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Portugal liderou subida dos juros da dívida e do prémio de risco em setembro

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Os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos aumentaram 28 pontos base e o risco de Portugal subiu 34 pontos base no mês que findou. Grécia e Itália são os colegas do trio das subidas. Espanha e Irlanda fixaram novos mínimos históricos

Jorge Nascimento Rodrigues

O contraste entre duas realidades nos periféricos da zona euro é cada vez mais nítido. Em setembro, as yields das obrigações no prazo de referência a 10 anos subiram no mercado secundário da dívida para Portugal, Grécia e Itália, e desceram para Espanha e Irlanda. Estes dois últimos fixaram inclusive novos mínimos históricos no último dia do mês.

O mesmo padrão no prémio de risco, que mede a diferença com o custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência.

O pico do stresse no Deutsche Bank alemão afetou o mesmo trio de periféricos, Portugal, Itália e Grécia, particularmente no dia 27 de setembro. A desdramatização da crise do banco alemão na tarde de sexta-feira provocou a descida das yields no mercado secundário e do prémio no dia 30 de setembro em todos os periféricos do euro, mas não alterou o padrão verificado ao longo do mês.

Portugal liderou em setembro as subidas nas yields da dívida a 10 anos no mercado secundário e no risco país. O custo de financiamento das Obrigações do Tesouro a 10 anos subiu de 3,05% no final de agosto para 3,33% no final de setembro, uma subida de 28 pontos base (cada 100 pontos base equivalem a um ponto percentual). No caso da Grécia a subida foi de 13 pontos base e no caso de Itália de cinco pontos base.

Em contraste, no prazo de referência, as yields das obrigações espanholas desceram 14 pontos base e das obrigações irlandesas recuaram nove pontos base no período referido. Na última sessão de setembro, as yields dos títulos espanhóis e irlandeses fixaram novos mínimos históricos no prazo a 10 anos: 0,335% para a Irlanda e 0,879% para Espanha. O diferencial em relação ao patamar de 3% das OT a 10 anos de Portugal ampliou-se.

O prémio de risco (ou risco país) subiu 34 pontos base para Portugal, 19 pontos base para a Grécia e 11 pontos base para Itália. Desceu seis pontos base para Espanha e dois pontos base para a Irlanda.

Stresse do rating e choque alemão

O risco de Portugal subiu de 311 pontos base no final de agosto para 345 no final de setembro.

O mês de setembro foi atravessado pelo designado stresse do rating. Ou seja, o risco de as principais agências de notação de crédito piorarem as apreciações sobre Portugal (o que acabaria por não acontecer com as revisões agendadas da Moody’s, para 2 de setembro, e da Standard & Poor’s para 16 de setembro, duas agências que classificam a dívida portuguesa em nível especulativo, vulgo ‘lixo financeiro’) e a especulação em torno da possibilidade da agência canadiana DBRS rever a perspetiva estável para negativa, ou pior, cortar para nível especulativo o rating de Portugal a 21 de outubro.

O risco agravou-se, também, porque as yields das obrigações alemãs a 10 anos afundaram ainda mais em terreno negativo. Fecharam setembro em -0,079% face a -0,011% no final de agosto.

Pelo meio, regressou a especulação sobre um segundo resgate no caso de uma saída de Portugal da elegibilidade para o programa de compras de obrigações pelo Banco Central Europeu (que poderia advir de um corte de rating pela DBRS em outubro) e de ocorrer um fecho súbito do acesso do IGCP, da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, ao mercado de emissão de dívida obrigacionista.

A Moody’s considerou tal cenário como de probabilidade baixa. O Fundo Monetário Internacional (FMI), na análise de sustentabilidade da dívida portuguesa inserida no relatório pós-programa, divulgado este mês, fala de riscos crescentes, da grande vulnerabilidade da dívida portuguesa a mudanças no ‘sentimento de mercado’ e a contágios de crises alheias, mas considera os riscos suscetíveis de serem geridos. A precaução do IGCP em manter uma almofada de liquidez de seis meses em final de ano (atualmente em 6,5 mil milhões de euros) foi louvada pelo FMI.

O contágio, como ocorreu no final do mês com o stresse em torno do Deutsche Bank (DB), fez-se sentir em Portugal, Grécia e Itália. No caso português, segundo a Reuters (que utiliza uma nova referência na dívida alemã a 10 anos), o prémio disparou, a 27 de setembro, para 401,52 pontos base – mais de 4 pontos percentuais de diferença em relação ao custo da dívida alemã -, ultrapassando, significativamente, o pico de 11 de fevereiro, quando aquele atingiu 371,48 pontos base.

O efeito DB foi superior ao impacto do stresse do rating português. O que confirma a alta vulnerabilidade (de Portugal, Grécia e Itália) aos choques externos mesmo que temporários.

O stresse do rating vai continuar em outubro, tendo em conta as negociações em Bruxelas e na Assembleia da República em Lisboa em torno do orçamento de Estado para 2017 e da apreciação do andamento das medidas que garantam que o défice orçamental português ficará na meta de 2,5% fixada pela Comissão Europeia para 2016. A agência DBRS revê a situação do rating a 21 de outubro.

Rentabilidade negativa da dívida portuguesa

A dívida obrigacionista portuguesa continua a ser a única na zona euro a registar uma rentabilidade negativa medida no índice desde início do ano e em termos de 52 semanas. Fechou setembro com um retorno de -1,87% desde início do ano e de -2,07% nas últimas 52 semanas. Este indicador agravou-se em setembro em relação a agosto, mas os indicadores mais negativos em 2016 registaram-se, até à data, em março e abril.

As médias da zona euro são de 6,24% e 6,75% respetivamente. As dívidas espanhola e grega são as que dão maior retorno nas últimas 52 semanas, acima de 8,5%. Na Europa, a dívida que maior rentabilidade regista desde início do ano é a britânica, que fechou setembro em 14,82%.