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Estamos em 2.º lugar no risco para a Europa

Portugal vem depois da Grécia, mas, surpreendentemente, a par da Alemanha, segundo uma análise de risco da firma de gestão financeira Martin Currie, filial da Legg Mason. Mas se Marine Le Pen ganhar em França as presidenciais no próximo ano, esse país passa a liderar o ‘clube’ de risco

Jorge Nascimento Rodrigues

Portugal regista um risco de 6 numa escala de 0 a 10, que mede o impacto nos mercados financeiros do risco inerente ao panorama político em cada país da Europa, segundo a firma de gestão financeira Martin Currie, filial da gestora global norte-americana Legg Mason.

A liderar este ‘clube’ de risco encontra-se a Grécia, com uma pontuação de 8. Mas, surpreendentemente, a Alemanha, ombreia com Portugal, com a mesma pontuação de 6. Mas, se Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, ganhar as eleições presidenciais no próximo ano, o país salta para a ribalta, com uma pontuação máxima de 10 nesta classificação publicada em outubro.

A economia portuguesa sofre de um problema “na saúde geral do sector bancário”, em virtude da venda fracassada do Novo Banco, e regista um elevado rácio da dívida no PIB (o terceiro na Zona Euro, depois da Grécia e Itália), o que a empurra para uma pontuação acima do meio da tabela. “É possível que [Portugal] se veja obrigado a sair do euro, como previsivelmente também acontecerá com a Grécia. Ainda que haja sinais de que o mercado da dívida soberana portuguesa já começou a tomar isto em conta, ainda falta que isso se reflita no mercado de ações”, considera Michael Browne, gestor de ativos europeus da Martin Currie, na apresentação da classificação.

A análise daquela firma financeira toma em consideração a situação política em cada país e também o calendário eleitoral e aspetos importantes da gestão macroeconómica.

Ainda este ano, a 4 de dezembro, Itália vota um referendo sobre matéria constitucional que traçará o futuro do atual primeiro-ministro Matteo Renzi e do seu governo. As duas voltas das eleições presidenciais em França decorrem em abril e maio do próximo ano. O Banco Central Europeu terá de decidir se prolonga em março o seu programa de compra de ativos ou se inicia um processo gradual da sua desativação, com as implicações que isso poderá ter sobretudo nas economias periféricas do euro. E as eleições federais na Alemanha no segundo semestre do ano marcarão o cenário europeu, bem como as negociações, a partir do segundo trimestre do ano, da saída do Reino Unido da União Europeia.

Le Pen pode destronar Syriza

À cabeça, por ora, a Grécia governada pelo Syriza, com 8 pontos. “É o país da União Europeia que representa o maior risco político hoje em dia. Só será superado pela França no caso de uma vitória de Le Pen [nas presidenciais]”, algo improvável, mas não impossível, afirma Browne. Uma vitória da líder da Frente Nacional seria “um enorme choque para os mercados”.

Quanto à Grécia, a análise considera que “2017 poderá ser o ano em que os bancos [helénicos] chegam ao limite”. O governo grego acabou de iniciar o processo da segunda revisão ao andamento do terceiro resgate. Na mesa estão, agora, a análise da sustentabilidade da dívida grega e uma segunda reestruturação bem como o envolvimento futuro do Fundo Monetário Internacional no resgate. Atenas pretende encerrar estes dossiês atá à última reunião do ano do Eurogrupo a 5 dezembro. As eleições ainda estão longe, previstas para 2019.

Viragens potenciais na Alemanha e Itália

A par de Portugal, vem a Alemanha, com a mesma pontuação. “Angela Merkel e a sua União Democrata Cristã [CDU] estão numa posição que está longe de ser cómoda”, refere Browne. O marcado crescimento do apoio à esquerda desde as eleições de 2013, somado à crise da CDU [derivada da subida da Alternativa para a Alemanha, AfD], pode deixar a porta aberta a que os partidos de centro esquerda exerçam uma maior influência em matérias fiscais que não agradam aos mercados financeiros. Sendo a Alemanha um país com elevados excedentes externos, os ‘choques’ externos que possam advir em 2017 do abrandamento do ritmo da China e dos Estados Unidos, os seus dois principais destinos de exportação fora da União Europeia, têm de ser monitorizados.

Há um país que poderá passar a ombrear com Portugal e Alemanha na pontuação – a Itália. Atualmente com uma pontuação de 3, se o atual primeiro-ministro Renzi perder o referendo de 4 de dezembro, o risco dispara para 6, com a probabilidade de eleições antecipadas e uma subida do partido Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo, o que reforçará o movimento de oposição ao euro e à permanência na União Europeia. No entanto, a questão chave, segundo Browne, continua a ser a situação do sistema bancário transalpino e o crescimento económico anémico, inferior a 1%.

Espanha com baixo risco e Reino Unido com risco zero

Com uma pontuação de 3 surge a Holanda que vai a eleições a 15 de março do próximo ano. Apesar do peso nas sondagens que o Partido da Liberdade de Geert Wilders dispõe, e da sua influência no movimento eurocético, Browne acha que o resultado final será a manutenção de uma coligação pró-europeia que continuará a apoiar estreitamente a estratégia alemã.

Espanha, com maior estabilidade em vista de um novo governo de Mariano Rajoy, tem uma das pontuações mais baixas, de apenas 2. Browne considera mesmo que o nosso vizinho, mesmo com governo de gestão, estava em "velocidade de cruzeiro". E, surpreendentemente, o Reino Unido surge com risco zero. “Os mercados, por seu lado, parecem já ter interiorizado o Brexit, mesmo sem terem claro o que vai significar exatamente", conclui o analista.