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Prémio de risco português desce em outubro

Grécia e Portugal tiveram uma descida notória do risco no mês que findou, enquanto Itália registou um disparo. Prémio face a Itália, Espanha e Irlanda diminuiu significativamente. Rentabilidade da dívida portuguesa continua negativa

Jorge Nascimento Rodrigues

O mês de outubro saldou-se para Portugal por uma descida de 24 pontos base no prémio de risco e por uma subida ligeira, de apenas quatro pontos base, nas yields das Obrigações do Tesouro (OT) no prazo de referência, a 10 anos.

Foi o maior recuo, no mês que findou, no prémio de risco entre os periféricos da zona euro, superior ao registado para a Grécia (desceu 23 pontos base), e contrastando com o disparo para Itália (subida de 20 pontos base) e com aumentos ligeiros para Espanha (mais cinco pontos base) e Irlanda (mais três pontos base).

Fruto desta divergência entre Portugal e os três periféricos referidos, o spread de Portugal desceu em outubro 45 pontos base face a Itália, 29 pontos base face a Espanha e 27 pontos base face à Irlanda. No entanto, o prémio de risco dos quatro periféricos continua em patamares muito distintos face à referência alemã: mais de 3 pontos percentuais para Portugal; 1,5 pontos percentuais para Itália; 1 ponto percentual para Espanha; e menos de meio ponto percentual para a Irlanda.

Apesar do stresse ocorrido a 7 de outubro com as yields das OT, naquele prazo, a subirem para 3,6%, um máximo de mais de oito meses, e a rentabilidade da dívida portuguesa a afundar-se para -3%, medida desde início do ano, outubro acabou por registar melhorias. Verificou-se uma descida do prémio de risco da dívida portuguesa de longo prazo para 321 pontos base (o equivalente a 3,2 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã a 10 anos, que serve de referência) e uma melhoria no retorno, que se mantém negativo, mas fechou em -1,65% face a -1,87% no final de setembro. As yields das OT a 10 anos fecharam em 3,37% em 31 de outubro face a 3,33% no final de setembro.

Vaga de subida dos juros na zona euro

O mês ficaria marcado por uma vaga de subida das yields nas dívidas das economias do centro do euro, nomeadamente no caso da Alemanha, e nos periféricos, com destaque para Itália. No prazo de referência, a 10 anos, as yields subiram 48 pontos base (quase meio ponto percentual) para as obrigações italianas, 34 pontos base para as espanholas, 31 pontos base para as irlandesas e 28 pontos base para as alemãs. De sublinhar que os mínimos históricos registados em setembro nas yields das obrigações espanholas a 10 anos (abaixo de 0,9%) e irlandesas (abaixo de 0,35%) ficaram para trás.

No caso alemão, as yields saltaram de terreno negativo no final de setembro (-0,122%) para valores acima de zero (0,163%) no final de outubro. Assistiu-se, aliás, a um recuo dos prazos com taxas negativas nos 10 membros do euro que ainda as registam – Alemanha, Áustria, Bélgica, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Finlândia, França, Holanda e Irlanda.

O facto mais marcante foi a saída das obrigações alemãs do ‘clube’ mundial das yields negativas no prazo a 10 anos, que, agora, é exclusivamente ocupado pela Suíça. Também, as obrigações nipónicas a 10 anos saíram de terreno negativo a 31 de outubro, com as yields a fecharem ligeiramente acima da linha de água, dentro do objetivo fixado pelo Banco do Japão na reunião de 21 de setembro.

Portugal viu afastar-se o stresse do risco de um corte do rating da dívida de longo prazo para nível especulativo (vulgo ‘lixo financeiro’). A DBRS confirmou a notação de investimento e a tendência estável a 21 de outubro. Agora, a agência canadiana só volta a apreciar a situação em abril.

Incerteza sobre política do BCE

A pressão do rating sobre as OT, especificamente motivada por razões endógenas, foi substituída pela especulação em torno da possibilidade do Banco Central Europeu (BCE) não estender o prazo do programa de compra de ativos para além de março de 2017 e de iniciar uma redução mensal do volume de aquisições a partir dessa altura. O que afetaria todos os membros do euro, e em particular os periféricos mais dependentes da compra de dívida pública no mercado secundário pelo sistema de bancos do euro. Na primeira metade de outubro chegou a difundir-se o rumor que o BCE iria iniciar uma antecipação dessa redução.

Na sequência da reunião de política monetária do BCE a 20 de outubro, o seu presidente, Mario Draghi, desfez o rumor considerando-o gerado por “comentários aleatórios”, mas a especulação regressou depois da conferência do italiano em Berlim a 25 de outubro, apelando a mais política governamental (orçamental e de reformas estruturais) dos membros do euro para que o banco central possa iniciar um processo de ‘normalização’ de subida das taxas de juro e de desativação gradual das políticas monetárias não convencionais (o designado quantitative easing, QE). Draghi não se referia a algo iminente, mas a sua referência há necessidade de não manter taxas de juro muito baixas por um período prolongado, em virtude do aumento de efeitos negativos, deixou os analistas e os investidores em alerta.

A expetativa centra-se, agora, na reunião de politica monetária do BCE a 8 de dezembro. O processo de reflação (de aumento consecutivo da taxa de inflação) continua na zona euro, mas ainda é fraco. A inflação anual em outubro subiu para 0,5%, segundo a estimativa preliminar do Eurostat divulgada na semana passada.

O canário na mina de carvão

O disparo do risco italiano e a subida significativa das yields das suas obrigações, colocou Itália no foco no final de outubro. O jornal alemão de negócios Handelsblatt designava-a, na semana passada, como “o canário na mina de carvão” e apontava para o risco político próximo com o referendo constitucional a 4 de dezembro, quatro dias antes da reunião do BCE.

Na última sondagem divulgada na quinta-feira pela Demos & Pi o não à proposta de reforma constitucional apresentada pelo governo de Matteo Renzi levava dianteira com 39% contra 35% pelo sim. Apenas duas sondagens em 26 realizadas em outubro davam uma vitória do sim.

Ainda que haja algum alivio sobre Portugal neste final de ano, é preciso não esquecer “que o país não tem, ultimamente, um historial de ‘sobrevivência’ fora do quantitative easing - ao contrário de Chipre - e cada vez que o mercado questiona a elegibilidade para o QE do BCE - seja em virtude do rating ou de uma restrição do limite [elegível] para o emitente -, a pressão sobre as OT é maciça”, recorda ao Expresso David Schnautz, diretor do banco alemão Commerzbank, em Londres, para a área de Estratégia de Taxas de Juro.

A Itália passou a estar em foco, mas Schnautz acautela: “As atuais yields (muito baixas) permitem, apesar de tudo, alguns retrocessos significativos, sem necessariamente colocar em risco o acesso [de Itália] ao mercado (em contraste com Portugal)”. Itália deixou de financiar-se a taxas negativas na dívida obrigacionista a mais de 12 meses, mas coloca dívida a perto de zero por cento a 2 e 3 anos, abaixo de 1% entre 5 e 7 anos, a 1,7% a 10 anos e a menos de 3% a 15, 20 e 30 anos.