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“A banca está na lista deprimente por resolver”

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Alberto Frias

Portugal andou durante anos a garantir que a banca era segura. Ferraz da Costa diz que todos os gestores sabiam que isso era mentira

A banca é um sector onde Portugal tem muitos problemas por resolver, refere Pedro Ferraz da Costa. Mas não é o único. “Está numa longa lista, bastante deprimente, de assuntos que estão por resolver há 20 anos”, diz. Por exemplo, recorda que “houve um acordo entre partidos para mexer na lei eleitoral e passados 18 anos nada se fez. Há imensos casos onde a máquina da administração pública até poderia dar resposta se o grau de preparação, de vontade e de autonomia dos secretários de Estado e dos ministros fosse maior”.

A própria administração pública não está isenta de problemas, mas aí a solução, segundo Ferraz da Costa, começa por saber quem manda na administração pública. “Acho que ninguém manda”, comenta. “Em Portugal temos a tradição de empurrar com a barriga, de deixar andar, de não chatear muito e de sermos todos amigos” refere, voltando à questão da banca. “Andámos a dizer que não tínhamos um problema de bolha imobiliária na banca — quando ele existia — e garantimos durante anos que os bancos portugueses estavam muito seguros e que não havia problemas, até perante situações difíceis evidentes”, refere. “Mas as mesmas pessoas que diziam isso publicamente, em privado eram capazes de deixar cair que os valores que não se tinham utilizado do fundo de resgate nem sequer chegavam para resolver os problemas do BES.”

Provavelmente os bancos evitaram enfrentar esse problema. “Mas em nenhuma parte [do mundo] quiseram fazê-lo. Em que ocasião foram eles que subiram para o cadafalso sozinhos?”, questiona Ferraz da Costa.

“Vale a pena comparar a realidade portuguesa com o resgate que foi feito na Suécia. Em 15 dias o Estado nacionalizou, alterou os conselhos de administração, saneou e limpou. E em dois anos voltou a privatizar a banca. E nós aqui não tivemos isso. Espanha, praticamente no mesmo calendário, criou um banco mau, obrigou muitos bancos a engolirem outros mais pequenos, em que ninguém estava interessado e aquilo foi resolvido”, refere.

Sobre a proposta do Banco de Portugal — cuja origem remontará a 2010 — para criar um veículo destinado a limpar o malparado da banca, Ferraz da Costa admite que “quando se anda a discutir durante anos, já se sabe que nada vai existir”. Por outro lado, diz que “para tomar decisões é preciso ter credibilidade”. E conta que tem “colegas de idade e de curso que têm participado em reuniões europeias sobre banca, que me dizem que nunca se sentiram tão mal olhados, porque, com isto tudo, Portugal faz uma figura muito triste”.

Quanto à recente proposta que vários gestores andam a lançar para criar um banco de matriz nacional — que tem como objetivo a tentativa de manter o Novo Banco em mãos portuguesas —, Ferraz da Costa comenta: “Dá vontade de perguntar onde é que eles estavam todos no passado, quando se tomaram decisões que tornaram isso muito difícil.” O presidente do Fórum para a Competitividade recorda que “nos primeiros anos da década de 80 criámos em Portugal um regime offshore para os nossos emigrantes e isso permitiu financiar o desequilíbrio da nossa balança de pagamentos. Depois, Portugal prestou-se a ser o proponente da diretiva da poupança e do início da circulação de informação fiscal dentro da União Europeia, dirigida a pessoas que vivem em outros países”.

E o que é que aconteceu? “Secou as remessas dos emigrantes”, diz. “O Banco de Portugal — julgo que por razões de militância política — nunca quis dar dados sobre quais foram os efeitos desta mudança”, refere. “Se quisermos viabilizar mais bancos temos de tornar atraente os depósitos em dinheiro dinheiro nesses bancos. Mas não há essa consciência. Ouvimos propor medidas que são muito agressivas para comportamentos que devíamos estimular. É demagogia, inexperiência de juventude e um projeto político completamente irrealista. Se o dinheiro sair não volta a entrar”, remata.

Relativamente ao acesso de Portugal aos mercados internacionais, Ferraz da Costa diz que “estamos pendurados na DBRS, como única agência que nos põe a um nível acima de lixo. O ministro das Finanças sabe perfeitamente que a redução do défice orçamental é feita por estrangulamento, pelo sistema das cativações e por não gastar dinheiro em determinadas áreas. Não é reprodutível em muitos anos e nem sequer este ano porque é preciso pagar salários no final do ano”, diz. E antecipa: “Os últimos dois meses do ano serão difíceis.”