Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Brexit e relações com os EUA à mesa dos hoteleiros

AÇORES. Segundo a AHP, o local do congresso “puxa pelo tema da nossa vocação mais atlântica”

A posição de Portugal no Atlântico e as alterações na política internacional são temas em foco no congresso da Associação da Hotelaria de Portugal, que decorre nos Açores de 16 a 18 de novembro

Vai ser um congresso “fora da caixa”, para pensar o mundo e a forma como Portugal se posiciona. Segundo a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), o próximo congresso que decorre em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel (Açores), de 16 a 18 de novembro, não se resumirá às questões relacionadas com hotéis e turismo mas terá um espetro mais abrangente, pondo pela primeira vez a tónica no posicionamento geoestratégico do país, pelos fortes impactos que traz à atividade turística.

“Portugal, Vocação Atlântica”, é o tema do primeiro painel do congresso da AHP, que tem como orador principal António Vitorino, advogado e ex-comissário europeu (que, enquanto comentador, defendeu recentemente não serem inultrapassáveis as questões que motivam as atuais divergências entre Lisboa e Bruxelas em matéria orçamental).

“Portugal tem no Atlântico um pilar da sua política externa, pelas ligações à América, ao Reino Unido e aos países de língua oficial portuguesa”, destaca o programa da AHP, enfatizando, por outro lado, que “vivemos momentos de transição na política internacional, de incertezas nas relações entre as grandes potências e de alterações profundas e imprevisíveis na União Europeia, que o 'Brexit' precipitou e a crise não ultrapassada agrava”.

“A Europa é um anão ao pé dos EUA”

“O turismo assenta fundamentalmente na livre circulação de pessoas, e temos a situação do Brexit, cujo impacto ainda está por medir”, salienta Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP. “Não sabemos se é um divórcio litigioso ou amigável, mas é um divórcio. E mais importante que os efeitos económicos são os impactos geopolíticos que pode trazer para pensar no turismo a médio prazo. Este virar de tabuleiro com o Reino Unido a sair da UE carece de ser pensado, a Europa claramente fica mais pequena no xadrez a nível mundial”.

A responsável da AHP destaca também o facto de o próprio local do congresso, os Açores, “puxar pela nossa vocação atlântica”, que constitui o tema principal do evento. “É a plataforma que Portugal tem mais perto dos EUA”, salienta Cristina Siza Vieira, lembrando “as ligações que sempre tivémos através do Atlântico, e que fazem parte da nossa identidade, com os Estados Unidos ou o Reino Unido, além de África e Brasil”.

“A Europa é um anão ao pé dos Estados Unidos, e isto coloca questões importantes para o país e para o turismo”, frisa.

GEOESTRATÉGIA. António Vitorino, ex-comissário europeu, vai ser o orador principal no debate sobre Portugal como “plataforma atlântica”

GEOESTRATÉGIA. António Vitorino, ex-comissário europeu, vai ser o orador principal no debate sobre Portugal como “plataforma atlântica”

JOSÉ CARIA

Nesta “reflexão sobre o posicionamento estratégico e geográfico de Portugal e o relevo da nossa vocação atlântica”, também participam Diogo Freitas do Amaral, professor catedrático, Michael Blaum, administrador da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e Bernardo Pires de Lima, investigador.

A necessidade de “captar e fidelizar o mercado norte-americano”, tendo em conta a estratégia da TAP/Jet Blue e o “aumento das rotas transatlânticas que refletem alterações nos principais mercados”, será outro painel dominante no congresso da AHP nos Açores, que vai contar com uma presença de peso: David Neeleman, acionista da TAP e fundador da Azul Airlines.

Trabalhar os Estados Unidos, segundo David Neeleman

“A presença de David Neeleman vai ser importante pelo incremento brutal que já estão a ter os voos diretos da TAP de Lisboa para os Estados Unidos”, sublinha Cristina Siza Vieira, enfatizando a necessidade de “apostar fortemente no mercado norte-americano, que é muito importante para o turismo. E não esqueçamos que é um país em que nem 20% das pessoas têm passaporte, e estamos a falar em convencê-los a vir para a Europa”.

Outros temas que vão estar à mesa do congresso da AHP nos Açores serão a internacionalização dos grupos hoteleiros nacionais, a par da estratégia de “crescer em Portugal”, a ética nos negócios (à cabeça, a criação de emprego), o posicionamento que os hotéis devem adotar ou as novas tendências no consumo digital. No painel dedicado ao digital, entre outros especialistas, destaca-se a participação de Fernando Oliveira, um brasileiro radicado em Londres que é perito na análise de 'reviews' da Tripadvisor, e que paralelamente tem tido um papel ativo como mentor e consultor de empresas 'startup' em parceria com a Portugal Ventures.

“O congresso é muito oportuno porque decorre imediatamente no rescaldo das eleições norte-americanas, e também por se realizar nos Açores”, salienta a presidente executiva da AHP, salientando haver “bastantes reflexões a fazer” neste campo, como “o ruído à volta do que vai acontecer à Base das Lajes, e neste sentido contamos com a participação da cônsul dos EUA Nos Açores, Elizabeth Konick”. Cristina Siza Vieira destaca ainda elementos novos, como o facto de António Guterres ser secretário-geral da ONU. “Vai ser um congresso muito forte”, garante.