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Juros da dívida disparam para Itália e Portugal

Na semana que findou, os juros da dívida portuguesa a 10 anos subiram para perto de 3,4%. Jornal alemão considera Itália “o canário na mina de carvão”. Discurso de Draghi em Berlim pedindo mais ação governamental para o BCE poder reduzir os estímulos monetários provoca vaga de subida dos juros na dívida soberana da zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das obrigações soberanas da zona euro no prazo de referência, a 10 anos, subiram na semana que passou em todos os seus membros, com exceção da Grécia. Destacaram-se nas subidas no mercado secundário da dívida três periféricos do euro – Itália, Portugal e Irlanda, com aumentos de 21, 20 e 17 pontos base respetivamente naquele prazo de referência. A subida foi particularmente acentuada na sexta-feira para Portugal e Itália.

No caso de Espanha, a subida semanal foi de 12 pontos base, e para a Grécia registou-se uma descida de 12 pontos base. O nível das yields das obrigações helénicas continua muito elevado, acima de 8%. A Grécia continua fora do programa de compras de ativos pelo Banco Central Europeu (BCE), não beneficiando desse impulso, e iniciou, agora, a segunda revisão do andamento do seu terceiro programa de resgate.

No ‘centro’ do espaço da moeda única, as yields das obrigações alemãs a 10 anos subiram 16 pontos base, saltando de terreno negativo a 21 de outubro, para 0,16% no fecho a 28 de outubro. A Alemanha saiu do ‘clube’ mundial dos juros negativos a 10 anos, deixando o Japão e a Suíça sozinhos. Como as obrigações alemãs a 10 anos servem de referência, o seu comportamento influência todo o mercado de dívida e os prémios de risco dos restantes membros do euro. Apesar da subida de 16 pontos base das yields das obrigações alemãs naquele prazo, o prémio de risco de Irlanda, Itália e Portugal aumentou durante a semana em um, três e cinco pontos base respetivamente. Nos casos de Espanha e Grécia, o prémio de risco diminuiu quatro e 28 pontos base respetivamente.

Depois de uma descida até 24 de outubro das yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos que atingiram um máximo de mais de oito meses a 7 de outubro em 3,6%, a trajetória voltou a inverter-se. A 21 de outubro fecharam em 3,19%, a 24 de outubro caíram para o mínimo do mês em 3,15%, e encerraram a semana em 3,39%. O stresse do risco de um corte do rating da dívida de longo prazo para ‘lixo financeiro’ pela DBRS alimentado desde agosto terminou a 21 de outubro. A DBRS só volta a analisar a notação portuguesa em abril do próximo ano.

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública regressou ao mercado obrigacionista colocando mil milhões de euros num leilão de dívida a 5 anos pagando uma taxa de colocação de 1,751%, inferior à registada no mercado secundário no dia da operação, a 26 de outubro. As yields destas obrigações fecharam em alta, em 1,86% na sexta-feira.

Draghi agita as águas

O fator que incendiou esta semana sobretudo o mercado da dívida de longo prazo da zona euro – e também, por contágio, o da dívida portuguesa - foi a interpretação dada pelos analistas financeiros a palavras de Mario Draghi, o presidente do BCE, em Berlim, no dia 25 de outubro.

O objetivo política da intervenção de Draghi no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) foi convencer os aforradores alemães de que a política de estímulos monetários, incluindo as taxas de juro de referência em 0% e de remuneração dos depósitos dos bancos em térreo negativo, é globalmente positiva para a Alemanha e para a poupança germânica.

No entanto, o impacto da conferência foi outro. Draghi disse que está consciente das distorções que podem ser causadas por aqueles níveis das taxas de juro do banco central se se mantiveram a níveis tão baixos como os atuais “por um período de tempo excessivo, já que os efeitos colaterais indesejáveis podem acumular-se ao longo do tempo”. Referiu, por isso, que “se queremos taxas de juros em níveis mais elevados”, ou seja, se se pretende que o BCE ‘normalize’ o seu quadro de política monetária convencional, então, é preciso agir sobre “as causas do excesso de poupança em relação ao investimento”. E isso é tarefa dos governos – das políticas orçamentais e de reformas estruturais.

Mario Draghi tem repetido que a política monetária está sobrecarregada e que os governos têm de desempenhar, agora, o seu papel. Insistência em que é acompanhado pelo Fundo Monetário Internacional e diversos outros organismos internacionais.

Os investidores parecem estar a interpretar estes apelos repetidos do presidente do BCE aos governos da zona euro como o reconhecimento que a política monetária está à beira de uma exaustão. No entanto, Draghi não deu, ainda quaisquer sinais de que iria a curto prazo rever as taxas de juro (em 0% no financiamento e -0,4% na remuneração de depósitos) ou sequer parar com o programa de aquisição de ativos em março próximo, e iniciar um processo de redução mensal das compras que envolvem 80 mil milhões de euros.

Este contexto gerou ainda mais expetativas em torno da próxima reunião de política monetária do BCE a 8 de dezembro, quatro dias depois do referendo constitucional em Itália, e um mês depois de conhecidos os resultados das eleições presidenciais norte-americanas.

O canário na mina de carvão

O programa de compra de dívida pública pelo BCE, iniciado em março de 2015, é particularmente critico para Itália e Portugal que têm a segunda e a terceira dívida pública mais elevada em relação ao PIB na União Europeia. A Grécia que tem o rácio mais elevado da dívida está sob resgate, com o financiamento sujeito às tranches do empréstimo dos fundos europeus.

O efeito positivo sobre o custo total da dívida pública emitida em 2015 e até setembro de 2016 foi enorme: caiu de 3,6% em 2014, para 2,7% em 2016 no caso de Portugal; e de 1,35% para 0,5% no caso de Itália para as mesmas datas. O peso dos juros anuais a pagar em relação às receitas do Estado é de 10,4% para Portugal e de 8,7% para Itália.

Com a acalmia em relação ao risco de corte do rating de Portugal, o foco dos analistas e dos investidores virou-se para Itália, que foi considerada, esta semana, “o canário na mina de carvão” pelo jornal alemão Handelsblatt, em virtude do conjunto de problemas económicos (taxa de crescimento abaixo de 1%), financeiros (crédito malparado e situação global do sistema bancário) e políticos (risco de queda do governo de Matteo Renzi e de eleições antecipadas em 2017, com peso crítico do Movimento 5 Estrelas anti-euro). A situação tem-se agravado com os efeitos da pressão migratória e dos terramotos.

  • Palavras de Draghi em Berlim apontando para a necessidade de uma subida das taxas de juro provocam aumento do custo das obrigações alemãs e dos periféricos. Juros a 10 anos das Obrigações do Tesouro fecham esta quinta-feira em 3,3%, mas prémio de risco desce

  • Portugal vem depois da Grécia, mas, surpreendentemente, a par da Alemanha, segundo uma análise de risco da firma de gestão financeira Martin Currie, filial da Legg Mason. Mas se Marine Le Pen ganhar em França as presidenciais no próximo ano, esse país passa a liderar o ‘clube’ de risco