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€50 mil já não escapam. Venham daí os negócios

Antes de sentarem para debaterem “Startups e Inovação” num programa gravado para a SIC Notícias António Mexia, Ricardo Costa, Daire Hickey e João Vasconcelos estiveram em animada conversa no palco do grande auditório da sede da EDP, após as apresentações de três minutos feitas pelas 15 equipas finalistas do Open Innovation

Marcos Borga

Equipa brasileira da Delfos foi a grande vencedora do EDP Open Innovation com o seu sistema inteligente de monitorização de turbinas eólicas, que impressionou na apresentação

Já ouviu falar de “Black Mirror”? António Mexia sim. Por conselho da filha começou a ver a série de antologia britânica cuja terceira temporada foi lançada recentemente no Netflix e em que cada episódio funciona como um retrato imaginário de cenários distintos, mais próximos do que pensamos. Uma metáfora caucionária para o advento da sociedade digital a que assistimos e a que o CEO da EDP fez questão de aludir. No Investment Pitch do EDP Open Innovation vincou que estava ali presente o futuro energético. Ideias com capacidade de moldar a realidade, sem (esperemos) chegar aos extremos orwellianos da ficção distópica. Mas deixemo-nos de palavras caras. Vamos aos factos de uma tarde que marcou o encerramento desta edição do projeto de empreendedorismo do Expresso e da EDP.

15 equipas de empreendedores do sector energético estavam no grande auditório da sede da elétrica, em Lisboa, para marcar o final do programa — que resulta da união entre o Energia de Portugal e o Prémio EDP Inovação — e descobrir quem arrecadava o grande prémio de €50 mil atribuído ao melhor projeto de negócio, bem como as três ideias escolhidas para irem à Web Summit. Para isso, prepararam uma apresentação de três minutos (o elevator pitch que dá nome ao evento) para exibir perante a plateia composta pelo júri e investidores, colocando em prática todo o esforço e ensinamentos recolhidos ao longo de quatro semanas de trabalho nos bootcamps realizados na sede da Fábrica de Startups — parceira do Open Innovation. Após a tensão e o nervosismo inerentes à ocasião, foi revelado que os brasileiros Delfos eram os grandes vencedores, enquanto o pódio foi completado por Glartek e Sunshine Rocks, respetivamente (saiba mais sobre eles no texto da página ao lado).

Holofotes em Lisboa
Não só da atribuição de prémios e da demonstração dos projetos a concurso se valeu o evento, conduzido integralmente em inglês para fazer jus à vertente internacional do Open Innovation, que nesta edição contou com equipas brasileiras e espanholas. Foi uma oportunidade também para uma discussão alargada para o impacto do movimento empreendedor em Portugal e de que certames como a Web Summit, que se realizará em Lisboa pelo menos nos próximos três anos, vão ter na economia do país. Razões mais do que suficientes para a gravação de um programa a ser emitido na SIC Notícias.
A moderação ficou a cargo de Ricardo Costa, diretor-geral de informação do grupo Impresa, num painel onde ninguém se furtou aos temas mais prementes da atualidade.

 O grande momento coube à Delfos, vencedora do prémio de €50 mil, à qual se juntaram a Glartek e a Sunshine Rocks. A emoção tomou conta do palco num misto de alívio e alegria que nenhum dos eleitos conseguiu esconder perante a câmara

O grande momento coube à Delfos, vencedora do prémio de €50 mil, à qual se juntaram a Glartek e a Sunshine Rocks. A emoção tomou conta do palco num misto de alívio e alegria que nenhum dos eleitos conseguiu esconder perante a câmara

Antigo jornalista e um dos cofundadores da Web Summit, Daire Hickey deixou a garantia que, entre 7 e 10 de novembro, os “holofotes do mundo vão estar em Lisboa.” Esperam-se mais de 50 mil visitantes na capital e existe uma “oportunidade enorme” para as empresas portuguesas aproveitarem e “darem um exemplo” aos grandes nomes. Atualmente, não se pode falar apenas de uma conferência, mas “várias juntas numa só”, onde se podem ver quase “alternativas de diálogo ao Fórum Económico Mundial.” A Web Summit cresceu, sem medo, numa lição que pode servir a muitas startups, “entidades com um ethos muito próprio.”

O debate contou ainda com o secretário de estado da Indústria, para quem o importante é colocar “a comunidade no centro da discussão.” João Vasconcelos acredita que a dinâmica do ecossistema atual terá “impacto em toda uma geração”, sobretudo quando se trata de “um movimento global” que já se verifica Portugal. Deve ser “uma prioridade para um país como o nosso, sem recursos naturais.” Quanto ao evento de que todos falam, já nos “colocou no mapa, com diversos artigos na imprensa estrangeira” que levaram muitos investidores a quererem saber o que por cá se passa. O impacto “não se pode avaliar só através de dados numa folha de Excel.” Existem “outras métricas”, menos quantificáveis, mas também essenciais. “Se pudermos utilizar as valias trazidas pelos participantes, só temos a ganhar. Pode ser uma revolução para uma cidade”, atira.

Para António Mexia, a questão é muito simples: “Se não nos abrimos à velocidade da mudança, seremos um dinossauro no futuro.” Para o gestor, “os riscos que vale a pena tomar e o futuro das próximas gerações” são dos “assuntos-chave” da sociedade. É importante “espalhar a palavra que temos de lidar com este novo mundo” e olhar para ele “não como um problema.” Encontramo-nos perante um “jogo diferente” e temos que aproveitar “a visibilidade indispensável.” As pessoas devem estar “mais ligadas” porque “se soubermos jogar com estas dimensões, vamos “melhorar a vida de todos.”

No encerramento, o CEO do Grupo Impresa, Francisco Pedro Balsemão, sublinhou: “Não devemos ter medo de pensar fora da caixa”

No encerramento, o CEO do Grupo Impresa, Francisco Pedro Balsemão, sublinhou: “Não devemos ter medo de pensar fora da caixa”

É o impacto real do empreendedorismo, além do estereótipo da tecnologia sem efeitos práticos, e que se tem procurado estimular no mercado português. Algo lembrado na abertura do Investment Pitch por António Lucena de Faria, CEO da Fábrica de Startups, para quem “empreendedorismo não é só começar uma empresa” mas também ter sucesso. “Não basta quantidade na criação”, garante. Não tem dúvidas de que, em 2011, na primeira edição do projeto, foram “pioneiros” quando o “empreendedorismo ainda não era uma palavra comum” e, agora, é dar o contributo para ajudar a “revolução.” Já Miguel Stillwell, diretor executivo da EDP, lembrou Bob Dylan para assinalar que os “tempos estão a mudar” e que o objetivo do “Open Innovation é dar mais diversidade ao nosso ecossistema” e “partilhar empreendedores com diferentes formas de pensar.”

No final da cerimónia, o CEO do grupo Impresa, Francisco Pedro Balsemão, afirmou ser “contra a dicotomia de velhos media contra novos media”, quando devia ser “bons em oposição a maus.” Porque, tal como na empresa que dirige, o importante é “estar constantemente a renovar o modelo de negócio.” Já António Mexia chamou a atenção para a importância de “antecipar e criar tendências” tal como “abrir o coração para quem faz diferente.” Quando temos “níveis de empreendedorismo acima da média europeia”, para João Vasconcelos é importante reconhecer uma nova geração “com maior visão e ambição global” e perceber, sem margem para dúvidas, “que o paradigma está a mudar.”

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 5 de novembro de 2016