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Mil pessoas já mudaram de funções na PT e não fica por aqui

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Com a entrada da Altice houve redução de chefias e alteração na relação com os fornecedores

José Carlos Carvalho

PT anda pelo país a convencer os trabalhadores a mudar ou a rescindir

Tudo mudou na Portugal Telecom desde que, em junho de 2015, a empresa franco-israelita Altice a comprou à Oi e Armando Pereira assumiu a presidência do conselho de administração do antigo operador histórico português. A PT Portugal sofreu uma profunda reestruturação, está praticamente irreconhecível e o impacto tem sido grande na vida dos trabalhadores. Cerca de mil pessoas já mudaram de funções ou de local de trabalho dentro da PT Portugal ou passaram para o chamado quadro de mobilidade interna, apurou o Expresso. Na prática saíram das antigas funções para fazer tarefas de backoffice, o que se traduz por vezes em presença em portarias como serviço de segurança e trabalho de correio interno, atividades que antes eram asseguradas por empresas contratadas em regime de outsourcing.

Nova investida

O doloroso processo de mudança está longe de estar fechado. Os recursos humanos, sabe Expresso, têm pessoas a percorrer o país para propor a alguns trabalhadores mudança de funções e de local de trabalho ou em alternativa a negociação de rescisão do contrato. Não foi possível apurar quantas pessoas estão a ser contactadas mas poderão ser algumas centenas. A PT, apesar de questionada, optou por não dar números. Antes os trabalhadores da PT, tendo as devidas condições de elegibilidade, podiam pedir a reforma antecipada. Mas agora já não podem e resta-lhes a alternativa de negociarem a saída.

Foi em junho deste ano, antes de começar o verão, que a PT avançou para esta nova ronda de colocação de trabalhadores no quadro de mobilidade interna. Os novos donos da PT Portugal, entre os quais o acionista português, Armando Pereira, nunca negaram que consideravam que a empresa tinha trabalhadores a mais. Mas Armando Pereira garantiu sempre que não iria haver despedimentos.

Apesar de recusar dizer quantas pessoas já rescindiram o contrato ou estão no quadro de mobilidade desde que a Altice entrou, fonte oficial da PT explica a estratégia: “A estrutura da PT foi reorganizada e simplificada no ano passado com o objetivo de tornar a empresa mais competitiva, mais ágil, com centros de decisão concentrados, tirando partido das sinergias entre funções e áreas de atuação, perto da operação e do cliente”. E prossegue: “Esta reorganização permite reforçar os nossos três compromissos estratégicos: aumento do investimento, potenciar a inovação e melhorar a qualidade de serviço. Nesse sentido, foram implementados processos de insourcing e movimentação funcional, que decorrem com normalidade e dentro dos objetivos estabelecidos”. É preciso ajustar os custos às receitas e elas têm caído. No segundo trimestre deste ano, as receitas da PT Portugal recuaram 4,4% face ao período homólogo, para €567 milhões.

Mudanças já são visíveis

“Foi um ano muito difícil”, confessa ao Expresso um quadro da PT que pede anonimato. Houve uma grande pressão sobre as chefias de primeira, segunda e terceira linha, que não só foram substancialmente reduzidas — em cerca de 40% — como também viram encolher as suas remunerações. O ambiente dentro da empresa é de grande desmotivação. Os tempos de abundância são uma história do passado. A PT tem atualmente nos quadros cerca de 9800 trabalhadores, mas tem mais cerca de 10 mil contratados através de empresas de outsourcing. Quando a Altice entrou na PT, o grupo tinha cerca de 11 mil trabalhadores no quadro, ou seja, já saíram cerca de 1200 pessoas. Dos trabalhadores contratados em outsourcing, cerca de 2500 estão adjudicados à operação técnica da operadora e mais cerca de 1500 trabalham nas áreas dos sistemas de informação e inovação, muitos dos quais são engenheiros. Números mais elevados do que os da NOS, a concorrente mais comparável, que tem 2500 trabalhadores nos quadros e cerca de 8000 pessoas em regime de outsourcing. Não obstante, as duas operadoras não são diretamente comparáveis, a PT tem uma maior presença no mercado, e é um operador histórico.

As mudanças não se fizeram sentir apenas ao nível da organização dos métodos de trabalho. Os planos de saúde da PT passaram a ser geridos pela Multicare e, nesse sentido, são atualmente mais restritivos e limitados. Ou seja, piores para os operadores. Outra das mudanças que criaram polémica e mal-estar foi a obrigatoriedade de os carros de serviço usados pelas chefias serem todos da Renault. As novas frotas começaram a chegar em setembro e já são exclusivamente da marca francesa, quando antes eram os trabalhadores que escolhiam a marca. Além disso, também é menor agora o número de chefias que tem direito a carro.