam às más pessoas... E é por isso que todos - mas mesmo todos - os que têm responsabilidades nos mercados financeiros não devem cansar-se de formular e procurar a resposta para a simples pergunta: aprendemos com os erros do passado?", conclui.