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Juros da dívida não antecipam riscos vindos do BCE e do rating

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Os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos prosseguem esta quarta-feira a trajetória de descida iniciada depois do stresse de 7 de outubro. IGCP realiza duas emissões de dívida de curto prazo pelas 10h30

Jorge Nascimento Rodrigues

No mercado secundário da dívida soberana prossegue esta quarta-feira a trajetória de descida do custo de financiamento da dívida de longo prazo portuguesa. A queda em relação ao pico de 7 de outubro não antecipa riscos vindos da reunião do Banco Central Europeu (BCE) que se realiza na quinta-feira nem da comunicação da decisão da agência de notação canadiana DBRS na sexta-feira sobre o rating da dívida de longo prazo portuguesa.

Depois de um pico de 3,6% no dia 7 de outubro, provocado pela especulação infundada sobre um segundo resgate a Portugal e por um rumor acerca de uma antecipação de redução do programa de compra de ativos pelo BCE, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT) a 10 anos desceram para 3,245% no fecho de ontem e desceram para 3,22% pelas 10 horas (hora de Portugal). O pico de 7 de outubro foi o segundo mais elevado do ano, até à data, depois do stresse agudo de 11 de fevereiro, quando as yields naquele prazo de referência fecharam acima de 4%.

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) realiza esta manhã, a partir das 10h30, dois leilões de dívida de curto prazo, a 3 e 11 meses. Os próximos leilões de curto prazo serão realizados a 16 de novembro e 7 de dezembro. Até final do ano, o IGCP prevê realizar 1 a 2 leilões de Obrigações do Tesouro para findar o seu programa de financiamento no mercado primário em dívida de médio e longo prazo para 2016.

O prémio de risco da dívida portuguesa também tem melhorado. Depois de um pico do mês em 357,2 pontos base a 7 de outubro desceu para 320,5 pontos base esta quarta-feira. O prémio sinaliza o diferencial entre o custo de financiamento da dívida portuguesa em relação à dívida alemã no prazo de referência, a 10 anos. Como cada 100 pontos base equivalem a 1 ponto percentual, o prémio pago na aquisição de dívida portuguesa é, atualmente, de 3,2 pontos percentuais. Em final de setembro, o risco estava em 345,4 pontos base, acima do atual nível. O máximo do ano foi registado a 11 de fevereiro, quando disparou para 371,48 pontos base.

Também a rentabilidade negativa do conjunto da dívida obrigacionista portuguesa (medida desde início do ano) tem melhorado. Tendo descido para -3% a 7 de outubro subiu para -1,21% no fecho de ontem. O mínimo do ano foi atingido a 11 de fevereiro com a rentabilidade em -7,5%. A melhor rentabilidade do ano foi registada em 15 de agosto, subindo para 1,25% (em terreno positivo). A dívida portuguesa continua a ser a que regista retorno negativo. A média na zona euro está em 5,09%.

Sinais do BCE sobre programa de compra de dívida pública

A reunião do BCE que se realiza em Frankfurt amanhã é aguardada pelos analistas e investidores que procurarão descortinar sinais sobre o futuro do programa de compra de ativos nas intervenções do presidente Mario Draghi na conferência de imprensa.

O programa deverá terminar em março do próximo ano, mas surgiram no início de outubro rumores de que o banco central da moeda única poderia estar a preparar uma antecipação da redução da injeção mensal de 80 mil milhões de euros. Além do futuro temporal do programa, e da sua eventual gradual desativação ou, pelo contrário, extensão, os analistas têm chamado a atenção para as limitações que têm criado as atuais regras de elegibilidade e os tetos que impõem.

O Commerzbank, numa nota publicada esta semana, chamava a atenção que se tem ampliado, desde junho, o efeito acumulado do desvio entre o montante mensal de compras realizado efetivamente e os objetivos. Segundo um estudo do BPI, no caso português, tendo por base os atuais critérios de elegibilidade, o montante de OT disponível esgota-se em fevereiro, se o montante mensal em outubro e meses seguintes for similar à média desde início do programa, ou poderá estender-se até abril, caso a média mensal passe a ser similar à de setembro.

Um recuo do BCE dará um sinal negativo aos investidores em dívida soberana dos países periféricos, e, em particular, em relação aos mais frágeis. Os investidores deixarão de ter o banco central como ‘cliente seguro’ no mercado secundário. Ou seja, o financiamento no mercado das necessidades orçamentais em 2017 pode agravar-se a partir do segundo trimestre do ano, se o programa for gradualmente desativo e/ou as regras de elegibilidade não forem flexibilizadas.

Os analistas inclinam-se que a sinalização do futuro do programa não ocorrerá esta quinta-feira, havendo maior probabilidade que se materialize na reunião seguinte, a 8 de dezembro.

Governo português espera “boas notícias” da DBRS

O Ministério das Finanças português tem-se multiplicado em sublinhar que “na próxima sexta-feira as notícias serão boas” em proveniência da agência de rating canadiana DBRS.

O secretário de Estado do Tesouro e das Finanças Mourinho Félix começou por referir essa expetativa positiva na entrevista conjunta ao Expresso do ministro Mário Centeno e dos seus dois secretários de Estado no próprio dia de apresentação do Orçamento de Estado para 2017. Repetiu-o, ontem, em declarações à Lusa, especificando que o governo não espera nem um corte na notação para nível especulativo (“lixo financeiro”) nem uma mudança da tendência de “estável” para negativa.

O consenso entre os analistas vai no sentido de que a DBRS não procederá na sexta-feira ao anuncio de uma desgraduação da notação da dívida portuguesa de longo prazo que empurraria Portugal para fora do programa de aquisição de dívida pública no mercado secundário pelo BCE. Um evento desse tipo provocaria um ‘choque’ imediato na próxima semana nas yields no mercado secundário e numa próxima colocação de OT pelo IGCP. No entanto, há analistas, que antecipam uma revisão em baixa da tendência, como o Commerzbank, apontando para os repetidos comentários recentes de Fergus McCormick, co-responsável da atribuição de notações na agência, sublinhando um “círculo vicioso” no crescimento da economia portuguesa e os diversos riscos crescentes de médio prazo.