Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Dívida privada excessiva é um 'ator ruim', diz Vítor Gaspar

  • 333

A dívida privada representa 2/3 da dívida global mundial que atingiu o seu máximo histórico. A sua parte tóxica pode ‘migrar’ para a dívida pública. A desalavancagem desse endividamento privado excessivo não é fácil, mas, se o problema não for enfrentado, arrisca-se nova crise financeira, avisa o ‘Fiscal Monitor’ do FMI apresentado esta quarta-feira em Washington

Jorge Nascimento Rodrigues

Os dois 'atores ruins' nas economias desenvolvidas são o endividamento excessivo e a baixa inflação, diz Vítor Gaspar num artigo publicado esta quarta-feira no blogue do Fundo Monetário Internacional (FMI) em coautoria com Marialuz Moreno Badia. Nesse quadro sobressai o sobreendividamento privado (empresas e famílias, excluindo as entidades financeiras) que domina 2/3 da dívida global, que atingiu um máximo histórico.

O artigo do ex-ministro das Finanças português e atual diretor do Departamento de Assuntos Orçamentais do FMI, intitulado sugestivamente “Big Bad Actors: A Global View of Debt”, pretende resumir as conclusões fundamentais do ‘Fiscal Monitor’ (FM) divulgado esta quarta-feira em Washington. O documento é elaborado pelo departamento de Vítor Gaspar e é uma das três peças fundamentais de previsões e recomendações que o Fundo faz para a sua assembleia anual, que se realizará de 7 a 9 de outubro.

O FM deste ano avança, pela primeira vez, com um número para a dívida de 113 países, cobrindo 94% do PIB mundial. A dívida global atingiu 152 biliões de dólares (cerca de 136 biliões de euros). Em termos de rácio em relação ao PIB mundial fixou um máximo histórico, de 225%. Ou seja, a dívida é superior a duas vezes a dimensão da economia mundial.

Dívida de empresas e famílias representa 140% do PIB

O problema é que cerca de 100 biliões de dólares são de dívida privada de entidades não financeiras, 140% do PIB mundial, que enfrentam os riscos de um processo de desalavancagem num ambiente de crescimento mundial fraco, de pouco mais de 3%.

A dívida privada acarreta na sua dinâmica dois impactos, sublinha o FMI. Por um lado, a sua parte “má” poderá migrar para a dívida pública. Por outro, o endividamento excessivo do sector privado está, historicamente, associado às crises financeiras. Estas crises costumma ser mais longas e mais profundas do que as recessões económicas normais.

O grosso dessa dívida está concentrado nas economias desenvolvidas – que, aliás, estiveram no epicentro da crise financeira, recorda o FMI – e em alguns mercados emergentes considerados sistémicos, como a China. No entanto, há diferenças significativas dentro das economias desenvolvidas: se a dívida privada desceu nos EUA de um pico em 2008 de mais de 190% do PIB para menos de 160% em final de 2015, depois de um processo de desalavancagem, no caso da zona euro o nível da dívida privada manteve-se, desde 2009, num 'planalto' perto de 160%.

Durante os períodos de retoma económica, o processo de desalavancagem e de deflação da dívida pode gerar uma espiral recessiva se não for tratado com cautela, alerta o documento.

Ao mesmo tempo, a dívida pública mundial também aumentou. Subiu 15 pontos percentuais em 15 anos, saltando de menos de 70% do PIB mundial no início do século para cerca de 85% em 2015.

Pico da dívida pública em 2017 nas economias avançadas

No caso das economias desenvolvidas deverá atingir este ano perto de 108,6% do PIB desse espaço. Deverá chegar a um pico de 109,2% no próximo ano, para depois declinar, segundo dados do FM. Um nível superior ao registado no tempo da Grande Depressão dos anos 1930 e ligeiramente abaixo do pico registado no após IIª Guerra Mundial, referiu Gaspar na conferência de imprensa.

Como sublinha o documento do FMI, uma parte do aumento ocorrido desde a crise financeira de 2008 deve-se à tal migração da dívida tóxica privada para o balanço dos governos.

A relação maldita entre as duas dívidas – privada e pública – implica que a gestão da crise financeira e do endividamento excessivo privado é mais difícil de resolver se os países envolvidos têm, à partida, “uma posição orçamental fraca”, sem almofadas de liquidez. Uma posição débil implica perdas de produto ainda maiores do que no caso das economias que têm espaço de manobra quando entram numa crise financeira. A perda em média, para os orçamentalmente fracos, é de 10 pontos percentuais nas economias desenvolvidas e de 15 pontos percentuais nos mercados emergentes. Ter ou não ter almofada, obtida nos ciclos de crescimento, faz toda a diferença.

Desalavancagem inteligente

A atual perspetiva de crescimento fraco da economia mundial no médio prazo (3,7% versus 4,2% antes da crise financeira), e em particular das economias desenvolvidas (1,7% versus 2,8% antes da crise financeira), dificulta a desalavancagem do sector privado, particularmente na zona euro, sublinha o ‘Fiscal Monitor’. Uma desalavancagem sem precedentes “pode ter um impacto negativo na retoma”.

Por isso, é indispensável que a política orçamental “faça mais”, ainda que “não possa atuar em isolado”. O FMI fala, agora, sempre, de uma trilogia na ação: política monetária expansionista, política orçamental amiga do crescimento e política de reformas estruturais que fomente a produtividade.

“Fazer mais”, no campo orçamental, significa mais com inteligência. O título do próprio ‘Fiscal Monitor’, este ano, é “Dívida – usá-la inteligentemente”.

O FMI recomenda, por isso, uma política orçamental dirigida a objetivos bem definidos, como a reestruturação da dívida privada de certos sectores ou certas entidades; o suporte público a reestruturações do sector financeiro, o que é considerado uma prioridade em alguns países europeus, ainda que a recapitalização bancária deva ser liderada pelo sector privado; o fim de distorções fiscais favoráveis ao endividamento em relação a outras aplicações em ações de empresas financeiras e não financeiras; a criação de incentivos fiscais para os credores no sentido de estenderem prazos e garantias; medidas que favoreçam a ação de empresas de gestão de ativos na limpeza dos balanços; e o investimento publico de alto retorno.

Uma avaliação dos impactos, realizada pela equipa do FM, revela que as ações focalizadas geram ganhos acumulados de 4% no produto no horizonte de cinco anos. Os investimentos de alto retorno têm um impacto de 2%. O aumento do consumo público tem um efeito negativo no médio prazo.