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Portugal em risco de um novo resgate? Agora é o “Wall Street Journal” a colocar a questão

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ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Jornal americano fala do crescimento lento da economia, do azedar do clima de investimento, do endividamento elevado. Diz que um novo resgate “seria um golpe na moral da União Europeia”

Na semana de apresentação do Orçamento de Estado, o "Wall Street Journal" (WSJ) dedica um artigo a Portugal, à situação económica do país e ao risco de um novo resgate, sublinhando que a recaída "seria um golpe moral na União Europeia".

Na síntese do diagnóstico sobre a economia nacional, o jornal norte-americano fala do "azedar do clima do investimento" e da debilidade do crescimento económico, sublinhando que o atual cenário é seguido com preocupação pela Europa uma vez que o país, depois do pedido de resgate, há cinco anos, poderá sucumbir novamente a um défice que se aproxima dos 130% do PIB.

O artigo fala da evolução de alguns indicadores económicos para defender que a recuperaçao da economia está a ser mais difícil do que o inicialmente esperado. Recorda alguns alertas de instâncias internacionais, como o FMI, sobre as vulnerabilidades da economia lusa, refere as preocupações da Alemanha, sempre exigente quanto ao rigor fiscal no sul da Europa, e recupera uma citação do ministro germânico das Finanças Wolfgang Schauble, no final de junho, quando disse: "Portugal está a cometer um grande erro se não respeitar os compromissos assumidos(...). Eles terão de pedir um novo programa de apoio".

A análise começa com declarações do empresário português Joaquim Beato, presidente da Molde Faianças SA, uma empresa que "está a vender bem e idealmente iria reinvestir parte dos lucros na investigação e desenvolvimento de novos produtos", mas que optou por não gastar um único euro. Tudo por causa do receio de quebras de vendas na Europa, devido ao abrandamento das economias de outros países deste continente. O mesmo empresário realça também preocupação com "obstáculos internos", designadamente "a incerteza quanto às políticas do Governo socialista e a dificuldade em obter financiamento num sistema bancário sobrecarregado por crédito malparado".

Lutar mais do que era esperado

Depois, o jornal avança para o aviso do FMI, em setembro, sobre o aumento do risco de Portugal não ter capacidade de reembolsar a dívida, deixando o país vulnerável às oscilações do mercado, apesar de considerar que, no momento atual, a situação ainda pode ser gerida com sucesso. E sublinha que um novo resgate "seria um golpe na moral da UE", já a braços com o crescimento débil da sua economia, medidas populistas e o Brexit. Esse cenário "iria mostrar como a Europa está longe de recuperar da crise da dívida que desafiou a sobrevivência do euro no início da década", diz o WSJ.

"Um pedido de resgate de Portugal, apesar do impacto improvável noutros países como vimos em 2011, levantaria de novo a questão do futuro da zona euro e, provavelmente, tornaria o clima político da Europa ainda mais hostil", comenta David Schnautz, do Commerzbank, citado pelo "Wall Street Journal".

Para o jornal, os indicadores económicos mostram que o país "está a lutar mais do que era esperado". Desde logo, na última sexta-feira, o Banco de Portugal avançou a previsão de uma quebra de 1,8% na formação bruta de capital fixo, um indicador que mede o investimento público e privado no país. Mas a economia também está a crescer a uma taxa de 0,9%, ou seja, 50% abaixo da previsão do Governo para este ano, com o consumo e as exportações a registarem subidas modestas.

"Os remédios" aplicados no âmbito do programa de resgate de 78 mil milhões de euros parecem agora insuficientes, considera o artigo assinado por Patricia Kowsmann e Marcus Walker, referindo que em 2011 o anterior Governo de centro-direita, no esforço de reduzir o défice e aumentar o emprego, subiu impostos, cortou despesas, alterou a legislação laboral, tendo garantido a saída do programa de resgate em 2014.

Investimento penalizado pela incerteza

Já sobre o Governo socialista liderado por António Costa, com o apoio dos partidos de esquerda, refere-se que este reviu rapidamente a política de cortes nos salários dos funcionários públicos, aumentou o salário minímo e começou a eliminar o imposto especial sobre rendimentos, contrapondo à austeridade o estímulo do consumo como motor da economia.

"Mas isso não aconteceu", diz o WSJ. O consumo, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, aumentou 1,7% no segundo trimestre, uma percentagem que compara com os 2,6% registados nos primeiros três meses do ano e a previsão de 2,4% avançada para os 12 meses de 2016. "As famílias estão a diminuir o consumo", afirma o jornal, antes de voltar a citar o FMI para dizer que as mudanças políticas "geram um clima de incerteza que parece ser um fator importante por trás do abrandamento do investimento".

Na mesma linha, Paulo Vaz, diretor-geral da ATP - Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, defende que as novas políticas estão também a prejudicar a produtividade e só a decisão de recuperar quatro feriados abolidos pelo anterior Governo terá custado às empresas têxteis 150 milhões de euros anuais.

Já o ministro das Finanças Mário Centeno garante que o Governo está a planear uma série de medidas para impulsionar os negócios, designadamente incentivos fiscais para quem investe. E diz que a quebra da taxa de desemprego para 11,1% em junho, contra 12,3% um ano antes, mostra que as políticas do Governo que integra estão a dar resultados e a puxar pela economia.

No entanto, conclui o WSJ, "economistas e investidores não estão convencidos e falam do aumento do custo dos empréstimos a Portugal".