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Juros da dívida em máximo de quase oito meses

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Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos chegaram a subir até 3,6%, um nível que já não se registava desde meados de fevereiro. Stresse do rating e regresso da especulação sobre “segundo resgate” a Portugal juntaram-se a rumor sobre redução do QE do BCE e risco de nova crise mundial agitado por Schäuble no FMI

Jorge Nascimento Rodrigues

A primeira semana de outubro foi marcada por uma subida geral no mercado secundário das yields da dívida soberana na Europa e nos Estados Unidos.

No caso das Obrigações do Tesouro português (OT), no prazo de referência a 10 anos, as yields atingiram um máximo de quase oito meses, fechando, na sexta-feira, em 3,59%. Durante a sessão de sexta-feira chegaram a subir até 3,6%, um nível que já não se registava desde meados de fevereiro, depois da crise do Grexit e da reação internacional à decisão do Banco de Portugal em transferir alguma dívida sénior do Novo Banco para o BES “mau”.

Uma vez mais, as yields das OT foram as que mais subiram na zona euro ao longo da semana. Em relação ao final de setembro aumentaram 26 pontos base (equivalente a 26 décimas), acima da subida de 18 pontos base para as obrigações italianas, 14 pontos base para as obrigações irlandesas e espanholas, 13 pontos base para as alemãs (que regressaram a terreno positivo) e, apenas, três pontos base para as gregas. Fora da zona euro, as yields dos títulos britânicos subiram 22 pontos base, regressando a próximo de 1%, e as dos títulos do Tesouro norte-americano aumentaram 14 pontos base subindo para 1,73%. Fruto deste movimento altista, as yields das obrigações espanholas e irlandesas a 10 anos afastaram-se dos mínimos históricos a que tinham chegado na última semana de setembro.

O mesmo padrão verificou-se com o prémio de risco. O risco de Portugal foi o que mais subiu durante a semana entre os periféricos, fechando em 357,2 pontos base – cerca de 3,6 pontos percentuais de diferença em relação ao custo de financiamento da dívida alemã. Mantem-se, ainda, abaixo do máximo de mais de 371 pontos base registado a 11 de fevereiro. Em relação ao final de setembro, o prémio aumentou 12 pontos base para Portugal, cinco pontos base para Itália e Irlanda, e desceu ligeiramente para Espanha e mais acentuadamente para a Grécia.

Rumor sobre BCE e temor de regresso da crise do Deutsche Bank

O movimento altista geral nesta primeira semana foi influenciado por uma mudança no ‘sentimento’ dos investidores motivada pela confluência de um rumor, infundado, sobre uma alteração brusca da política monetária do Banco Central Europeu (BCE), com os temores em torno do regresso de uma crise grave de confiança no Deutsche Bank, o maior banco alemão, se o Departamento de Justiça norte-americano não reduzir substancialmente a multa.

O ‘sentimento’ ainda piorou, com a especulação de que o governo britânico de Theresa May avançaria para uma negociação “dura” do Brexit em 2017, e com o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, surpreendendo em Washington, à margem da assembleia anual do Fundo Monetário Internacional (FMI). Schäuble afirmou que “o risco de uma nova crise não foi afastado completamente” e aproveitou para atacar a politica “ultra expansionista” do BCE.

A semana ficaria marcada, de facto, pelo rumor sobre o BCE. O que começou por ser o que já se sabia, que o BCE não terminará abruptamente o programa de compra de ativos, quando decidir finalizá-lo, transformou-se no rumor que a equipa de Mario Draghi havia decidido reduzir o programa “antes da conclusão” em março de 2017, a uma média mensal de 10 mil milhões de euros. O rumor provocou um ‘choque’ no mercado da dívida.

A posição do BCE é, no entanto, outra: quando houver a decisão de findar o programa (seja em março de 2017, como está previsto, ou, mais tarde, se for prolongado), o processo de desativação subsequente será gradual, como sublinhou o analista Marc Chandler de Wall Street no próprio dia em que se difundiu o rumor. Se a redução for de 10 mil milhões mensais ao teto atual de 80 mil milhões de euros, isso significará um calendário de mais oito meses.

Stresse nacional

As yields da dívida portuguesa são muito sensíveis aos fatores externos – como o ‘choque’ provocado pelo rumor sobre a política do BCE, que poderia significar um corte abrupto na compra de dívida portuguesa no mercado secundário, fazendo disparar as yields -, mas a repercussão negativa é, sempre, mais elevada em virtude de fatores internos que, recorrentemente, afetam o ‘sentimento’ dos investidores.

Além do que já foi designado como stresse do rating, na espera da decisão da agência DBRS a 21 de outubro sobre a revisão da notação da dívida portuguesa, a semana seria marcada pelo regresso da especulação sobre um “segundo resgate” a Portugal. O comissário europeu Günther Oettinger acabou por dizer que o que afirmou no próprio Parlamento português é que um novo resgate “seria o pior cenário”, não que seria iminente. O comissário europeu Carlos Moedas viria, mais tarde, a afirmar perentoriamente que “não há nenhuma possibilidade de isso acontecer”, colocando um ponto final sobre a especulação em torno da posição de Bruxelas.

Entretanto, o Banco de Portugal veio referir que a meta de um défice orçamental de 2,5% do PIB pode ser atingida, apesar do FMI ter reafirmado, esta semana, no ‘Fiscal Monitor’, que as suas previsões continuam a ser de 3% em 2016 e 2017 e de 2,9% até 2021.

Bolsas fecham no vermelho

Ao impacto da especulação sobre a política do BCE juntou-se, esta semana, uma derrocada instantânea na libra face ao dólar durante a sessão asiática de sexta-feira (uma queda abrupta de 10% em minutos, segundo muitos analistas provocada pelos algoritmos) e números do emprego não agrícola nos EUA que ficaram abaixo das previsões dos analistas.

A primeira semana de outubro terminaria no vermelho nas bolsas mundiais, com uma queda de 0,55%, segundo o índice MSCI global. As quebras semanais registaram-se na Europa, com uma descida de 1,36% do índice MSCI respetivo, e em Nova Iorque, com um recuo de 0,71% do índice MSCI para os EUA. O índice PSI 20, da bolsa de Lisboa, perdeu 1,8% em termos semanais. Os mercados emergentes e de fronteira fecharam com ganhos semanais.

Outubro será marcado por três datas críticas para o mercado da dívida. A 14 de outubro, o governo português apresenta na Assembleia da República o orçamento de Estado para 2017 e terá de discutir o seu ‘rascunho’ com Bruxelas, bem como o andamento das medidas de consolidação para que o objetivo de défice de 2,5% do PIB seja cumprido em 2016. A 20 de outubro reúne-se o BCE, no meio dos rumores sobre o programa de compra de ativos e a crítica pública em Washington feita pelo ministro das Finanças alemão contra a política expansionista de Draghi.