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O colapso financeiro de Portugal, segundo João César das Neves

Para o economista, é curioso que Bloco de Esquerda e o Fundo Monetário Internacional estejam de acordo sobre a reestruturação da dívida pública

tiago miranda

César das Neves, economista e professor catedrático

Elisabete Tavares

Elisabete Tavares

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Jornalista

Tiago Miranda

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Fotojornalista

O economista e professor da Universidade Católica, João César das Neves, explica em livro as 10 questões do colapso que Portugal poderá sofrer em 2016-2017. A provável derrocada financeira está em marcha, avisa. Em entrevista ao Expresso, em 10 respostas, afasta dramatismos. E aponta que um colapso pode ser bom para o país.

Portugal e os portugueses vão parar ao inferno em 2017?
Não é o inferno. Um colapso é desagradável mas é capaz de ser até o início de uma recuperação. A situação de apatia na economia é terrível e está a destruir muita coisa.

Têm surgido alertas. Mas parece que está tudo a correr muito bem.
A situação na economia portuguesa é muito ambígua. Temos sinais muito bons. O desemprego está a descer muito. A economia está a crescer. E, por outro lado, temos sinais assustadores: o investimento, a situação na banca. Há gente que olha para aquilo que está a correr bem e acha que está tudo resolvido, que tudo pode voltar ao normal. Aliás, essa é a atitude de muita da nossa elite que diz que se pode voltar à situação de antes da troika, como se isso fosse possível.

Não teme ser acusado de fazer profecias catastrofistas?
É normalíssimo porque estamos a assistir a uma grande luta entre os vários grupos de pressão para dividir o que existe. Portugal é um país desenvolvido, é um país rico. Um colapso não é uma desgraça. Há muito para dividir. E é essa luta entre quem perde e quem ganha que se está a desenvolver. A defesa ideológica de certas posições é isso mesmo, daí tentar atacar.

Portugal vai falhar compromissos com credores?
A questão da reestruturação da dívida é um fenómeno muito curioso porque o Bloco de Esquerda e o Fundo Monetário Internacional estão de acordo. Ambos dizem que é preciso fazer. E provavelmente têm razão. A dívida é insustentável. Esta dívida não vai ser paga. Uma reestruturação tem de ser feita de surpresa. E, sobretudo, tem de ser no quadro da União Europeia (UE), de forma ordenada. Este Orçamento do Estado (OE) também tem umas extrapolações para a dívida que são mais mirabolantes do que as do ano passado.

Como vê este OE dentro do tema que fala no livro?
Mais uma vez é uma ambiguidade. Aliás, este Governo joga muito na ambiguidade. O OE melhorou face ao do ano passado. O do ano passado era inacreditável. Este OE é um bocadinho melhor, menos mau. Continua a usar pequenos truques e é isso que assusta um bocadinho. Faz os mínimos para que a Europa não proteste e diz que anuncia melhorias nas pensões. Está completamente de costas viradas para o colapso. Interessa-lhe as pressões da Europa e dos grupos de pressão. E não estamos a ver o país a ir para um buraco. O país vai sendo espremido e quando a economia tiver um estouro não é possível cumprir nada.

E vêm aí eleições.
É esse equilíbrio que não vai ser fácil de manter por muito tempo. Este ano são as cativações, que é uma maneira genial de gastar dinheiro sem gastar dinheiro.

E os desenvolvimentos na banca são positivos?
É muito importante que consigamos captar capital. Portugal está sem capital, é esse o drama. Agora, há aqui um perigo enorme. Primeiro, quem são os estrangeiros? O sector dos seguros está a começar a ficar com um problema de capitalização muito sério. E isto demonstra a fragilidade da situação. A banca tem de funcionar como um sector a sério que olha para os investimentos com pés e cabeça e que não apenas empreste a gente amiga ou com influência política para obter favores, porque é precisamente por isso que o sector está na situação dramática em que está.

E como vê a criação de um veículo para o malparado?
O que tenho lido é que os bancos continuam a ser os responsáveis. É uma maneira de dar dinheiro a quem está a tratar desse assunto, de atirar isto para o próximo governo e os bancos ficam na mesma. Sendo que nem sequer controlam agora o seu balanço porque parte do balanço deles — e que no final são eles que têm de pagar —está nas mãos de outra entidade que eles não controlam. Essa situação que está em cima da mesa é ruinosa. Se for verdade o que tenho lido, parece ser uma maneira excelente de criar incentivos para tudo ficar na mesma embora empurrando com a barriga e rebentando daqui a uns tempos e libertando os atuais das responsabilidades.

E a situação da UE, com o ‘Brexit’?
Penso que não ficar tudo igual porque este choque do ‘Brexit’ é muito grande. A vida vai ficar mais difícil para os incumpridores. A principal vítima deste processo é Portugal.

Pode haver um milagre?
O milagre seria o crescimento económico. Por isso é assustador ver a política do Governo estar centrada em atividades não produtivas. Não se olha para as empresas nem para os trabalhadores. Olha-se para os funcionários e os pensionistas. O problema é a falta de capital. Devia facilitar-se, reduzindo regulamentos e criar condições para aumentar a confiança das empresas. A primeira coisa a fazer é calar as posições extremistas dos que apoiam o Governo.

Um aviso com a esperança de um milagre

João César das Neves arriscou. Mas até agora as suas previsões bateram certo. O quarto relatório de avaliação ao programa de ajustamento que o Fundo Monetário Internacional divulgou em setembro, já depois de o livro ter sido escrito (agosto de 2016), confirma os riscos sublinhados por César das Neves. Mas prever um colapso é um ato ambicioso e arriscado. O economista assume-o. Mas vale a pena, diz. Um dos objetivos do seu mais recente livro, agora publicado pela Dom Quixote, é provocar a mudança de atitudes e tentar evitar o pior. Mas “As 10 Questões do Colapso” não deixa margem para grandes dúvidas. Os sinais de que o país está a caminho de nova crise são evidentes. Poderia ser evitado se houvesse uma aposta o crescimento e na atração de capital, milagres que salvariam Portugal. Sendo o Papa Francisco o ‘padroeiro’ escolhido por César das Neves para o seu novo livro, nunca se sabe. Milagres acontecem. E o Papa virá a Fátima em 2017. É ter esperança.