Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Sucessão suave. Sai o pai, reforçam as filhas

O casal Américo e Fernanda, rodeado pelas filhas Paula 
(à esquerda), Marta (sentada) e Luísa (de pé)

DR

É uma transição sem solavancos. Paula, a mais velha, sobe na hierarquia e partilha com as irmãs a gestão do conglomerado

É uma sucessão anunciada, sem solavancos. Sai o pai, reforçam as filhas. Américo Amorim, 82 anos, de saúde debilitada, cede os cargos de gestão à filha, Paula, seguindo o critério da idade. Como herdeiras, Paula, Marta e Luísa partilharão o conglomerado empresarial. “É a lei da vida que determina uma mudança geracional e uma transição familiar suave e pacífica. A sintonia entre as irmãs é perfeita, a coesão familiar não está em causa”, resume ao Expresso um gestor próximo da família. Ele “rendeu-se às evidências e com esta passagem de testemunho reconhece que não é eterno”, acrescenta outra fonte, que acentua o “espírito de família” como marca dos Amorins. Com a reforma, o empresário não voltará mais à “ação executiva”, mas após “uma recuperação clínica espetacular”, tem margem para supervisionar e seguir os negócios que “rolam sobre esferas”.

As três irmãs diretamente, ou através dos maridos, já estavam representadas nas principais empresas do universo Américo Amorim. Por exemplo, na Galp, dossiê mais delicado e complexo, o genro Francisco Rego, com uma carreira ligada à energia, sempre funcionou como braço direito de Amorim. Francisco transferiu-se da Sodesa, uma parceria Sonae/Endesa, pouco tempo depois do casamento com Luísa, a mais expansiva e guerreira das filhas que dirige os negócios do vinho e da natureza. Outro genro, Nuno Barroca, é o representante histórico na Corticeira, dirigida por António Rios Amorim, sobrinho de Américo.

Nos negócios, Amorim decidia, dizia ele, com o coração do lado direito, apelando ao seu lado racional. Na sucessão é o apelo do sangue, o coração da família que manda. Os negócios seguirão para já inalterados. Amorim adiou ao limite a sucessão e manteve uma energia como se fosse eterno. E, no entanto, a adiada sucessão do empresário mais rico do país, segundo as avaliações da “Forbes” (€3,7 mil milhões ou da “Exame” €3,1 mil milhões), era há muito um assunto resolvido.

Sucessão faseada

Em 2002, Amorim reunira num jantar memorável no mosteiro de Grijó a nata da sociedade nacional que a ele se quis associar na consagração dos “50 anos de trabalho”. No rescaldo destas bodas de ouro, prometeu à família abrandar o ritmo e delegar tarefas. Em 2005, depois de regressar de um primeiro tratamento médico na Alemanha, lançou uma primeira reorganização do universo que partilhava com os irmãos, antecipou o modelo de sucessão e arrumou a casa do lado da Corticeira.

Em 2011, abre um novo ciclo empresarial, centrando os seus negócios numa holding pessoal (e das filhas) Amorim Holding II e esvaziando a Amorim-Investimentos e Participações, que partilhava com os irmãos. Paula e Jorge Seabra, o administrador-executivo e único elemento exterior à família, surgiam como vice-presidentes. Na nova versão, com a promoção de Paula à liderança, surge uma nuance na ótica do equilíbrio sucessório. Marta e o cunhado Francisco Rego surgem como vice-presidentes. A Galp replica a lógica aplicada na holding pessoal.

Paula, depois do segundo casamento com Miguel Guedes de Sousa (um gestor ligado ao negócio hoteleiro e ao fundo Explorer), divide-se entre Cascais e o Porto. Miguel tem permanecido afastado dos negócios da família e não terá vontade de mudar. Desde que antes do verão deixou o hospital, Américo não voltou às empresas, mas passou em agosto uns dias de férias no Algarve e permanece em recuperação na casa apalaçada do Campo Alegre, no Porto, que comprou a Miguel Quina, no rescaldo da revolução de 1974.

Lutou muito para chegar a uma fortuna que lhe garantiu, nos últimos anos, um lugar entre os 500 mais ricos do mundo. Galp, bancos e projetos turísticos e agrícolas em Moçambique e Brasil, fazendas, herdades e florestas são os ativos mais valiosos. O universo Américo Amorim está organizado em seis áreas de negócio (cortiça, floresta, energia, finança, imobiliário e luxo). A joia mais valiosa é a Galp (18%), na finança está focado no Banco Luso-Brasileiro (47%) e Banco Único (18%), em Moçambique, mantendo uma participação residual no Popular. Fascinado por “paisagens paradisíacas”, concentrou no nordeste brasileiro os maiores investimentos turístico-imobiliários.