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Prémio de risco desce nos periféricos apesar de juros subirem

Palavras de Draghi em Berlim apontando para a necessidade de uma subida das taxas de juro provocam aumento do custo das obrigações alemãs e dos periféricos. Juros a 10 anos das Obrigações do Tesouro fecham esta quinta-feira em 3,3%, mas prémio de risco desce

Jorge Nascimento Rodrigues

A zona euro está a ser afetada desde meados desta semana por uma vaga de subida das yields das obrigações soberanas de longo prazo. Os maiores aumentos verificaram-se esta sexta-feira para as obrigações alemãs, italianas e irlandesas na maturidade de referência, a 10 anos.

Os analistas atribuem este encarecimento do custo de financiamento da dívida de longo prazo na zona euro a palavras que Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, proferiu numa conferência no German Institute for Economic Research (DIW), na terça-feira, em Berlim.

Draghi referiu-se a um quadro da dívida soberana na zona euro - e no Japão - em que pesam os prazos em que as yields são negativas. A descida abaixo de zero foi paralela aos programas de quantitative easing (QE) e à baixa das taxas de juro dos dois bancos centrais. O que levou o presidente do BCE a afirmar que “devemos procurar criar as condições para um regresso das taxas de juro [dos bancos centrais] para níveis mais elevados”. Draghi disse estar "ciente" de distorsões que podem resultar de taxas de juro baixas. "Na verdade, preferimos não manter taxas de juro a estes níveis tão baixos por um período de tempo excessivo, já que os efeitos colaterais indesejáveis podem acumular-se ao longo do tempo", referiu.

Os analistas dizem que esta declaração incendiou os mercados da dívida soberana de longo prazo e aumenta a expetativa sobre as decisões na próxima reunião do BCE a 8 de dezembro. Correm rumores que o Bundesbank, o banco central alemão, esteja a pressionar Draghi para não ampliar o tempo de vigência do QE para além de março de 2017.

No caso das Obrigações do Tesouro (OT) português, no prazo de referência, as yields fecharam esta quinta-feira em 3,3%, ou seja, 10 pontos base acima do valor de encerramento a 21 de outubro, antes de ser conhecida a decisão da agência canadiana DBRS em manter o rating de investimento e a tendência estável para a dívida portuguesa de longo prazo.

Depois de uma recuperação de um pico do mês a 7 de outubro, chegando a 3,6%, as yields daquelas OT desceram para 3,15% no dia 24, mas inverteram a trajetória a partir daí. No prazo a 5 anos, o ‘efeito Draghi’ não se fez praticamente sentir; as yields das OT nesse prazo subiram marginalmente durante a semana, de 1,79% na sexta-feira passada para 1,796% esta quinta-feira. Na quarta-feira, o Tesouro português colocou dívida a 5 anos pagando ainda menos, fixando uma taxa de colocação de 1,751%.

Em virtude da turbulência, a rentabilidade negativa da dívida obrigacionista portuguesa desde o início do ano voltou a agravar-se, segundo o índice da Bloomberg. Depois de ter descido de -3% a 7 de outubro para -0,9% a 21 de outubro, voltou a subir para -1,36% no fecho de quinta-feira. No conjunto da zona euro, o retorno positivo desde início do ano reduziu-se de 5,27% para 4,16% naquele período. A Itália regista o retorno positivo mais fraco na zona euro, que emagreceu de 2,94% para 1,85% no mesmo período.

A dívida portuguesa continua a ser a única a registar rentabilidades negativas na União Europeia. Sempre que as yields sobem no mercado secundário (porque os Estados têm de pagar uma taxa mais elevada aos investidores em obrigações soberanas), o índice da dívida desce. Olhando para o índice no caso português, ele desceu de um máximo do ano de 154 a 15 de agosto para 147,5 no pico do stresse a 7 de outubro, voltou a subir para 151 na véspera das declarações de Draghi, mas inverteu a trajetória a seguir.

Juros alemães em máximo de cinco meses

No caso dos títulos alemães a 10 anos, as yields passaram de terreno negativo, tendo fechado em -0,002%, na sexta-feira passada, para 0,168% esta quinta-feira. Este nível já não se registava desde o final de maio.

As yields das obrigações italianas e irlandesas no mesmo prazo subiram 16 pontos desde sexta-feira passada. As que menos subiram foram as yields das obrigações espanholas, que aumentaram nove pontos base, de 1,14% para 1,23% naquele período. Só as yields das obrigações gregas desceram no mesmo período.

No entanto, o prémio de risco dos periféricos desceu. Como esse prémio é calculado tendo como referência o custo de financiamento da dívida alemã a 10 anos, o facto de as yields nesse prazo terem subido 17 pontos base, mais do que o que se verificou nos periféricos, o prémio reduziu-se.

No caso de Portugal, o prémio caiu seis pontos base para 313 pontos base (o equivalente a um pouco mais de três pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã) esta sexta-feira. A maior descida verificou-se para a Grécia com o prémio a cair 22 pontos base, mas mantendo-se num patamar muito elevado de mais de 822 pontos base.

Um dos efeitos do aumento em curso do custo de financiamento está a ser precisamente o emagrecimento dos prazos mais longos com yields negativas. O 'clube' das yields negativas no prazo a 10 anos agora só conta com a Suíça e o Japão, e, neste último caso, está muito perto da linha de água, como pretende a nova política traçada pelo Banco do Japão. A Alemanha já não é membro. Nos casos da Alemanha, Áustria, Finlândia e Holanda as yields negativas recuaram para o prazo a 8 anos.

Mais política orçamental e de reformas

O presidente do BCE reafirmou que para se conseguir "nornalizar" o quadro das taxas de juro é preciso mais do que a política monetária que tem prosseguido e vai continuar a impulsionar até que se verifique uma convergência da inflação com a meta oficial abaixo mas próxima de 2%.

“O segundo tipo de ações que necessitamos, se queremos que as taxas de juro subam para níveis mais elevados, são as que consigam aumentar a taxa natural [taxa de juro real que equilibre poupança e investimento num nível compatível com um produto no seu potencial e preços estáveis]. E isto requer uma focalização nas políticas que podem dirigir-se às causas de um excesso da poupança sobre o investimento – por outras palavras, as políticas orçamentais e estruturais”, recordou, uma vez mais, Draghi. Para isso é preciso centrar a ação governamental em mudanças que possam inverter a trajetória de declínio da produtividade. O que requer “políticas fiscais amigas do investimento” e “a reversão da estagnação do stock de capital público”.

O BCE, o Fundo Monetário Internacional e outros organismos internacionais têm insistido que a política monetária não pode ser sobrecarregada e que a política orçamental e a política do que se designa por reformas estruturais têm, agora, de ganhar primeiro plano.