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Aviso do FMI. Europa é o ponto fraco do sistema financeiro mundial

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O sector bancário europeu precisa de uma urgente “reforma estrutural” que ataque o crédito malparado, reduza os custos operacionais e proceda a uma consolidação, recomenda o Global Financial Stability Report divulgado esta quarta-feira. Itália e Portugal na prioridade

Jorge Nascimento Rodrigues

A Zona Euro é o atual ponto fraco do sistema financeiro mundial, avisa o ‘Global Financial Stability Report’ (GFSR) do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado esta quarta-feira. Depois do ‘World Economic Outlook’, divulgado na terça-feira, o GFSR e o ‘Fiscal Monitor’ são mais dois documentos fundamentais do Fundo que serão debatidos na assembleia anual que se realiza em Washington entre 7 e 9 de outubro.

Mesmo com uma retoma cíclica ao longo do próximo quinquénio, 30% do sector na zona euro, equivalente a cerca de 8,5 biliões de dólares em ativos, estaria em situação de fraqueza, uma vulnerabilidade superior à média de 25% à escala do sector bancário no conjunto das economias desenvolvidas.

A única solução, diz o FMI, é juntar um plano de reformas estruturais do sector bancário aos efeitos da retoma cíclica que se antevê até 2021. Na zona euro, sem tais reformas, os mais vulneráveis são a Itália e a Grécia, e os que mais beneficiariam de um plano de reformas seriam a Itália, França e Espanha.

O relatório cita a banca portuguesa como enfrentando desafios similares ao sector italiano e como revelando “um impacto potencial ainda maior na dívida soberana”.

No caso da zona euro, tal plano conjunto reduziria para 18% o segmento de bancos em situação de fraqueza, diminuindo o seu peso para 5,2 biliões de euros em ativos. Ou seja, uma redução de 12 pontos percentuais do segmento bancário problemático.

Haveria uma reversão de uma perda de 85 mil milhões de euros para um ganho de 64 mil milhões de euros em termos de impacto líquido da venda do crédito malparado que somava, no final do ano passado, mais de 1 bilião de euros, com a Itália a liderar em termos absolutos, seguida de Espanha, França e Grécia. O crédito malparado em Portugal representa 15,7% do total dos empréstimos concedidos, no final do primeiro trimestre de 2016, segundo o GFSR. Em pior situação, em termos relativos, Chipre, Grécia e Irlanda. O rácio em Itália, segundo o GFSR, estaria em 12%.

O capital mínimo requerido reduzir-se-ia em 47 mil milhões de euros e os lucros dos bancos seriam aumentados em 43 mil milhões de euros.

Bancos enfrentam nova era

O FMI fala de quatro focos para essa reforma estrutural na zona euro: resolução do crédito malparado; aumento da eficiência operacional com redução de custos na ordem de 38 mil milhões de dólares; consolidação à escala europeia; e uso flexível da Diretiva para a Recuperação e Resolução Bancárias (sigla DRRB em inglês) “evitando surpresas” e flexibilizando, também, o Mecanismo Europeu de Estabilidade.

O alarme trazido pelo GFSR advém do facto do sector financeiro nas economias desenvolvidas enfrentar hoje os desafios de uma “nova era”. As condicionantes atuais centram-se no impacto negativo de taxas de juro dos bancos centrais muito baixas (e mesmo abaixo de zero em termos de remuneração dos depósitos nos bancos centrais da zona euro, Japão e outros países desenvolvidos da Europa) e no aumento da pressão sobre os seus modelos de negócio.

A queda na capitalização do sector na Europa é de cerca de 23% desde o início do ano, segundo o índice Stoxx Europa 600 bancos. Segundo o GFSR, uma queda de 20% resulta numa redução prolongada de crédito à economia, na ordem de uma diminuição de 4% três anos depois.

Aumentou incerteza política

A “sensibilidade dos mercados [financeiros] à incerteza” agrava a situação, diz o relatório. O impacto mais negativo verifica-se na Europa. O grau de incerteza política na Europa está atualmente em um nível superior ao registado aquando da recessão em 2009 e durante a crise do Grexit (risco de saída da Grécia do euro e seu contágio) em 2012. Tendo declinado entre 2012 e 2014, disparou em seguida. O nível de incerteza é muito mais baixo nos Estados Unidos, mas tem estado a subir desde o final de 2014.

O ponto de vista do FMI é que a situação não se resolve apenas esperando que uma retoma cíclica desempenhe o seu papel positivo. “Uma retoma cíclica não resolverá o problema da baixa rentabilidade” do sector bancário nas economias desenvolvidas, conclui o GFSR.

O relatório não faz menção à situação dos grandes bancos alemães que estiveram em foco em setembro. Na conferência de imprensa de apresentação do GFSR, Peter Dattels, diretor do Departamento de Mercados de Capitais e Monetários, e responsável pelo relatório, afirmou que o Deutsche Bank terá de “convencer os investidores que o seu modelo de negócio é viável no futuro e que resolveu o risco operacional derivado da litigação”. Mas descartou risco iminente: “Estamos confiantes que as autoridades alemãs e europeias estão a monitorizar a situação e a trabalhar para assegurar que o sistema financeiro continua resiliente”.