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Guerra às casas feias

O casal Sheila e Mário Moura Azevedo, da Shi Studio, está a apostar nas casas 
com identidade

LUCILIA MONTEIRO

“Faltam casas com identidade”, diz Sheila Moura Azevedo, do Shi Studio, empresa que compra e reabilita moradias devolutas

Marisa Antunes

Jornalista

Quem tem dinheiro consegue sempre comprar a sua casa de sonho, verdade? Não forçosamente. Foi a partir da constatação que nem sempre a capacidade financeira é tudo quando se trata de adquirir uma habitação à medida das necessidades, que o ateliê de projetos Shi Studio resolveu investir em “casas com identidade”, em localizações escolhidas a dedo, que pudessem ser reabilitadas e adaptadas ao perfil de quem os procura.

Tendo como ponto de partida o conhecimento de mercado adquirido com os projetos de arquitetura de interiores feitos ao longo de mais de uma década à frente da Glamour’arte, com sede em Matosinhos, os sócios Sheila e Mário Moura Azevedo resolveram avançar este ano para um novo desafio que fosse além da assinatura dos projetos de design. Assim, extravasaram os limites da decoração e arquitetura de interiores e criaram a empresa Shi Studio, direcionada para a compra, reabilitação integral e venda de imóveis.

Com uma orientação muito específica. “Nos últimos 20 anos as casas foram perdendo identidade. O que aconteceu é que o mercado estava nas mãos dos empreiteiros que compravam os terrenos, construíam as casas e contratavam os arquitetos para licenciar os edifícios mas não para fazer a execução. Os pontos de entrada de luz, os tetos falsos, os acabamentos, tudo era determinado pelos carpinteiros, pelos eletricistas, pelos canalizadores, sem formação específica em projeto. E o nível das casas caiu redondamente, mesmo aquelas de meio milhão de euros ou mais”, sublinha a arquiteta de interiores Sheila Moura Azevedo, lamentando o ponto de descaracterização a que chegou o mercado imobiliário pós-década de 80.

Mesmo para quem investiu numa casa de raiz, “algumas até com a assinatura de arquitetos de renome”, em localizações escolhidas, surge agora outra constatação, diz Sheila: “No passado construíram-se habitações enormes, com 400 m2, mas a escala que mais se procura agora não vai além dos 200 m2, casas que nos ajudem a viver melhor. Só ter dinheiro não chega — não adianta ter um espaço que não cumpre a sua função”.

Comprar para renovar

Por agora começaram no grande Porto, nas zonas da Foz, Boavista, Leça da Palmeira, Matosinhos. “Zonas que consideramos boas para viver, onde se consegue desfrutar da vida, mais devagar, com qualidade”.

De uma assentada compraram cinco moradias, “todas devolutas, em muito mau estado”, conta Mário Azevedo, acrescentando que são imóveis dos anos 20 a 60.
A primeira foi logo vendida após duas semanas, ainda que a obra de reabilitação só esteja concluída no próximo ano. “Não dependemos do cliente final para comprar a casa”, acrescenta o sócio da Shi Studio, referindo que o objetivo é comprarem entre seis a 10 imóveis por ano.

A abertura do Shi Studio numa altura em que o mercado imobiliário já tinha os preços a subir não demoveu os empresários. “É verdade que os preços já estão altos, mesmo para estas casas devolutas, mas no nosso caso, que já temos o ateliê de design de interiores e temos a capacidade de com pouco fazer muito, vale sempre a pena”, diz Sheila.

Depois do grande Porto, a Shi Studio está já à procura de casas para reabilitar nos arredores de Lisboa, vindo ao encontro de uma carteira de clientes que já mantinha via Glamour’arte. “Zonas como Paço de Arcos, Oeiras, Algés. O nosso objetivo é fazer casas da gama alta mas não de luxo, não no sentido da ostentação”, conclui a designer.